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O que a agricultura familiar nos ensina sobre sustentabilidade?

Representando 77% dos estabelecimentos rurais do país, o setor é o maior responsável pela produção dos alimentos consumidos pela população brasileira

Por Colaborou: Gabriela Teixeira - Atualizado em 23 abr 2020, 12h21 - Publicado em 23 abr 2020, 12h05

Com uma economia baseada em grande parte na exportação de produtos agropecuários, não surpreende que o Brasil conte com mais de 5 milhões de estabelecimentos rurais, segundo indicam os dados do Censo Agropecuário 2017, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) no ano passado. Destes, 77% foram classificados como do tipo agricultura familiar, ou seja, feita por pequenos produtores, em que a propriedade e a atividade agrícola é gerida e realizada pela família dona da terra. A categoria também é a maior responsável pela produção dos alimentos consumidos pela população brasileira.

Em oposição às monoculturas de grandes latifúndios, o cultivo na agricultura familiar é mais diversificado, uma vez que parte do que é produzido se destina ao consumo das famílias produtoras. Por outro lado, a preocupação em ter uma produção livre de agrotóxicos ainda não alcança boa parte do setor: apenas 20 mil propriedades estão cadastradas como produtoras orgânicas, aponta o Conselho Brasileiro da Produção Orgânica e Sustentável (Organis).

Esta, porém, não é a realidade das 450 mil famílias assentadas do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Presentes em 24 estados brasileiros, essas famílias conquistaram do Estado o direito de viver e utilizar terras antes improdutivas, e hoje tiram delas seus alimentos e sua renda, tendo como pilar a agroecologia, conceito que defende uma prática agrícola sustentável não apenas do ponto de vista ambiental, mas também social e econômico. “Para nós, a agroecologia faz parte de um conjunto de relações no campo que vai desde a não utilização de agrotóxicos, desmatamento ou queimadas para abrir áreas de plantio à transformação da qualidade do solo para que o alimento produzido seja mais saudável”, explica Kelli Mafort, membro da coordenação nacional do MST.

Ela explica que, além da democratização da terra, o movimento defende também a produção em larga escala de orgânicos, uma vez que, devido ao seu preço mais elevado, seu consumo se restringe a quem tem melhor poder aquisitivo. “Sendo saudável e diverso, o alimento tem que estar a disposição de todas as pessoas. Infelizmente, hoje só uma parte da população tem dinheiro para comprar os orgânicos vendidos em supermercados”, argumenta.

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Na região de Ribeirão Preto, em São Paulo, onde Kelli vive, as famílias assentadas desenvolvem junto com suas hortas, o que ela chama de agrofloresta. “Além da produção de alimentos, existe a construção de florestas, plantamos árvores, fazemos o manejo, alimentamos o solo. Seguimos muito a filosofia da professora Ana Primavesi, que dizia que um solo sadio produz alimentos sadios”, conta a líder. Visando a autossuficiência, parte da madeira também é utilizada nos próprios assentamentos, evitando assim o gasto com produtos externos.

Além de comercializada e consumida pelas famílias, parte da produção do MST costuma ser doada em ações de solidariedade. Somente do começo da pandemia até agora, foram doadas 500 toneladas de alimentos. “Claro que alguns acampamentos possuem dificuldades, nem todos conseguem ter uma produção tão grande ou são atingidos por secas. Mas ainda assim, vamos doando. Porque para nós não significar dar o que está sobrando, mas dividir o que temos, diz.

Na linha de frente

Em meio às lutas pelo direito à terra e defesa de uma agricultura sustentável, o movimento também levanta a bandeira por igualdade e combate à violência de gênero, criando políticas que valorizem as mulheres. “Para nós, esse combate passa pela questão econômica. Se as mulheres estiverem à frente do projeto econômico e tiverem, de fato, poder em suas localidades, elas terão mais condições de enfrentar a violência”, explica.

No caso da produção alimentícia, isso implica em ter uma maior presença feminina nas cooperativas, tomando decisões e lidando diretamente com gestões locais. “Ao longo desses anos todos, fomos construindo um setor de gênero dentro do MST, fazendo com que elas ocupem mais espaço dentro do Movimento. A Coordenação Nacional, por exemplo, é obrigatoriamente formada por mulheres. Porque se elas não participam, também não conseguem tomar decisões políticas.”

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Os direitos da comunidade LGBT+, presente no Movimento desde o início, também é pauta. “Como a própria sociedade foi avançando nesse debate, também fomos criando espaços, inclusive de informação. Porque muitas vezes o preconceito é fruto de falta de conhecimento. Então trabalhamos muito com informação para quebrar essas formas conservadoras de pensar”, finaliza Kelli.

Em tempos de isolamento, não se cobre tanto a ser produtiva:

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