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Diabete infantil: como é a vida das crianças que foram diagnosticadas com a doença

Crianças com a doença hoje têm uma vida praticamente igual à das demais, mas o dia a dia na escola ainda é um grande desafio.

Por Vanessa de Sá (colaboradora) Atualizado em 28 out 2016, 02h57 - Publicado em 19 jan 2015, 07h17

“Meu filho nunca mais vai poder comer doce, ir a festinhas, não vai ter uma vida normal!” Para a boa maioria dos pais, é um choque receber o diagnóstico de que o pequeno tem diabetes tipo 1. Primeiro, porque a doença não tem cura e, por ser crônica, exige cuidados para sempre. Mas, mais do que isso, por muitos temerem que o filho será discriminado, que ficará isolado, que não terá a mesma vida que os coleguinhas. “Infelizmente, vários mitos e desinformação ainda cercam o diabetes, mas, lentamente, é algo que vem mudando”, afirma Luiz Eduardo Calliari, endocrinologista da Sociedade Brasileira de Pediatria e professor da Santa Casa de São Paulo.

O diabetes tipo 1 é uma das doenças crônicas mais prevalentes entre crianças e adolescentes (veja “O avanço da doença ainda é um mistério”). “Geralmente, é diagnosticado entre os 7 e os 15 anos de idade, mas, nos últimos anos, estamos observando casos em menores de 6”, conta a endocrinologista Denise Franco, diretora da Associação de Diabetes Juvenil (ADJ Diabetes Brasil). O controle é feito por meio da reposição de insulina – hormônio que o corpo para de produzir, exigindo aplicações diárias e frequentes através de uma pequena seringa – e da medição das taxas de açúcar do sangue. O teste, realizado com a coleta de uma gotinha de sangue tirada da ponta do dedo, é um dos mais importantes norteadores do tratamento, pois, se feito várias vezes por dia, permite tomar as medidas necessárias rapidamente, seja aplicando insulina para baixar a glicemia, seja dando açúcar para o pequeno, se ela estiver baixa. Tanto uma medida quanto a outra visam manter os níveis de açúcar mais equilibrados, evitando as oscilações que podem botar a vida da criança em risco e que, no longo prazo, podem trazer complicações.

Era dos avanços

Apesar de os cuidados precisarem ser duradouros e demandarem a aplicação de injeções e picadas no dedo, os avanços no tratamento foram imensos. “A cada ano, vemos mais melhoras, por conta de vários fatores. Hoje há um número enorme de alimentos diet, que permitem à criança comer o mesmo que os colegas. E ser igual aos demais é algo que conta muito para os pequenos e para os adolescentes”, diz o doutor Walter Minicucci, presidente da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD). Ele completa: “As proibições também estão muito mais leves devido aos novos tipos de insulina e estratégias de tratamento, as seringas para aplicação de insulina atualmente são equipadas com agulhas bem curtas, que não machucam, assim como os aparelhos conseguem monitorar a glicemia com apenas uma pequena gota de sangue, o que significa uma picada praticamente sem dor. Assim, algo que era penoso já não é mais”. Segundo Calliari, todos os esforços foram feitos para que os diabéticos ganhassem qualidade de vida e não se sentissem restringidos ou apartados. “As limitações são cada vez menores, e eles podem comer as comidas gostosas que têm vontade e fazer praticamente de tudo.”

E a escola?

A vida das crianças com diabetes melhorou bastante, mas não se pode dizer o mesmo do seu dia a dia na escola. A falta de conhecimento sobre a doença – seja por parte da direção e dos professores, seja por parte dos colegas – e o medo de tomar uma providência errada ainda são as maiores pedras no sapato. “As crianças passam grande parte do tempo ali. Para os pais, é um sufoco, pois eles precisam ter a garantia de que ela será cuidada, o que nem sempre ocorre”, diz Denise.

Lisandra Paes, coordenadora pedagógica da escola municipal Prof. Derville Allegretti, no bairro de Santana, em São Paulo, admite que a imensa maioria dos profissionais não sabe o que é o diabetes. “Muito menos sabe reconhecer os sintomas de baixas taxas de açúcar no sangue, o que requer uma ação imediata. No caso de escolas públicas isso é ainda pior, pois nenhuma providência – seja tratar de uma hipoglicemia, seja dar insulina, porque a glicemia está alta – pode ser feita dentro do local. É preciso recorrer a uma Unidade Básica de Saúde (UBS), e, quase sempre, a criança é orientada a não voltar para a sala de aula naquele dia.”

