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Irmãos Wachowski, criadores de ‘Sense8’ e ‘Matrix’, agora são Irmãs Wachowski

Leia o anúncio feito ontem por Lilly Wachowski sobre sua transição em progresso

Por Luciana Teixeira (colaboradora) Atualizado em 21 jan 2020, 13h35 - Publicado em 9 mar 2016, 12h09

Depois de conhecermos Lilly Elbe em “A garota dinamarquesa”, chegou a hora de darmos as boas vindas para Lilly Wachowsky. Antes de nascer novamente como Lilly, a diretora era conhecida como Andy Wachowsky, diretora, escritora e produtora com sua irmã Lana Wachowski – que antes de ser Lana, era conhecida como Larry.

Confuso? A gente explica: os irmãos Laurence e Andy nasceram homens e renasceram mulheres agora na vida adulta.

Dino De Laurentiis Company
Dino De Laurentiis Company

CURIOSIDADE: Todo mundo pensava que elas eram gêmeas, mas, na verdade, possuem 2 anos de diferença.

Quem deu o primeiro passo na transição foi Lana (antes, Laurence), enquanto ainda estavam produzindo a trilogia Matrix.

Warner Bros. Entertainment Inc.
Warner Bros. Entertainment Inc.

Agora, cerca de 15 anos depois – visto que ninguém sabe ao certo quando Lana e Lilly fizeram a transição -, é hora de darmos adeus a Andy e termos duas escritoras, diretoras e produtoras em Sense8.

Ameaçada de ter sua transição divulgada pela imprensa, Lilly liberou um comunicado sobre sua decisão de manter tudo em segredo até então:

“MUDANÇA DE SEXO CHOCANTE – IRMÃOS WACHOWSKI SÃO IRMÃS AGORA!

Eis a manchete que eu esperei ler neste ano que passou. Até agora com medo e/ou olhos rolando de irritação. A “notícia” quase foi publicada inúmeras vezes. Cada uma delas foi precedida por um e-mail ameaçador do meu agente – repórteres vindo pedir informações a respeito da história “transição de gênero de Andy Wachowski ” que estavam prestes a publicar. Em resposta a esta ameaça pública de revelação contra a minha vontade, eu preparei uma declaração feita parte de mijo, parte de vinagre e 12 partes de gasolina.

Essa declaração tinha um monte de ideias politicamente relevantes sobre os perigos de tirar do armário uma pessoa trans, e as horrorosas estatísticas de suicídio e taxas de homicídio a transgêneros. Isso para não mencionar o final um pouco sarcástico que “revelava” que meu pai tinha injetado sangue de louva-deus em suas bolas antes de conceber cada um dos seus filhos para produzir uma ninhada de supermulheres determinadas à dominação feminina. Ok, mega sarcástico.

Mas isso não aconteceu. Os editores destas publicações não imprimiram uma história que seria apenas lasciva em substância e poderia ter um efeito potencialmente fatal. E sendo a otimista que sou, eu estava feliz em riscá-la e seguir em frente.

Então na noite passada, enquanto me preparava para sair para jantar, a campainha tocou. Em pé na minha varanda havia um homem que eu não conhecia.

“Isso pode ser um pouco estranho”, disse ele com um sotaque Inglês.

Lembro-me de suspirar.

As vezes é um trabalho muito difícil ser otimista.

Ele começou a explicar que era um jornalista do Daily Mail, que foi o maior serviço de notícias no Reino Unido e definitivamente não é um tablóide. E que eu realmente tinha que sentar-me com ele amanhã ou no dia seguinte ou na próxima semana para que eu pudesse ter minha foto tirada e contar a minha história, que seria tão inspiradora! E que eu realmente não queria ter alguém do National Enquirer me seguindo. Aliás – The Daily Mail definitivamente não é um tablóide.

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Minha irmã Lana e eu temos evitado grande parte da imprensa. Acho que falar sobre minha arte é frustrantemente tedioso e, falando de mim, uma experiência totalmente humilhante. Eu sabia que em algum momento eu teria que sair do armário publicamente. Você sabe, quando você está vivendo como uma pessoa transgênero é … meio difícil de esconder. Eu só queria algum tempo para colocar minha cabeça em ordem, para me sentir confortável.

Mas, aparentemente, não sou eu quem decido isso.

