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Ativista luta contra o papel do homem dominador e o estupro

A ONG de Érica Peçanha quer formar uma nova cultura em que não caiba mais o papel do dominador e em que a mulher não seja submetida ao estupro

Por Patrícia Zaidan - Atualizado em 31 out 2016, 11h32 - Publicado em 14 out 2013, 22h00

Foto: Getty Images

Érica Peçanha, 30 anos, foi gerada quando a mãe tinha 15 anos. O homem que a concebeu foi embora sem lhe dar paternidade, e a avó, pobre, cuidou de tudo. Morta a avó, as duas foram viver de favor em casas de amigos. O roteiro de dificuldades que mulheres sozinhas enfrentam fez dela uma sensível militante. Assistente social do Movimento de Mulheres em São Gonçalo, a fluminense escolheu atuar em um projeto que contra-ataca a violência doméstica e sexual. Quando Martha Rocha, chefe da Polícia Civil do Rio Janeiro disse, em junho, que a cada dia ocorrem 17 estupros no estado, Érica não se surpreendeu. Há dez anos na lida, ela já vinha notando a escalada. De 2011 para 2012, o salto foi de 24%. O drama não é só do Rio. São Paulo anota medonhos 37 estupros a cada 24 horas. Por que aumentou? Érica explica: “A Lei Maria da Penha trouxe a consciência de que o estupro em casa, antes `um assunto de família’, também é objeto da intervenção pública”. Além disso, a divulgação dos mecanismos de denúncia encoraja vítimas atacadas no ônibus, no metrô ou na balada a ir à polícia. Mais: desde 2009 o crime passou a incluir o que se conhecia como atentado violento ao pudor. Assim, constranger alguém à prática de atos libidinosos, mesmo sem penetração, é estuprar. Dois delitos entram agora na mesma estatística.
 

Ativista luta contra o papel do homem dominador e o estupro

“O criminoso se torna mais cruel à medida que a sociedade dá mais importância às coisas e menos às pessoas”
Foto: Ana Rovati


A crueldade nos episódios está igualmente em alta. Para a ativista, isso se deve, em parte, à impunidade. De janeiro a abril, só 70 homens foram presos no Rio, enquanto as vítimas chegavam a 1.822. “O sadismo também se expande com a banalização da vida e o desprezo pelo outro”, reflete. “O criminoso se torna mais cruel à medida que a sociedade dá mais importância às coisas e menos às pessoas.” Sempre que sabe de um novo caso, Érica se lembra de uma amiga que namorava no carro, no escuro, e acabou violentada por seis vândalos. “Ela foi vitimada duas vezes: por vergonha, sumiu da escola como se tivesse culpa.” A ONG de Érica atua em diferentes frentes de batalha: prevenção (ensina a não marcar encontros pela internet, por exemplo); capacitação de profissionais que atendem vítimas; oficinas para adolescentes; e formação de conselheiras de direitos, que, conhecendo as leis, sensibilizam as pessoas. “Ainda dizemos às mulheres casadas que não são obrigadas a nenhuma atividade sexual contra a vontade”, conta. Mas o que fará a diferença é a mudança da nossa cultura – “que dá ao homem a necessidade de reafirmar a virilidade e a certeza de que é o sujeito da dominação, cabendo à mulher atender a todos os seus desejos, incluindo os sexuais”. Nisso, Érica está empenhada até a medula.
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