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Mandala da Prosperidade é golpe financeiro disfarçado de grupo feminista

O esquema de pirâmide financeira está presente no Brasil desde 2016, mas o número de participantes aumentou na pandemia

Por Maria Clara Serpa (colaboradora) - Atualizado em 24 ago 2020, 20h56 - Publicado em 25 ago 2020, 10h00

Um grupo de apoio apenas com mulheres, feito para desabafar, se sentir amparada e exercer a sororidade, destruindo o estereótipo de que mulheres são rivais. Além de todo o apoio sentimental, essa união ajudaria uma mulher por vez a conquistar seus sonhos por meio de doações às outras. Desde 2016, milhares de mulheres no Brasil entram para a Mandala da Prosperidade – ou grupos similares, como o Tear dos Sonhos e o Flor da Abundância – em busca de tudo isso. Na pandemia, um período de vulnerabilidade ainda maior, a popularidade desse tipo de grupo cresceu muito e, ao mesmo tempo, diversas ex-participantes passaram a denunciar as responsáveis por estelionato e a afirmar que isso tudo não passa de um golpe.

Não se sabe ao certo onde essas organizações surgiram. Segundo o material de divulgação de um deles disponibilizado a CLAUDIA, uma antropóloga canadense que viveu em diversos países da África nos anos 80 criou o primeiro grupo do tipo com base nos ensinamentos passados pelas mulheres daquelas comunidades rurais, que se apoiavam e viviam em harmonia. “É uma experiência própria e orgânica que deve ser trabalhada com prosperidade e abundância. O projeto foi levado ao Canadá especialmente para ajudar mulheres vítimas de violência doméstica e, por meio de um sistema circular, com doações econômicas, as mulheres se unem para prosperidade das outras e suas famílias”, diz a apresentação.

Fato é, a promessa é boa. Cada mulher que entra (convidada por outra que já faz parte) tem que dar um “regalo” (como são chamadas as doações) para uma das participantes antigas como apoio e ajuda a buscar seus sonhos. A doadora receberia, em menos de um mês, 8 vezes o valor investido para, então, correr atrás dos seus próprios sonhos. Enquanto isso, as trocas e conversas entre as mulheres ajudariam na elevação espiritual. Mas isso tudo não passa de utopia. A Mandala e similares são os mesmos esquemas de pirâmide financeira já conhecidos no Brasil e no mundo, mas com um visual repaginado e disfarçado de feminista. A primeira pessoa a se expor e afirmar que aquilo tudo não passava de um golpe foi a diretora artística e professora Sheylli Caleffi, que logo em 2016 fez um vídeo contando sua experiência no grupo e explicando porque aquilo tudo era uma fraude. Hoje, o vídeo no YouTube conta com mais de 56 mil visualizações e ela se tornou a maior centralizadora de denúncias e informações sobre as “novas linhagens” do golpe.

Sheylli foi convidada a participar da Mandala por uma colega de trabalho. Como sabia que ela tinha um trabalho com mulheres, achou que o grupo seria perfeito para a professora. “Eu topei participar na hora, então fui convidada para uma reunião para me apresentarem. A partir daí, tudo ficou muito estranho. Já estranhei que todos os encontros eram online e era tudo muito exagerado, todas as participantes falavam que a vida tinha mudado depois de entrar para a Mandala, que tudo tinha dado certo e tinham alcançado seus sonhos. Demorou para me falarem do regalo e, quando isso aconteceu, de cara percebi que aquilo era pirâmide. Se é tão milagroso, por que as pessoas não participam várias vezes para multiplicar o dinheiro? Quando a reunião acabou, fingi estar muito interessada, pedi os dados bancários e mais informações e logo fui gravar o vídeo para denunciar”, conta Sheylli, que hoje comanda um grupo de apoio para ex-membras das comunidades e afirma receber ameaças recorrentemente por causa de seu trabalho contra o golpe.

