Psicanalista Betty Milan relança livro ‘E o Que É o Amor?’

Após 35 anos do lançamento da sua primeira edição, obra de Betty volta às livrarias. A autora conversou com CLAUDIA sobre romance, sexo e ciúmes

O livro chegou às livrarias em 1983 causando certo desconforto. As resenhas foram ácidas e a Folha de S.Paulo publicou uma matéria que simbolizou o comportamento comum na época.

Na primeira página do caderno de cultura do jornal, a caricatura de um cara abrindo a braguilha ilustrava uma crítica a E o Que É o Amor?, da psicanalista Betty Milan. “Uma prova de machismo. Os homens não permitiam que a mulher escrevesse sobre o amor”, afirma Betty. “O discurso amoroso é a expressão do desejo, algo proibido para nós, segundo eles.”

De lá para cá, o que mudou? “Na essência, nada. De uma forma ou de outra, o amor ressurgirá sempre”, responde a autora na introdução atualizada. O sentimento é o mesmo, mas as convenções, as práticas e as formas que escolhemos para nos relacionar com o outro estão em evolução constante. Foi essa a tônica da conversa com a escritora, em uma tarde ensolarada e gostosa no apartamento em que vive, na região da Avenida Paulista.

Betty se mostra otimista com as relações afetivas. O tempo passado desde então não a fez se desviar da ideia de que a vida sem paixão não vale a pena. Neste mês, o livro ganha nova edição, com o selo da Record.

 (Pablo Saborido/CLAUDIA)

CLAUDIA: Há 35 anos, você foi criticada por ser uma mulher tomando a palavra para discutir o amor. Isso acabou?

Betty Milan: Vivemos em um país conservador, que ainda acredita que a mulher não está autorizada a sentir desejo. Eu não poderia ter escrito esse livro hoje por outro motivo: ele é fruto da liberdade sexual experimentada nos anos 1970 e 1980. Eu tinha um estilo poético, que também foi criticado. Talvez uma tese acadêmica causasse menos escândalo.

CLAUDIA: Por que o discurso amoroso permanece como território majoritariamente masculino?

Betty Milan: O discurso amoroso nasce com eles, com os trovadores que desejam a mulher impossível, casada. No Brasil, segue sendo um sentimento dito ou cantado sobretudo pelos homens.

Roberto Carlos e Chico Buarque mantêm viva a tradição. Claro que há cantoras. Mas ninguém superou Roberto Carlos. Ele reitera a crença de que é impossível viver sem amar. Os apaixonados suspendem a ideia da morte, suportam-na, pois só o amado permanece para além da vida.

CLAUDIA: Para o filósofo polonês Zygmunt Bauman, vivemos em tempos líquidos e confusos. As relações não duram e são rasas. Você concorda?

Betty: O amor verdadeiro é duradouro, mas raro. Quando acontece, flui. Para tanto, é preciso se entregar. E nestes tempos, em que vigoram as exigências do mercado, não é possível se doar totalmente. A paixão amorosa é contrária à logica da produção e do consumo.

Além disso, o amor só perdura por meio do discurso, da demonstração entre os amantes. Se ela não existe, o sentimento fica ralo mesmo. O amado quer ouvir “Eu te amo, sem você eu não existo, prove que me ama…” As pessoas aprendiam nos livros e repetiam.

CLAUDIA: As relações são vividas com mais abertura em casa, o que pode ser um aprendizado para as crianças. Há também menos tabus. Isso contribui?

Betty: O enredo amoroso vigora entre amante e amado e é aprendido na experiência. Antigamente, era possível aprender na literatura, mas hoje as pessoas pouco leem. O fato de você ter menos tabu e mais liberdade não significa que haverá mais amor acontecendo.

Na verdade, o que há é uma confusão entre amor e sexo. O amor só se aprofunda quando há comunhão de almas, e isso exige o uso das declarações.

CLAUDIA: As pessoas têm medo do amor?

Betty:  Quando alguém ouve um “Eu te amo”, se assusta e se pergunta, mesmo que inconscientemente: “Por que eu?”. E aí é obrigado a se confrontar consigo mesmo. No primeiro momento, ele é sentimento, arrebata. Depois, é construção. Vai-se de uma relação para outra. Tem amores que arrebatam muitas vezes ao longo da vida e nem exigem construção.

O que importa é o amado não contradizer a fantasia que faz do amante. De certa forma, o amor resiste enquanto o outro é um ser idealizado. Amor e sexo, às vezes, são contraditórios. No afeto, não há espaço para indelicadezas. O sexo pode desconstruir a fantasia, ser instintivo.

CLAUDIA: Por quê?

