Conheça as homenageadas do Mulheres do Ano no Prêmio CLAUDIA

As jogadoras levaram para o campo e esfera pública discussões sobre a luta pela igualdade de gênero e a urgência no reconhecimento das mulheres no esporte

Foi um balde de água fria quando a torcida soube que Marta da Silva, 33 anos, não participaria da estreia do Brasil na Copa do Mundo Feminina de Futebol, sediada na França. A craque não havia se recuperado a tempo de uma lesão sofrida dias antes, na preparação do time. A primeira entrada em campo só rolou na outra semana. Mas compensou tudo. De batom, a jogadora pisou no gramado com tanta confiança que deu sentido ao que aconteceria em seguida.

Naquele 13 de junho, a alagoana faria história novamente. Tornou-se a primeira pessoa, entre homens e mulheres, a marcar gols em cinco mundiais. Na comemoração do pênalti que lhe rendeu a marca, apontou para sua chuteira, que carregava um símbolo pela igualdade de gênero. Naquele minuto, a celebração se agigantou. Virou um símbolo que sintetiza toda a luta de milhares de meninas nos campos de base do Brasil. Era a maior de todos dizendo que é possível, sim.

O time seguiu nessa toada durante o Mundial e depois dele. Repetiu à exaustão a importância de olharmos para a questão da mulher no esporte. Parece que buscar esse espaço igual seria natural para a nação intitulada como “o país do futebol”. Entretanto, no Brasil, essa narrativa foi sempre permeada pela desigualdade. As mulheres foram proibidas de competir em esportes considerados masculinos, entre eles o futebol, por mais de 40 anos.

“Às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza, devendo, para esse efeito, o Conselho Nacional de Desportos baixar as necessárias instruções às entidades desportivas do país”, dizia o decreto-lei de 1941. Anos mais tarde, na década de 1960, o futebol foi acrescentado oficialmente à lista. Quem quisesse jogar de forma amadora poderia, mas não seria reconhecida. Só em 1983 o futebol feminino foi regulamentado e aí surgiram os primeiros times profissionais.

O hiato gerou atraso na modalidade. Para ter uma ideia, o Campeonato Brasileiro de Futebol, que é masculino, teve sua primeira edição em 1959. Em contrapartida, só em 2013 foi criado o Campeonato Brasileiro de Futebol Feminino. Três anos depois, a Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol) regulamentou que, a partir de 2019, os clubes licenciados por ela deveriam ter times femininos adulto e de base para poder participar da Libertadores e da Copa Sul-Americana. Sete dos 14 times brasileiros classificados para a Libertadores começaram o ano sem cumprir a regra. Eles precisaram correr atrás de clubes amadores para se atualizar a tempo. Além disso, frequentemente os recursos destinados pelos grandes clubes às suas equipes femininas são muitas vezes inferiores ao que aplicam nas masculinas.

Homenageadas do Mulheres do Ano do Prêmio CLAUDIA

 (CLAUDIA/Getty Images)

Com a falta de investimento em times de base e a inexistência de campeonatos fortes, as mulheres chegam menos preparadas para a seleção brasileira. Enquanto a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) forma times masculinos a partir da categoria sub-15 até a sub-23, com os jovens talentos geralmente passando por todas essas etapas até ingressarem na categoria principal, o time sub-15 para as meninas só surgiu em 2013. A falta desse segmento fez com que a meia Andressinha, que este ano disputou sua segunda Copa, começasse direto na sub-17, mesmo aos 13 anos. Já Marta nunca passou pela base, chegando à principal aos 16 anos.

A desigualdade em campo se reflete na baixa cobertura do noticiário especializado sobre seus jogos e até no reconhecimento que elas recebem por suas vitórias. O vencedor do Brasileirão masculino do ano passado recebeu o prêmio de 18 milhões de reais ante apenas 120 mil reais no feminino. Seguem a mesma regra os salários, as condições de trabalho e os patrocínios, que não são comparáveis aos dos craques homens.

Jogando nos Estados Unidos, Marta é uma das mais bem remuneradas do mundo, com salário anual de cerca de 1,5 milhão de reais. No Brasil, ganharia muito menos, mas o artilheiro do Brasileirão deste ano, Gabriel Barbosa, o Gabigol, recebe 1,25 milhão por mês do Flamengo, marca nunca atingida por Marta em sua vitoriosa carreira. Quer outro exemplo? A folha salarial da equipe feminina do Corinthians, que disputou a final do Campeonato Brasileiro neste ano, não chega a 100 mil reais; a dos colegas homens é de cerca de 11 milhões de reais.

Apesar de todas as adversidades e do descrédito ao seu trabalho, as jogadoras brasileiras conquistam resultados relevantes em competições internacionais com equipes de alto nível. Em 1999, na Copa nos Estados Unidos, elas surpreenderam e subiram ao pódio em terceiro lugar; em 2007, disputaram a final do Mundial e ganharam ouro no Pan-Americano do Rio. Nessa época, estavam em campo algumas das craques, como Marta, Cristiane e Formiga, que agora deixam seu legado para as novas gerações de atletas.

A Copa do Mundo deste ano selou a mobilização por justiça e reconhecimento da modalidade feminina. A seleção fez o Brasil torcer por elas dentro e fora de campo, marcando recorde de 25 pontos de audiência ligada em sua estreia – lembrando que foi a primeira vez que a TV aberta exibiu todo o campeonato. E o debate sobre a desigualdade de gênero no país do futebol chegou aos holofotes esperando para ser corrigida pelos gestores do esporte. Elas já provaram que não faltam garra e talento.