Como funciona

Em relato a CLAUDIA, a paulistana Elis*, que passou aproximadamente um ano participando da Mandala da Prosperidade, contou exatamente como o esquema funciona. “Fui convidada por uma colega da faculdade depois de uma viagem que fizemos juntas. Estava em um momento ruim, vivendo em um lugar que não gostava, com problemas no relacionamento. Tinha outras amigas participando, então me senti segura. Demorou muito para eu entender de fato o que estava acontecendo ali”, conta.

O caso de Elis é muito parecido aos da maioria de mulheres que são recrutadas para o esquema. As escolhidas, em geral, estão mais vulneráveis por estarem passando por dificuldades emocionais ou até financeiras e, por isso, são mais suscetíveis a aceitar. Na primeira reunião, as “tecelãs” ou “guardiãs”, participantes mais antigas, falam sobre espiritualidade, cura e como participar daquilo tudo e ajudar uma às outras só trará coisas boas para sua vida. Outras mulheres também dão depoimentos emocionantes. “Eu tinha dificuldade de ser ouvida em outras situações e me senti parte daquele grupo instantaneamente. É muito difícil se sentir compreendida assim, então mergulhei de cabeça”, conta a paulistana, que após três reuniões deu seu regalo para uma das mulheres, em um valor aproximado de R$ 5 mil.

O valor não é escolhido aleatoriamente – a somatória dos números resulta em 9, um número místico, que significa o fim de um ciclo e o início de outro. Isso tudo contribui para a atmosfera espiritualizada que essas mulheres também buscam. Segundo Sheylli, em seu caso, o dinheiro não foi mencionado logo de primeira. A estratégia usada foi a de deixá-la muito curiosa a ponto de perguntar qual seria o valor. Depois da doação que, muitas vezes pode deixar as mulheres endividadas, porque as promessas são tantas que algumas chegam a pedir empréstimos no banco, elas devem convidar outras duas conhecidas para o grupo.

As novas participantes da Mandala são chamadas de “mulheres fogo”, para que elas queimem suas crenças limitantes. Depois do regalo, elas se consolidam dentro do grupo e se tornam “mulheres ar”, que devem “soprar” as lições da mandala e trazer pelo menos outras duas mulheres para o esquema – uma característica clássica de uma pirâmide financeira. Ao conseguirem convencer as outras pessoas a entrarem no esquema, elas viram “mulheres terra”, que basicamente cobram os regalos das outras e repassam os ensinamentos. No topo da pirâmide está a “mulher água” (ou no centro da Mandala, como as participantes costumam dizer), que recebe os R$ 40 mil. Esses termos são apropriados pelo grupo de filosofias ligadas ao Sagrado Feminino.

Quando a Mandala se “fecha” (o momento em que 8 pessoas novas efetivamente entraram no esquema e aportaram o dinheiro), ela gira e, então, uma nova mulher seria beneficiada pelos regalos. Porém, isso raramente acontece, porque a pirâmide financeira é um modelo de negócio não sustentável: em linhas gerais, ela funciona através da indicação desenfreada de novos membros, até que o número se torna tão absurdo que o esquema quebra. Ou seja, apenas os primeiros a participar de fato receberiam o dinheiro. Sheylli conta que chegou a questionar uma das “mulheres água” se aquilo não se tratava de uma pirâmide e a resposta foi que não, porque pirâmides são “triangulares, masculinas e finitas” e as mandalas são “femininas, circulares e infinitas”. 

Culpa

O problema de Elis começou quando se tornou uma “mulher ar” e precisou chamar outras duas pessoas para o esquema. A ideia de ter que convencer alguém a participar de algo e ainda investir dinheiro a incomodava demais. A partir daí, a experiência do “grupo de apoio” deixou de ser tão prazerosa. “Pra mim é muito difícil induzir alguém, então eu ficava muito sem jeito de chamar outras amigas pra participarem e as meninas acima de mim me cobravam muito isso. Elas nem eram das piores, já ouvi relatos de outras que pressionavam demais, mas, indiretamente, elas me faziam sentir como se eu não fosse capaz, como se minha capacidade de comunicação não fosse boa, porque não conseguia chamar ninguém. Isso até me fez estudar mais coisas relacionadas à comunicação para tentar melhorar esse “defeito”, conta.