Foi pensando em conscientizar professores e alunos e preparar a escola para lidar com a doença que a IDF, juntamente com a ADJ e a empresa farmacêutica Sanofi, lançou, em agosto, o projeto Kids. “Primeiramente, ele foi implementado na escola Prof. Derville Allegretti, que serviu como piloto, e, agora, será levado a mais 14 escolas – 13 no estado de São Paulo e uma no Ceará”, conta Denise. O material, com abordagem lúdica, foi feito para os diversos públicos-alvo: alunos de diferentes faixas etárias, professores e pais. “Não vamos falar só sobre o diabetes tipo 1, mas também sobre a importância de ter uma vida saudável, de se alimentar bem e de se movimentar para evitar a obesidade e o diabetes tipo 2”, declara a endocrinologista. “Todos têm de ter acesso a cuidados e apoio e o direito de ser incluído e participar com segurança das atividades escolares”, afirma David Chaney, especialista de educação sênior da IDF.

Suas dúvidas resolvidas

O que é hipoglicemia?

O açúcar (a glicose) é a principal fonte de energia do corpo. Assim, se o combustível do organismo está em falta, é natural que este se ressinta. Mãos trêmulas, suor, confusão mental, irritação e taquicardia são alguns dos sintomas mais comuns, mas não nas crianças. “É mais difícil perceber os sinais em uma criança, até porque ela muitas vezes não aprendeu a identificá-los. Geralmente, elas ficam mais irritadiças e sonolentas ou choram”, explica Luis Eduardo Calliari.

Taxas baixas de açúcar costumam acontecer quando a criança se exercitou sem se alimentar ou até se ela comeu muito pouco. É bom lembrar que, da mesma maneira que o corpo funciona basicamente abastecido pela glicose, o cérebro também. Um episódio severo de hipoglicemia pode fazer a criança desmaiar ou ter uma convulsão.

O que é hiperglicemia?

É o oposto da hipoglicemia, ou seja, altas taxas de açúcar no sangue. É uma das maiores causas de morte entre crianças com diabetes. Níveis tão altos de glicose sanguínea podem acontecer em algumas situações: quando a criança tem a doença, mas ainda não foi diagnosticada; quando o controle é ruim; ou como resultado de alguma outra doença ou uso de determinados medicamentos, que podem fazer a glicemia subir. Entre os sintomas estão sede, perda de peso, cansaço, idas frequentes ao banheiro para fazer xixi (os rins trabalham mais para eliminar o excesso de açúcar do sangue) e boca seca. Se a hiperglicemia não for controlada, pode levar a náuseas, vômito, confusão e até coma. Mas é bem fácil tratá-la. Basta administrar insulina suficiente para fazer os níveis de açúcar caírem e dar bastante água à criança.

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Devo contar para o meu filho que ele tem diabetes?

Honestidade é sempre a melhor política. Ao conhecer a condição que ele carrega, fica mais fácil pedir ajuda quando apresentar um quadro de hipoglicemia ou cetoacidose – quando há falta de insulina e o corpo não consegue usar a glicose como fonte de energia, as células utilizam outras vias para manter seu funcionamento. Claro, a doença deve ser explicada em uma linguagem que seja facilmente compreendida. Profissionais de saúde que lidam com o diabetes ou entidades como a ADJ podem ajudá-la com isso.

O que é contagem de carboidratos?

É uma das estratégias para planejar a alimentação e manter os níveis de açúcar no sangue o mais próximos do normal possível. O método revolucionou o tratamento do diabetes. Basta contabilizar os gramas de carboidrato que foram consumidos na refeição e fazer uma conta simples (é o médico quem determinará que conta é essa) para saber quanta insulina deverá ser aplicada para cobrir aquilo que foi ingerido. Assim, não se fala mais em comida ou dieta do diabético. A contagem de carboidrato, que acompanhou o aparecimento de novos tipos de insulina, permitiu a quem tem a doença comer praticamente tudo aquilo que tem vontade.

Meu filho pode fazer qualquer esporte?

Pode, desde que monitore a glicemia antes e se alimente. Se a atividade for puxada e demorada (uma partida de futebol, por exemplo), é importante medir a taxa de açúcar sanguíneo no intervalo do jogo, por exemplo, e, se for o caso, comer antes de ele recomeçar.

Meu filho pode ficar cego por causa do diabetes?

Como qualquer doença crônica, que precisa ser acompanhada por toda a vida, as complicações são decorrentes do bom ou do mau controle. Mas, segundo o doutor Minicucci, com a chegada de insulinas mais modernas, o controle da doença melhorou muitíssimo. “Agora, a adolescência é, de fato, a fase mais complicada, pois o jovem muitas vezes não aceita realizar os procedimentos e acaba dificultando o tratamento.”

Em que momento o meu filho pode começar a fazer o controle sozinho?

“A partir dos 8 ou 9 anos, a criança já pode fazer a ponta de dedo sozinha, sempre com a supervisão de um adulto”, explica a doutora Denise Franco, diretora da ADJ. Por volta dos 12 anos, ela também poderá aplicar insulina sozinha, também com supervisão. Ao chegar à adolescência, o jovem já é capaz de tomar as rédeas do seu tratamento. 

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