Tenho quase 35 anos e nunca namorei: o que ganhei com a solteirice
Aos 35, nunca namorei. Mas é cada coisa linda que construí ao longo dos anos…
Eu tenho uma longa trajetória na solteirice. Logo mais, completo 35 anos, e até hoje não apresentei ninguém para a minha família. Tive alguns relacionamentos enrolados, sim, mas nenhum com alguém que ostentasse o título de meu namorado.
Ao que tudo indica, sou especialista em me apaixonar por gente que corre de compromisso, mas isso é papo para o divã. O que eu quero falar com vocês não é sobre a falta, mas sobre as conquistas de ser uma mulher solteira de longa data.
E que conquistas! Começando por ela, que parece óbvia, mas é uma baita raridade para uma mulher na nossa sociedade, especialmente se olharmos historicamente: a autonomia.
Como é bom cuidar da minha própria vida integralmente e tomar grande parte das minhas decisões movida unicamente pelos meus desejos, sem precisar negociar cada uma delas. É claro que, de vez em quando, concilio minhas escolhas com amigos e familiares. Não vivo só. Mas não preciso ficar o tempo todo considerando uma outra parte para decidir o que fazer e onde ir. Minha cabeça, meu guia.
O que se conecta diretamente com outra maravilha da solteirice prolongada: uma forte conexão com meus próprios interesses. E, nesse caso, o benefício está necessariamente atrelado ao longo tempo exercendo a independência.
Quanto mais escuto apenas a mim mesma para decidir do meu almoço ao destino de férias, mais compreendo o que eu gosto para valer. Assim fica, inclusive, mais fácil de tomar decisões em conjunto quando necessário. Entendendo melhor minhas necessidades e limites, consigo expressá-los com clareza para encontrar formas de conciliá-los com as necessidades e os limites dos outros.
Outra realização fascinante do meu estilo de vida é a conexão profunda com minhas amizades. Entendo que muitas pessoas comprometidas investem em amigos próximos, mas só uma solteira consegue se dedicar a eles com a mesma energia e disponibilidade de uma adolescente.
Isso significa dormir na casa um do outro, acompanhar em procedimentos de saúde, levar para o casamento da prima, ter finais de semanas e férias totalmente dedicados a eles e muito mais. Para todo lugar que quem é comprometido leva o “conge”, a solteira leva um amigo — e isso enriquece demais a relação.
Eu, por exemplo, divido a casa com uma amiga. Já são cinco anos de parceria. Nós planejamos encontros temáticos para receber os amigos. Deliberamos sobre todos os assuntos que nos rondam. Assistimos a algumas séries juntas. Discutimos sobre os problemas da casa. Temos os nossos rituais. Praticamente uma vida de casadas, mas sem o sexo e os planos para o futuro. Dividimos a rotina com alegria, desafios e muito amor.
Porém, preciso dizer que só chegamos até aqui tão coladas porque eu, solteira integral, insisti. Houve períodos em que o perfume da paixão a fez se voltar com tudo para a namorada. Me senti deixada de lado. Abandonada. E redistribui parte da energia dedicada a ela para outras amizades, deixando claro que estava ali quando sobrasse um tempinho para mim.
Faz parte, entendo. Mas me pergunto o que teria sido de nós se tivesse feito o mesmo para o outro lado, direcionando parte da minha atenção a um namorado, como fazem tantas pessoas.
Provavelmente, nossa conexão não teria sobrevivido com a mesma força. Eu estaria agora contando outra história. Nem melhor, nem pior, mas outra. Por isso, digo: benditos sejam os amigos solteiros, tão pacientes com outros amores que surgem pelo caminho.
É grande o mérito deles (nosso) na manutenção de tantas relações profundas que duram uma vida inteira e que poderiam enfraquecer caso ambas as partes tivessem se dedicado com afinco apenas ao par romântico.
Não sei se serei solteira para sempre, nem desejo isso. Aprecio as parcerias e tenho curiosidade de navegar por um longo enlace iniciado pela paixão e pelo tesão. Só que a vida que levo hoje não é uma provisória à espera desse encontro.
É uma vida completa, complexa e repleta de delícias. Se esse amor chegar, quando chegar, encontrará uma mulher realizada, com conexões sólidas e que se conhece muito bem — e essas serão para sempre as minhas maiores conquistas.
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