Sua vontade de deixar a Mandala surgiu por isso e não pelo fato de se tratar de uma pirâmide. O que a motivou a deixar de vez o grupo foi o esgotamento mental que toda aquela busca por pessoas, além da pressão que era estar lá dentro causava, somada à falta de autoestima que aquilo tudo tinha causado. Segundo Elis, a Mandala não parecia mais um refúgio e as reuniões não eram mais um momento feliz, mas quase um segundo trabalho. Assim, mesmo com a insistência de algumas das outras mulheres, ela resolveu sair do grupo e, logo depois, resolveu esquecer que aquilo tudo existiu.

O crescimento na pandemia

Sheylli observou que o número de participantes do grupo de apoio às vítimas cresceu muito nos últimos meses em meio à pandemia. E, de fato, na internet, principalmente nos grupos no Facebook, a quantidade de ex-membros que resolveram expor suas histórias e suas dificuldades em recuperar o dinheiro perdido parece bem maior. Além do fato de que as pessoas estão mais frágeis e, consequentemente, mais suscetíveis a cair no golpe, o aumento de casos também se deve ao fato de que diversas outras “vertentes” desse tipo de pirâmide surgiram nos últimos meses. Agora, além das exclusivas para as mulheres, que se apropriam do feminismo para convencer as participantes, há também os grupos similares que aceitam homens, como o Munay.

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“Eu percebo que os homens entendem mais rápido o que está acontecendo. E não tem nada a ver com inteligência, mas muitas vezes nós mulheres duvidamos da nossa própria capacidade, especialmente quando envolve dinheiro. Há esse estigma machista de que mulher não entende de dinheiro, então a tendência é que mesmo que elas desconfiem, demorem mais para cair em si. Além de que os homens estão bem mais abertos a falar sobre o assunto e até denunciar, enquanto as mulheres entram em negação”, afirma a professora.

Outro aspecto importante que auxiliou na visibilidade dos esquemas de pirâmide é o fato de que rostos e nomes conhecidos passaram a fazer parte de alguns deles. Pessoas famosas nas redes sociais e até militantes de movimentos sociais acabam caindo no esquema, muitas vezes sem nem perceber do que se trata. Com o alcance poderoso e um discurso pautado em articulações importantes, conseguem convencer cada vez mais pessoas. Assim, o que antes se restringia a mulheres brancas de elite, já chegou nas mulheres pretas periféricas, que acabam sofrendo muito mais com os impactos do golpe. A conversa geralmente começa com uma “vaquinha para ajudar uma mana a realizar seus sonhos” e acaba na Mandala da Prosperidade.

Há relatos também de um aumento enorme do número de mulheres indígenas envolvidas na Mandala, influenciadas por grandes lideranças. Estes nomes conhecidos, no entanto, nunca se mostram em vídeos e propagandas para as pirâmides, mas utilizam as pessoas mais vulneráveis dessas comunidades. Não são raros os vídeos de mulheres pretas e indígenas em situações difíceis falando como a Mandala mudou suas vidas circulando em grupos do WhatsApp. Comovidas, as mulheres que recebem o conteúdo acabam cedendo e tornando-se vítimas da fraude, especialmente porque os vídeos em sua maioria vêm de pessoas confiáveis, como amigas, familiares, terapeutas e colegas de trabalho.

