O que fazer quando a criança já se preocupa com o peso?

Sua filha pequena já se preocupa com padrões estéticos? Veja o que fazer para ajudá-la a não atrapalhar a autoestima.

 

Minha filha tem 5 anos e não é obesa. Mesmo assim, recusa alguns alimentos dizendo que não quer engordar. Será algum distúrbio? (Pergunta enviada por leitora)

A preocupação excessiva com um padrão estético – no caso, ficar magra – não é compatível com uma criança dessa idade e pode ter sido incorporada graças à visão dos adultos com quem ela convive. Nessa fase, os familiares próximos funcionam como modelos, e os pequenos reproduzem comportamentos aprendidos por meio da observação. Assim, de alguma forma, sua garota recebeu a mensagem de que pessoas gordinhas não são aceitas nem valorizadas.

Pequenos descuidos no dia a dia podem ter colaborado para criar no imaginário dela essa falsa impressão. É comum, por exemplo, que uma mãe que vive em dieta passe a ideia de que o simples fato de comer gera consequências ruins. Do mesmo modo, se o filho observa que um familiar é ridicularizado pelos parentes por ser obeso, vai estabelecer uma relação entre essa característica e a falta de aceitação. Muitas vezes, a preocupação com o peso nem sequer foi verbalizada, mas as crianças, atentas a tudo, são capazes de captá-la no ar. Os pais precisam se policiar em relação ao que falam da aparência alheia e às atitudes que assumem diante da alimentação e dos cuidados com o corpo.

É importante mostrar que comer é saudável e prazeroso. Programar refeições em família, transformando-as em momentos agradáveis de convivência, ajuda a tirar a carga negativa da comida. Comentar os benefícios dos alimentos e envolver meninos e meninas no preparo de alguns pratos são outras maneiras eficientes de estimular um conceito positivo em relação à alimentação. Incentivar o convívio com colegas da mesma idade, por sua vez, evita que preocupações típicas dos adultos – como emagrecer – se transformem em questões centrais. É preciso cuidado para não agravar a insatisfação infantil com o corpo, evitando no futuro algum transtorno alimentar, como a anorexia.

A recomendação vale inclusive para os casos em que existe, de fato, sobrepeso ou quadro de obesidade. Essas situações exigem atenção especial, mas já está provado que submeter a criança a dietas altamente restritivas não é a melhor saída. Além de prejudicar o crescimento, essa prática abala a autoestima e acaba sendo interpretada como punição. Em vez de focar nas falhas, criticando as escolhas pouco saudáveis do pequeno, valorize os bons hábitos alimentares e insira-os na rotina da casa. Não dá para esperar que o filho se interesse por legumes e verduras se ninguém mais na família os consome. É importante também fazer algumas concessões de vez em quando, mas sem dar a impressão de que a guloseima é algum tipo de recompensa. Quando, apesar do esforço da família, a criança não consegue estabelecer uma relação saudável com os alimentos – por excessos ou repulsa -, convém buscar a ajuda de um psicólogo, inicialmente apenas para orientar os pais. Mais tarde, se necessário, o tratamento pode incluir uma terapia para o filho.

Fonte: Denise Bellotto de Moraes, psicóloga e coordenadora do setor de psicologia da disciplina de nutrologia do Departamento de Pediatria da Unifesp