Desejos para o seu ano novo

Como manter o clima de renovação o ano todo

“Recado ao seu ano novo”

Como você está? Daqui não consigo te ouvir ou enxergar direito. Enquanto escrevo, o ano anterior ainda não acabou, há trânsito por toda parte, o calor abafado me derruba, acabo de ganhar um panetone e preciso me apressar, porque daqui a pouco tenho mais um amigo secreto. Não me decidi sobre o fim de ano propriamente; se irei a uma festa, farei um retiro ou se atenderei ao pedido dos amigos mais próximos de passarmos juntos, fazendo planos para conseguirmos botar em prática tantos planos.

Apesar da falta de certezas, sei que em algum momento haverá praia ou pelo menos uma superfície horizontal na qual poderei me deitar para deixar o corpo descansar e aquecer. E depois vou me refrescar bastante e terei o tempo da leitura sem pressa, o que para mim significa quase toda a paz do mundo. Eu penso em você, que já está aí, este ano novo, e desejo profundamente que esteja em um lugar de paz. Que tenha conseguido pular de um ano a outro, com ou sem ondinhas, e que agora consiga se voltar para si. Nem que seja um pouco. Vamos olhar só para você.

Que esteja tudo bem, mesmo não estando tudo perfeitamente bem – já abandonamos a crença dos cem por cento. Que você tenha desistido da ilusão de que tudo se resolve de um ano para o outro e que consiga enxergar as transformações lentas, brotando, esperando pelas horas certas.

Que você tenha tirado o biquíni do armário e que tenha se sentido confortável dentro dele. Mais soltinho, mais apertadinho, não importa. Que olhe para o seu corpo e pense: “Que corpo!”. Que cuide dele e que o transporte até um lugar que pode conter um chuveirão, uma banheira, uma piscina, uma cachoeira ou uma praia. Que a lista de coisas para começar, coisas para continuar e coisas para terminar não seja maior que a lista de coisas para aproveitar agora. Este instante presente.

Não consigo imaginar todos os seus contornos. Vou ficar com a imagem da praia. Agora você está só com seu corpo. Dentro do mar? Pois vou imaginar você dentro do mar. Boiando, talvez. Ouvindo alguns sons abafados, olhando para o céu. Tem algo de verde recortando as nuvens? Que beleza. É aí mesmo que eu fui.

Nesse momento, não importa como. Não importa quem está na areia chamando, se tem gente ou não. Não importa o trabalho que deu chegar nem a incerteza de como vai ser a volta. Importa o agora. Esse agora em que todas as suas células parecem estar satisfeitas e em paz com todas as outras células que as envolvem. Algo que chamam plenitude acontece. Há moléculas suas que conversam com as moléculas em volta, numa troca afetuosa. Como se tudo em você recebesse um abraço. Olha como é perfeito esse instante. Guarde-o. Essa sensação de refresco, de proteção, de conforto. Essa foto mental que tiro de você agora e que devolvo a você. Guarde-a para voltar a ela de quando em quando. Que esse momento alimente, por todos os dias do ano, uma nova você que agora sai do mar, refrescada, renovada, pronta.

 

*Gabriela Aguerre é jornalista e autora de O Quarto Branco (Todavia), publicado em 2019

 

 

%d blogueiros gostam disto: