Família unida na torcida
Juntar a família para torcer é uma chance de aprender a lidar com valores essenciais do jogo da vida. Ganhos, perdas e muitos outros ensinamentos entram em campo

Salua Cury, ao centro, com 3 gerações da família.
Foto: Marta Santos
A cada quatro anos, a paulistana Salua Cury, mãe e três filhos e avó de cinco meninas, reúne a família para torcer pelo Brasil nos jogos da Copa. O ritual é antigo e ela faz questão de que seja completo: a sala do apartamento ganha decoração verde-amarela, todos usam camisas da seleção, sopram apitos e cornetas. ”A Copa é muito mais que futebol. É um momento de troca, no
qual podemos conversar, brincar e aprender uns com os outros. Estamos juntos na mesma sintonia”, conta Salua.
Para as netas, a experiência gera outros ganhos: ”Eu era a pior jogadora de futebol do time da escola – o técnico vivia me dizendo que jamais sairia do banco de reservas. Mas foi vendo o Brasil perder a Copa de 2006 que decidi me tornar a melhor jogadora possível. A perseverança da seleção brasileira foi a minha inspiração. A partir daí, passei a treinar muito. Hoje, sou a capitã do time”, conta Marina Cury, 18 anos.
Aula de união
Torcer em família é mesmo uma prática de parceria e solidariedade, em que diferentes gerações falam a mesma língua, dividem as mesmas emoções e frustrações. ”No auge da comemoração, não há diferença de idade: minha avó vibra e pula tanto quanto eu! A felicidade e a expectativa pertencem a todos e não há rusga familiar que resista a essa confraternização”, diz Fabiana Cury, 24 anos, a neta mais velha de Salua.
”O futebol é um esporte democrático, que agrada a nação inteira: homens e mulheres, crianças e idosos, ricos e pobres. São aqueles 90 minutos em que nada separa ninguém”, define a antropóloga Clara Azevedo, diretora do Museu do Futebol, de São Paulo. Para a terapeuta Leila Tardivo, professora de psicologia na Universidade de São Paulo (USP), essa prática ensina crianças e adolescentes a valorizar os momentos vividos em família: ”Formar uma torcida desperta alegria, amor, bondade e educação”.
Vitórias e derrotas
Como torcedores, vivemos a experiência da glória e do fracasso – e como seres humanos, também. ”Portanto, ficar na expectativa por um final imprevisível ensina todos a perceber a importância de batalhar pelo melhor resultado. E também faz parte aceitar que nem sempre a vitória é garantida”, avalia o historiador e professor Bernardo Borges Buarque de Hollanda. ”Isso desperta o prazer de acompanhar e de assistir às disputas acirradas. É uma chande de mostrar aos filhos o exemplo de equipes que batalham por um objetivo comum.”
Dentro e fora de campo, é preciso lidar com tristeza e frustração. O torneio mundial pode ser um jeito lúdico de perceber que as derrotas fazem parte da vida e virar o jogo depende de muita disposição. ”Assistindo à Copa, os pais podem estimular crianças e jovens a perceber as estratégias de superação de times e jogadores. É possível ensinar que conviver com as decepções é um exercício diário, mas nem por isso tudo está perdido”, sugere a terapeuta Leila. ”Quanto antes as crianças forem expostas às dificuldades, como assistir ao time do coração perder, por exemplo, menos doloroso será o futuro delas. A tristeza é inevitável e não atrapalha.”
Fabiana assina embaixo: ”Logo depois da Copa de 1994, meu bisavô faleceu. Por causa dos jogos, a família estava muito próxima. De alguma forma, essa união em torno do futebol nos manteve fortes para dar apoio uns aos outros”, diz a jovem.
Determinação e rivalidade
O esporte evidencia que, para vencer e conquistar o objetivo tra çado, é preciso jogar com segurança, honestidade e determinação, mas passando a bola, pois ninguém joga sozinho. ”A torcida
em família é o momento em que a mãe e o pai podem apontar a importância da persistência coletiva”, ensina Leila.
”Tudo é vá lido para o desenvolvimento das crianças até os aspectos negativos. A rivalidade, por exemplo, pode se tor nar algo saudável, porque estimula o espírito esportivo”, completa.