Depois que ele me deu seu cartão e eu fechei a porta, comecei a lembrar onde eu tinha ouvido falar do Daily Mail. Era a empresa de “notícias” que tinha desempenhado um papel enorme na revelação pública nacional de Lucy Meadows, uma professora de escola primária e uma mulher trans no Reino Unido. Um editorial no “não-tablóide” a demonizou como uma influência prejudicial sobre a inocência delicada das crianças e, resumiu dizendo, “ele não só está presa no corpo errado, ele está no emprego errado”. E eu sabia da existência dela não era porque ela era transexual, mas porque três meses após a publicação do artigo do Daily Mail, Lucy cometeu suicídio.

E agora ali estavam eles, na porta da minha casa, quase como se dissessem:

“Tem outra aqui! Vamos arrastá-la para fora, para que todos possamos olhar! “

Ser transgênera não é fácil. Vivemos em um mundo binário em questão de gênero, imposto pela maioria. Isto significa que, quando você é transgênero, você tem que enfrentar a dura realidade de viver o resto da sua vida em um mundo que é abertamente hostil a você.

Eu sou uma das sortudas. Tendo o apoio da minha família e os meios para pagar médicos e terapeutas, e isso me deu a chance de realmente sobreviver a este processo. Transgêneros sem apoio, meios e privilégios não tem esse luxo. E muitos não sobrevivem. Em 2015, a taxa de transgêneros assassinados atingiu o ponto mais alto neste país. Um número desproporcional das vítimas eram mulheres trans negras. Estes são apenas os homicídios registrados assim, já que nem todas as pessoas trans se encaixam nas estatísticas binárias de gênero nas taxas de homicídio – e isso significa que os números reais são maiores.

E embora nós já tenhamos percorrido um longo caminho desde ‘Silêncio dos Inocentes’, continuamos a ser estigmatizados e vilipendiados nos meios de comunicação, onde os anúncios de ataque nos retratam como potenciais predadores para nos impedir até de usar o banheiro. As chamadas ‘leis dos banheiros’ que estão surgindo em todo o país não vão manter as crianças seguras, eles forçam as pessoas trans a usar banheiros, onde podem ser espancados e/ou assassinados. Nós não somos predadores, somos presas.

Então sim, eu sou transgênero.

E sim, eu fiz transição.

Eu me assumi para meus amigos e familiares. A maioria das pessoas no trabalho sabe também. Todo mundo é tranquilo com isso. Sim, graças a minha irmã fabulosa eles já passaram por isso antes, mas também é tranquilo porque eles são pessoas fantásticas. Sem o amor e apoio de minha esposa, amigos e família, eu não estaria onde estou hoje.

Mas estas palavras, “transgênero” e “transição” são difíceis para mim porque ambas perderam sua complexidade de assimilação para o mainstream. Há uma falta de nuance de tempo e espaço. Ser transgênero é algo largamente entendido como existente no terminal dogmático de macho ou fêmea. E a “transição” transmite uma sensação de imediatismo, um antes e depois de um terminal para outro. Mas a realidade, a minha realidade é que eu fiz a transição e ela continuará por toda a minha vida, por meio da infinitude que existe entre homem e mulher, como existe no infinito entre o binário de zero e um. Precisamos elevar o diálogo para além da simplicidade de binário. Binário é um falso ídolo.

Agora, a teoria do género e teoria queer machucou meu cérebro minúsculo. As combinações de palavras, como o jazz de forma livre, o tinido desconexo e discordante em meus ouvidos. Anseio para a compreensão da teoria queer e de gênero, mas é uma luta como é a luta pela compreensão da minha própria identidade. Eu tenho uma citação no meu escritório escrita por José Muñoz que me foi dada por um bom amigo. Eu fico olhando para ele na contemplação, por vezes, tentando decifrar seu significado, mas a última frase ressoa:

‘Estranheza é, essencialmente, sobre a rejeição de um aqui e agora e uma insistência na potencialidade de um outro mundo.’

Então, vou continuar a ser otimista adicionando meu ombro para a luta de Sísifo de progresso e no meu próprio ser, ser um exemplo da potencialidade de um outro mundo.

Lilly Wachowski”

Com essa aula declaração, estamos digitando com os pés, pois estamos aplaudindo com as mãos.

Parabéns pelas palavras e bem vinda Lilly!

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