Minha filha adolescente e meu marido vivem brigando por causa das roupas dela

Em geral, as peças são muito decotadas e curtas. O corpo é dela, mas acho que há exagero. Como entrar em acordo?

Segundo a Organização Mundial da Saúde, a adolescência é o período dos 10 aos 19 anos. Etapa intermediária entre a infância e a idade adulta, traz não só transformações físicas como comportamentais. Os jovens imitam uns aos outros, seja no estilo de roupa, na atitude, seja no modo de falar. “Também ficam mais ousados e provocadores porque se sentem fortes em grupo”, observa Carla Ribeiro, psicóloga clínica e hospitalar, do Rio de Janeiro. Ao medir forças com essas influências sociais – que auxiliam o adolescente a construir sua autoimagem e autoestima –, os pais costumam perder. Castigos, sermões e a imposição de um estilo raramente são a solução. No lugar disso, Gilberto Picosque, psicoterapeuta de família e casal, de São Paulo, recomenda um diálogo sincero, em que os lados entendam a postura que o outro está defendendo. “O pai pode estar se baseando em parâmetros mais tradicionais, onde recato e discrição são valorizados, e a filha sustentando a visão de sua época, de vanguarda, evitando destoar do seu grupo de referência”, exemplifica o especialista.

Nesse embate, a intervenção materna é muito importante para manter a autoridade do pai e garantir que a filha não se sinta extremamente reprimida. “Além de facilitar o diálogo entre os dois, a mãe pode ajudar a adolescente a adequar as roupas à idade dela – até porque ela talvez esteja confundindo maturidade com sensualidade”, afirma Carla. E, também, para situar a filha. Embora hoje seja claro que não deveria haver mecanismos de controle do comportamento e do corpo das mulheres, não há como negar que ainda vivemos em um país machista, onde persiste a chamada “cultura do estupro”. Análise do Ipea divulgada em 2014 mostra que 70% das vítimas de violência sexual são crianças e adolescentes.

Aqui, vale lembrar que pai e mãe são responsáveis pela integridade física dos filhos. “Mesmo quando a mãe diz: ‘O corpo é dela’, não devemos esquecer que falamos de uma adolescente, que precisa ser orientada e ter consciência de que seus atos podem trazer consequências”, alerta Carla. Já o pai pode explicitar que se norteia por critérios que valorizam e protegem a identidade feminina. “Ao reprovar a banalização erótica e a vulgarização do corpo, ele deve convidar a filha a ampliar a noção de que sua pose adulta a torna mais vulnerável”, orienta Gilberto. Os especialistas concordam que ambos os lados têm que dissolver a rigidez, adotando parâmetros comuns para contemplar o senso de preservação do pai e a necessidade de sintonia social da filha. “A ideia é transcender o clássico cabo de guerra entre autoritarismo e insubordinação, típico jogo de poder que há muito deveria estar erradicado das famílias contemporâneas”, finaliza Gilberto.