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Toni, a ministra peruana que é essencial no combate à crise da Covid-19

Ela é a única mulher do continente americano a ter o cargo de ministra da Economia e direcionou 12% do PIB do Peru para auxílio a pessoas desempregadas

Por Colaborou: Maria Clara Serpa - 28 Maio 2020, 18h00

A América do Sul é uma das regiões mais perigosas do mundo para mulheres e tem poucas políticas públicas voltadas a essa parcela da população. O machismo também fica claro nos governos que, em sua maioria, contam com pouca representatividade feminina – nos ministérios de Jair Bolsonaro, por exemplo, há apenas duas mulheres, Damares Alves, ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, e Tereza Cristina, que comanda a pasta da Agricultura. Neste contexto, ganhou notoriedade María Antonieta Alva, de apenas 35 anos, que assumiu o Ministério da Economia e Finanças (MEF) do Peru em outubro de 2019.

Alva é um dos nomes femininos mais fortes da política da América do Sul atualmente. Apesar de os outros países latinos viverem quase uma onda de jovens ministros da economia – na Argentina, Martín Guzmán tem 37 anos; Juan Ariel Jiménez, da República Dominicana, 35 anos; e Richard Martínez, do Equador, 39 anos – ela é a única mulher do continente americano a ter esse cargo. Toni, como foi carinhosamente apelidada, chegou para substituir Carlos Oliva, de 55 anos, e já veterano. Atualmente, outras sete mulheres são ministras no Peru – número alto se comparado com a maioria dos países americanos. 

Facebook/Reprodução

Depois de anos de ditaduras e golpes de poder, a economia do Peru conseguiu se consolidar e vinha em uma crescente há mais ou menos 20 anos. Porém, assim como em todos os outros países, a pandemia afetou duramente a economia do Peru, que espera uma queda de 9% no PIB esse ano. Muitos duvidaram da competência de Toni quando ela foi nomeada pelo presidente Martín Vizcarra, mas a ministra está conseguindo conter a crise e criar medidas de auxílio à população. Além disso, ela ganhou a simpatia dos peruanos por conta da preocupação com os cidadãos comuns e com as pequenas empresas.

Sua história

María Antonieta Alva Luperdi nasceu em Lima, no Peru, no dia 7 de março de 1985. Ela é filha do engenheiro Jorge Elías Alva Hurtado, que atualmente é reitor da Universidade Nacional de Engenharia, e de Maria Antonieta Luperdi Brito. Cresceu ao lado de dois irmãos e teve uma infância e adolescência tranquilas, em uma família de classe média. Seu interesse por pautas sociais surgiu ainda na infância, nas viagens que fazia com o pai pelo interior do Peru para visitar às obras que ele coordenava.

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Em entrevistas, Toni conta que começou a acompanhá-lo aos 5 anos e logo percebeu que sua realidade era muito diferente que a da maioria das crianças daqueles lugares que visitava. As escolas eram mais precárias, elas não tinham brinquedos e algumas sequer tinham casas. Este foi o primeiro contato que a ministra teve com a desigualdade social peruana.

Aos 18 anos, entrou na Universidad del Pacífico, uma universidade privada de Lima, para estudar Ciências Econômicas. Em seus anos na faculdade, se aproximou de lideranças universitárias e chegou a ser presidente do Centro Acadêmico. Além disso, ajudou a fundar um diretório interuniversitário, que une todas as faculdades do Peru. Após se formar, em 2008, seguiu para a Universidade de Harvard, nos EUA, onde conseguiu uma bolsa integral para fazer sua pós-gradução em Administração Pública e também passou um período na Índia com o programa internacional Women and Public Policy, para mulheres que se interessam por políticas públicas.

O início da carreira

De volta ao Peru, Toni passou a se dedicar à vida de funcionária pública. Passou primeiro pelo MEF, onde foi assistente e analista, seguiu para o Ministério de Desenvolvimento e Inclusão Social, onde também foi analista, e depois para o Ministério da Educação, onde foi coordenadora de gestão. Em 2017, voltou, por fim, ao Ministério da Economia como Diretora Geral de Despesas. Ao mesmo tempo, também lecionava em uma faculdade de administração.

Com mais de 10 anos trabalhando no governo, em outubro Toni foi convidada pelo atual presidente para a ser a nova ministra da Economia. Atualmente, o governante tem uma boa taxa de aprovação entre os peruanos, mas no início do mandato, em 2018, quando assumiu o cargo após a renúncia de Pedro Pablo Kuczynski, foi amplamente criticado. A situação se agravou com a escolha de Toni para o MEF. Grande parte da população acreditava que ela era muito jovem para ter um cargo tão importante – além, é claro, do machismo enraizado que sempre coloca as mulheres como menos capazes.

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Menos de 6 meses depois de assumir o ministério, Toni precisou encarar uma das maiores crises da história do país. O Peru soma, nesta quinta-feira (28), 135.905 casos confirmados de coronavírus e 3.983 mortes, o que o torna o segundo país com mais infectados na América Latina, atrás apenas do Brasil. Apesar de terem decretado quarentena no país no dia 15 de março – o isolamento deve seguir até pelo menos 30 de junho –, o Peru não conseguiu conter o contágio e hoje vive um estado caótico, com quase todos os leitos de UTI ocupados e pouquíssimos respiradores disponíveis.

Controle da crise

Foi nesse contexto de crise que Toni conseguiu se destacar e ganhar o apoio do povo peruano. Como o país possui uma taxa de trabalhadores informais que chega perto de 80%, foi quase impossível para o povo conseguir manter o isolamento e, assim, a transmissão ficou descontrolada. Com a economia piorando e pessoas passando fome, a ministra precisou tomar “medidas extraordinárias para uma situação extraordinária”, como ela mesma disse. Assim, organizou um dos maiores pacotes de estímulo econômico da América Latina, destinando 25 bilhões de dólares, o que equivale a 12% do PIB, para auxílios econômicos às famílias vulneráveis. Cada família com desempregados ou trabalhadores autônomos recebeu cerca de 760 soles, o equivalente a quase 1.300 reais. Até agora, quase 7 milhões de lares foram beneficiados.

Com uma política menos voltada para o liberalismo, como era o comum nos últimos governos, e foco nos mais necessitados, Toni conseguiu se tornar quase uma superstar peruana e hoje recebe muito carinho da população. Em entrevistas, ela explicou que foi possível criar o grande plano econômico porque o Peru possuía grandes reservas no Banco Central. “As reservas são feitas para serem usadas em situações como essas. Não me importo de usá-las, desde que consiga ajudar a população que precisa ainda mais neste momento”, disse em um pronunciamento.

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Apesar de ser um pacote de estímulo econômico ambicioso, ele não é perfeito. O governo criou maneiras de resgatar o auxílio pela internet, porém 38% dos peruanos não têm conta em bancos e, por isso, precisa ir pessoalmente retirar o dinheiro. Isso causou filas e aglomerações e, segundo especialistas, pode ter acelerado a transmissão do vírus.

Apesar de não falar diretamente sobre o feminismo, Toni mostra interesse pelo assunto através de seu trabalho e de sua preocupação especial com as famílias geridas por mulheres. Mesmo com todas as adversidades e o machismo que sofreu, conseguiu se tornar a ministra mais popular do governo de Vizcarra, com 75% de aprovação.

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