Pessoas estão se apropriando de movimentos sociais sérios para conseguir mais participantes nas fraudes Reprodução/Reprodução

As novas “safras”

Outro ponto importante é que, além da mudança de nomes e da criação de novas “safras” dentro da própria Mandala ou Telar, os movimentos resolveram se “popularizar”. Se antes eles de fato apenas alcançavam mulheres de elite, por cobrarem valores muito altos, ou mulheres que eram convencidas a participar mesmo que tivessem que pegar um empréstimo para tal, a Mandala conseguiu uma maneira de alcançar também as outras camadas da sociedade. Agora, existem grupos em que o regalo ou doação cobrada é de R$ 200 e um que se popularizou na periferia da cidade de São Paulo, que cobra apenas R$ 20.

Medo de denunciar

Elis compara a Mandala com um relacionamento abusivo. “Parece tudo perfeito de primeira, as coisas vão piorando, mas você vai deixando pra lá e pra se livrar é quase impossível. Uma vez que tudo “termina”, nós entramos em negação, colocamos a culpa em nós mesmas e nos sentimos burras por termos caído naquilo”, explica. A paulistana, assim como a maioria das vítimas, passou por todo esse processo depois de conseguir sair do esquema. Apesar de ter saído devido, especialmente, ao desgaste que a Mandala causou, ela conta que também pensava que havia algo errado ali. Depois de quase um ano, ao se reunir com as amigas que também haviam deixado o grupo, ela se deu conta da gravidade do problema e resolveu agir.

“A menina que me convidou para entrar pede mil desculpas, ela também não sabia de que se tratava de um golpe. Hoje, somos até mais amigas do que éramos antes. Fiz questão de me desculpar com as duas meninas que eu chamei também. Eu acho que a maioria das mulheres que estão lá não são mau-caráter, nós somos realmente completamente manipuladas e pressionadas para estar ali. Hoje temos um grupo em que nos falamos sempre e nos apoiamos”, conta Elis.

Com um discurso pautado na “auto-responsabilidade”, as “chefes” da Mandala da Prosperidade fazem com que as participantes se culpem por caírem no golpe. Elas de fato acreditam que a culpa foi inteiramente delas e, claro, desistem de denunciar o esquema criminoso. No caso de Elis, um ano depois, ela resolveu conversar com a mulher a quem tinha dado o regalo e que ainda continuava dentro do grupo. Ao pedir o dinheiro de volta, ouviu todo o tipo de chantagem, desde que ela estava sendo egoísta porque não precisava daquele dinheiro, até que era insensível, já que tentava tirar dinheiro de uma mãe solo com dificuldades. “Me sensibilizo com a história, porque acredito que ela deve estar passando por um momento difícil, mas não dei meu dinheiro porque queria, fui manipulada”, diz.

Elis e a amiga que a convidou para entrar na Mandala estão dispostas a fazer um Boletim de Ocorrência contra a mulher ainda nessa semana. Com ajuda de Sheylli, várias outras mulheres também denunciaram as organizadoras dos esquemas por estelionato, porém, pouco é feito pela polícia. Por se tratar de um crime online e cada um dos B.Os ser registrado em uma delegacia diferente, a polícia acaba não ligando um caso ao outro. Vale lembrar que a prática de pirâmide financeira é considerada um crime contra a economia popular, de acordo com a Lei de número 1.521, de 1951.

Segundo Sheylli, há mulheres no esquema que se sustentam apenas com o dinheiro recebido pelos regalos das outras. Finalmente, no final de junho, devido a um B.O registrado 51º Distrito Policial, em São Paulo, foi aberto um inquérito para apurar o golpe que resultou na prisão de duas das mulheres líderes do esquema na cidade. Elas foram reconhecidas pela vítima, que foi convidada para investir no negócio em 2018, após o fim de um relacionamento longo. Ao que tudo indica, as mulheres já foram soltas, mas a investigação continua. Sheylli orienta as vítimas a registrarem os Boletins de Ocorrência neste Distrito Policial, onde a investigação já está acontecendo, para que haja mais provas.

*Nome trocado para preservar a identidade da entrevistada.

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