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Tédio na quarentena é uma chance para a criatividade

A publicitária Cintia Gonçalves fala sobre a potencialização da imaginação, inclusive nas crianças, neste período

Por Cintia Gonçalves 14 jun 2020, 11h23 | Atualizado em 4 jun 2026, 14h15
criatividade na quarentena
 (pchyburrs/Getty Images)
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Entre os tantos desafios que esta pandemia tem nos colocado, a convivência com o tédio é certamente um dos mais recorrentes. Em um estudo publicado na Itália, no final de março, com pessoas que estavam em situações de isolamento por mais de um mês, o tédio foi citado como uma das questões mais difíceis de lidar, ficando atrás apenas da sensação de perda de liberdade. 

A verdade é que o tédio, definido com incômodo ou desgosto temporário, sempre fez parte do grupo das emoções desconfortáveis, das quais tentamos escapar assim que possível. Esse sentimento irritante é, na verdade, um sistema de alerta sofisticado para o nosso cérebro de que não estamos contentes com o que estamos fazendo e um empurrão para uma atitude de mudança.  

Conforme pesquisa realizada pelo psicólogos alemães Thomas Goetz e Anne Frenzel, publicada no jornal Motivation and Emotion, existem diferentes estágios do tédio. Em um primeiro momento, a sensação de apatia e relaxamento é seguida de uma fase em que nossa mente começa a nos abrir diferentes portas de saída. Imaginamos soluções, como por exemplo ir comer alguma coisa, ligar a TV, ler um livro ou tomar um banho.

Na fase três, chamada de busca, entramos no processo de pesquisa. Se eu decidir comer, por exemplo, sei que posso abrir a geladeira e começar a procurar soluções. A quarta etapa é a reativa, um momento ativo de ruptura onde decidimos produzir e criar para resolver o problema, seguindo o exemplo acima poderíamos decidir ir fazer um bolo. Peter Toohey, autor do livro ‘Boredom, a lively story’, resume: “a criatividade é um antídoto para o tédio, as pessoas produzem coisas criativas para medicar seu problema”. 

Tenho vivido e visto esta experiência na prática. Minha filha de 6 anos faz parte da chamada geração alfa, formada por crianças que nasceram de 2010 para frente, ano em que a Apple criou o iPad. Esta é a primeira geração que está convivendo desde o berço com a tecnologia e, para a qual, o mundo analógico pode parecer muito distante. Porém, neste período de isolamento, tanta tecnologia também entedia. E eu, fazendo parte do grupos de mães executivas, frequentemente tenho o impulso (e inúmeras vezes cometo o erro) de tentar promover a ela uma agenda repleta de atividades e programações. Mas o fato é que, nesta quarentena, não estou dando conta. Quer saber a consequência? O tédio, exatamente como dizem os especialistas, tem potencializado a criatividade dela. 

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Tenho desenhos por toda a parte da casa, livros que a Carol decidiu escrever do inicio ao fim por si só, e até cartazes na porta do quarto dela avisando à fada do dente: “pode vir, pois aqui não tem coronavírus”. Exercícios constantes para prevenir e resolver problemas e as mais diversas formas de uso da criatividade para expressar sentimentos positivos e negativos deste período de isolamento. 

Com tudo isso, somado ao meu incontrolável impulso de procurar ver sempre o “lado cheio do copo”, deixo aqui um convite: se conseguirmos nos manter (e manter nossas crianças) no inconforto do tédio, com certeza sairemos de tudo isso mais abertos à criatividade e, portando, mais preparados para o novo normal que teremos pela frente.

Cintia Gonçalves é publicitária, estrategista e mãe de uma menina de 6 anos. Com 25 anos de carreira, liderou uma das mais importantes agências de publicidade do mundo. Hoje estuda e ministra palestras sobre cultura, comportamento, criatividade e futuro do trabalho. Atua na construção de estratégias de negócios e comunicação, além do desenvolvimento de lideranças.

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