Betty: O sexo pode ser extraordinário, mas ao mesmo tempo frustra, porque desmonta a idealização que fazemos do parceiro. O poeta francês Charles Baudelaire é um exemplo. Por anos cultuou uma dama, escreveu-lhe poesias. Mas, quando ela o descobriu e se entregou, o poeta se decepcionou. Ela era mulher para permanecer na idolatria.

CLAUDIA: Em que outros casos o amor não se realiza?

Betty: Quando negamos voz ao outro. O amor tende a ser narcísico. Na lenda, Narciso se apaixona pela própria imagem. Nós somos assim. E, quando nos interessamos pelo outro, é sinal de que nos abrimos para isso e olhamos verdadeiramente para ele.

O amor pode ser cruel porque é profundamente contraditório. Os amantes buscam se espelhar, mas, como são diferentes, isso traz sofrimento, gera inveja, mal-estar, ciúme.

CLAUDIA: O que é ciúme, hoje?

Betty: Um monstro que se engendra, produto de uma imaginação doentia, e pode levar ao crime. Infelizmente, há muitos casos na nossa realidade.

CLAUDIA: Nas redes sociais, nos mostramos muito e nos tornamos mais vaidosos. Isso ajuda ou atrapalha o amor?

Betty: Dificilmente uma pessoa tão narcisista consegue se entregar ao outro por completo. Em geral, quem fica junto por muito tempo vai se moldando ao parceiro. A pessoa não pode permanecer cristalizada, focada em si mesma. Tem que saber que está sujeita a mudar. Se esse processo não acontece, há forte motivo para a separação.

CLAUDIA: O amor, obrigatoriamente, envolve sofrimento?

Betty: Sempre somos marinheiros de primeira viagem no amor, mas, à medida que vamos vivendo, aprendemos a avaliar e a entender o discurso do outro. E fugimos do que vai nos fazer mal. Entretanto, o amor pode ser masoquista. E isso o prolonga.

Rememorar o sofrimento torna o amor eterno. É como minha mãe, que ficou viúva cedo, mas relembrava sua história de amor com meu pai, levando-a até o fim. No túmulo dela está a inscrição: “O amor é maior do que a morte”.

CLAUDIA: Por que ainda há quem considere o casamento uma necessidade para alcançar a plenitude?

Betty: A maioria continua querendo constituir família para se perpetuar por meio dos descendentes e ter segurança. Porém, como sabemos, nem sempre dá certo.

CLAUDIA: Até hoje há quem desqualifique ou condene o amor entre pessoas do mesmo gênero. O que você acha?

Betty: O amor é indiferente a gênero. Sei de muitas histórias de homens e mulheres heterossexuais que, de repente, foram surpreendidos por um amor homossexual devorador, ao qual eles se entregaram, apesar da estranheza. Embora o amor tenha sido associado a procriação ou sexo, nada tem a ver com isso, e sim com o encontro de almas gêmeas.

CLAUDIA: Com as mensagens instantâneas, trocadas por smartphone, o controle entre os parceiros aumentou. Qual o impacto disso na relação?

Betty: Hoje, temos mesmo mais acesso a informações sobre o outro. E é provável que a aliança com um mau – caráter, um marginal, esteja fadada ao fracasso, porque descobrimos logo. Mas intimidade não é sinônimo de grude. Ela depende da capacidade de escuta, de doação. O amor prevê sensibilidade com o outro.

Para Octavio Paz, autor de A Dupla Chama, amor é a aposta na liberdade do outro. O que isso quer dizer? Se você ama, deve entender que o desejo do parceiro não coincide com o seu. E aceitar a diferença.

CLAUDIA: A tecnologia torna a fidelidade mais difícil?

Betty: A fidelidade é um ideal difícil de alcançar, já que o desejo tende a mudar de objeto. O psicanalista Jacques Lacan dizia que a civilidade dos franceses estava na tolerância aos casos de traição.

CLAUDIA: A posição social da mulher mudou significativamente. Ela passou a estudar mais do que o homem, a ganhar dinheiro, sustentar a casa, conquistar independência. Qual é o peso da mudança na relação a dois?

Betty: Depende do casal, porque, no amor, ter mais poder social ou financeiro não coloca a pessoa à frente. Quem ama verdadeiramente não luta por prestígio.

Relançado pela Record com o título “O Que É amor?”(34,90 reais), o livro tem nova introdução e mais notas de roda pê

Relançado pela Record com o título “O Que É amor?”(34,90 reais), o livro tem nova introdução e mais notas de roda pê (Editora Record/Divulgação)

Veja também: Geovani Martins: Morador do Vidigal lançará livro em nove países

Sergio Guizé fala sobre sua trajetória para o autoconhecimento