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Ghosting: da intimidade instantânea ao desaparecimento sem rastro

A insustentável leveza das relações em tempos de WhatsApp

Por Ludmila Vilar (colunista) Atualizado em 21 jan 2020, 20h21 - Publicado em 23 jul 2015, 12h19

Está entre os últimos “talk of the town”em Hollywood: segundo “pessoas próximas” Charlize Theron aplicou um “ghosting” em Sean Pean. Embora ghosting, venha de ghost, fantasma em inglês, não tem nada a ver com um fenômeno sobrenatural.

 O site Vox explica o caso de um jeito divertido: “Não aconteceu numa noite escura de tempestade, não tem nada a ver com poltergeist. Eles simplesmente eram um casal apaixonado, até que um dia, do nada, ela simplesmente parou de falar com ele”. Segundo a imprensa americana Charlize parou de responder as mensagens, atender aos telefonemas ou responder e-mails.

Ainda não existe um termo em português para ghosting, esse desaparecimento de uma das partes que um dia fez parte do relacionamento. Provavelmente nem terá, aposto mais na possibilidade da palavra se incorporar ao nosso vocabulário, como aconteceu com “stalk”. Aqui, o verbo em inglês, designado a quem espiona, persegue os passos de alguém na internet virou “stalkear”. Se você passa horas navegando em perfis alheios, está “stalkeando” – o que te define um stalker.

Se você sumir do nada da vida de alguém, você está dando um “ghosting”, aplicando um “ghosting”, fazendo um “ghosting”. Ainda não sei o jeito certo de falar, mas isso te define como um “ghoster”. A verdade é que o “ghosting”propriamente dito não é um comportamento novo. Então por que falar dele agora? Porque em época de internet algumas coisas que antes aconteciam de vez em quando, agora tomaram proporções gigantescas.

Do mesmo jeito que conseguir sexo ficou mais fácil depois da invenção de aplicativos como Tinder, Happn e Grinder sumir da vida de alguém apertando um simples botão “bloquear” também progrediu imensamente na escala da facilidade.

Cinco de novembro de 2014: a data terror das relações virtuais. Naquele dia o WhatsApp passou identificar se a mensagem enviada tinha sido lida ou não. Uma simples mudança de cor: um traço cinza se o conteúdo saiu do celular do emissor, dois traços cinzas se foi entregue ao remetente, dois azuis se foi visto. Os jornais anunciaram o fato para em seguida surgirem muitas materias sobre maneiras de driblar a nova habilidade dedo duro do aplicativo.

A questão é: o que nos revela tanta gente batendo o pé contra os dois meros tracinhos que de cinza passaram a ser azuis?  No mínimo, que o aplicativo de mensagens instantâneas deixou de ter papel coadjuvante na comunicação para assumir o principal. E quando a comunicação entre as pessoas passa a acontecer quase que prioritariamente por meio de mensagens curtas e rápidas, saem de cena dois elementos básicos para entender o que o outro quer dizer: a voz e os gestos. Embora esse último já estivesse bastante blindado desde a invenção do telefone, com as “text messages” os gestos sumiram completamente de grande parte da comunicação humana. Isso, claro, tem grandes consequências. 

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Em tempos de WhatsApps e outros aplicativos de mensagens instantâneas apitando sem parar, é fácil ver-se em duas situações aparentemente opostas, porém calcadas na mesma facilidade tecnológica. O “ghosting” é uma delas.

Na outra ponta, temos o contrário. O seu affair, rolo, ficante passa horas a fio conversando pelo aplicativo, mas a relação dificilmente inclui encontros ao vivo. A pessoa não some, mas também não aparece. Vocês até já saíram uma vez ou outra, mas o convite para um próximo encontro vai se tornando tabu na mesma proporção que a intimidade entre vocês parece crescer pela tela do celular.

“Existem alguns fatores específicos que atuam em ambas as situações” diz a dra. Carmita Abdo, psiquiatra da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. “No caso do ‘ghosting’, simplesmente parar de responder as mensagens torna tudo muito mais simples, sem riscos de saias justas”. Para a médica, a intensificação desse comportamento também tem a ver com o fato de hoje em dia nos sentirmos menos obrigados a dar explicações. 

Trata-se de uma reprodução do comportamento virtual, onde os códigos são diferentes, mais soltos. Se agimos boa parte do dia de acordo com eles, é natural acabarmos levando-os para nossa vida. Essas são questões que já chegaram aos consultórios. “Os pacientes comentam sobre pessoas que somem e reaparecem do nada. Noto também o receio de propor o encontro e espantar o outro”. 

Não é difícil entender que seja mais fácil romper em silêncio, sem explicações, mas o que nos leva a passar horas e horas conversando num aplicativo e, ao mesmo tempo, ter receio de marcar o próximo ou o primeiro encontro? Pode ser que a experiência ao vivo não tenha sido tão boa para uma das partes como é a virtual. Pode ser também uma questão de controle.”Administramos melhor quem somos no mundo virtual. Nessas conversas por aplicativos vamos construindo uma ideia de quem somos para a outra pessoa, carregamos e aliviamos as tintas no que nos é conveniente. Esse controle diminui no cara-a-cara. Dá medo”, diz a psiquiatra.

Divulgação/Série
Divulgação/Série “Two Broke Girls”

Tudo isso significa que nunca foi tão difícil se relacionar? Não. A verdade é que podemos usar a tecnologia a serviço do nosso conforto ou da nossa ansiedade. Quem determina como usufruir disso somos nós, não o WhatsApp, o Tinder ou o Happn. “Esses novos canais podem exacerbar características nossas, mas elas já existiam em nós. Eles vieram para o bem e para mal. Se por um lado, ficou muito mais fácil se comunicar e decidir com quem queremos falar ou não, por outro estamos muito mais vulneráveis a nos expor a pessoas e situações desagradáveis”, afirma a médica.

Fantasmas sempre existiram na comunicação humana. Dá para imaginar o que era ficar trancada em casa ao lado do telefone esperando uma pessoa ligar?  Para alguém nascido num mundo com internet essa cena provavelmente parece o inferno se comparada com os dramas dos aplicativos.

“Acredito na inteligência humana, na sofisticação da nossa capacidade de lidar com as novas formas de comunicação. Os tracinhos azuis do WhatsApp, por exemplo, fazem parte dessa sofisticação. Eles precisaram ser criados para que não ficássemos sem saber se realmente a mensagem não só havia sido entregue, como lida. A verdade é que ainda estamos supervalorizando o impacto dessas tecnologias porque é algo novo e, de certa forma, agressivo”, afirma a Dra. Carmita Abdo.

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