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Black das Blacks com preço absurdo

A trajetória de Fayda Belo, finalista do Prêmio CLAUDIA 2025 e referência no direito das mulheres

A advogada usa sua força nas redes sociais para democratizar o acesso a informações sobre Justiça e direitos das mulheres

Por Ana Luiza Bezerra
Atualizado em 27 nov 2025, 11h22 - Publicado em 27 nov 2025, 08h00
Foto de Fayda Belo vista de frente representando mulheres que lutam por justiça social
Ao longo de sua trajetória, Fayda destaca a necessidade de empoderamento feminino no Direito (Árthur Ferreira/Divulgação)
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Dizem que algumas pessoas já nascem com o dom para determinadas profissões, e Fayda Belo é uma prova disso. Considerada uma criança inquieta, desde os nove anos ela luta por aquilo que considera justo, especialmente quando se trata da defesa das mulheres. Não à toa, nasceu a Dra. Fayda, aprovada na OAB com nota máxima um ano antes do término da graduação.

Mas, apesar da trajetória já consolidada — ocupando cargos como o de conselheira do Conselho de Desenvolvimento Econômico, Social e Sustentável da Presidência da República (CDESS) e autora do livro Justiça para todas: o que toda mulher deve saber para garantir seus direitos — foi nas redes sociais que ela alcançou o grande público.

Com mais de 2 milhões de seguidores, hoje Fayda ensina, de maneira didática e acessível, sobre o direito das mulheres, “sem juridiquês”, como ela mesma define.

E uma profissional tão dedicada a utilizar seu conhecimento para a mudança social não poderia estar de fora da categoria “Direito das Mulheres”, no Prêmio CLAUDIA 2025. Em entrevista, ela conta os caminhos percorridos até aqui.

Imagem de Fayda Belo vista de frente representando mulheres negras na advocacia
A advogada reforça a importância de políticas públicas para que cada vez mais pessoas tenham acesso a seus direitos (Árthur Ferreira/Divulgação)

CLAUDIA: Queria começar conhecendo a sua história. O sucesso na carreira aconteceu como um sonho?

Fayda Belo: Eu sempre digo que estou exatamente no lugar que era o sonho da minha vida. Sempre tive o sonho de ser a advogada que ajuda as mulheres. E isso vem desde muito cedo.

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Obviamente, enquanto uma mulher negra retinta, filha de mãe solo e diarista, a educação foi o motor. Acreditar nela enquanto instrumento foi muito importante para que esse sonho se realizasse. Eu entendo a educação como a mudança que coloca o mundo no eixo. E isso não só na minha área, no enfrentamento à violência contra as mulheres, mas na vida.

CLAUDIA: E a entrada na faculdade de Direito, como foi esse processo?

Fayda Belo: Eu larguei o ensino médio porque engravidei muito jovem. Precisei recuar. Quando voltei, falo muito sobre como é difícil retomar os estudos com filhos e marido, morando em um lugar sem universidade pública. Embora eu tenha sido aprovada em algumas, eu não tinha como virar a vida deles do avesso, arrumar a mala e ir embora.

Nesse ponto, foi muito importante existir uma política pública que me desse a chance de realizar esse sonho: o Prouni. Com ele, pude cursar Direito e estar onde estou.

Quando olho para alguém que não é herdeira, não tem pai e mãe com escritório, que não tem estrutura pronta, você pensa: “E agora?”. Porque, em Direito, todo ano se formam muitos profissionais. Como não ser “mais uma”? Larguei meu emprego e fui estagiar na Defensoria Pública. Isso foi muito importante para a base que tenho: não apenas por ajudar os vulneráveis, mas por aprender na prática.

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Enquanto outros faziam rifa e churrasco para arrecadar fundos do baile, eu optei por realizar um evento jurídico, o ECAD, para criar uma ponte entre alunos e mercado. Se, de um lado, eu arrumava a grana para o baile, do outro eu já me colocava no mercado, ainda aluna. Tive que abrir um escritório às minhas custas, sem indicações e sem alguém próximo no meio. Era o sonho, a vontade e a coragem.

CLAUDIA: Pensando no recorte de gênero, sexualidade e raça: você disse que isso sempre esteve na sua jornada. Como atravessou o seu trabalho depois de adulta?

Fayda Belo: Na verdade, não atravessa depois que virei a Dra. Fayda. Eu já tinha essa meta desde quando eu era a menina Fayda. Sendo mulher negra e vinda de um ambiente muito escasso — onde o Judiciário, a Justiça e a defesa não chegam — eu cresci com o intuito de ser a advogada que olha pela lente dos grupos que eles não olham.

Antes de entrar na profissão já brincavam: ‘você milita muito’. E eu dizia: ‘Sim, desde sempre’. Essa Fayda online é da base, há muitos anos. Hoje o alcance que tenho me ajuda a levar voz a um público maior, mas isso integra minha vivência há muito tempo.

CLAUDIA: Além de advogar, você ensina e simplifica termos nas redes, tornando-os acessíveis. Como surgiram os primeiros trabalhos e como você encara esse boom?

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Fayda Belo: Eu divido em duas partes. Primeiro: sou uma mulher negra retinta que defende as mulheres. Por que é relevante dizer isso? Porque, quando falamos de direito das mulheres, ainda vemos uma mesa branca. Quando boto a lente na mulher negra, é como se só pudéssemos falar sobre mulheres negras, enquanto as brancas falam sobre todas — inclusive as negras.

Sempre quis ocupar esse lugar para lembrar: mulher negra é mulher. Se sou mulher, posso falar sobre todas nós. E mais: se as mais violentadas, estupradas e mortas são negras, é estranho que a mesa seja apenas de mulheres brancas. Eu queria pluralizar o debate.

Segundo: a educação. Essa advogada online veio no acaso do vírus que mudou a vida de todo mundo. Os fóruns trancaram as portas e foram os últimos a abrir. Com o tempo mais ocioso — e eu achava esse mundo online uma bobeira — percebi que dava para explicar o Direito em linguagem simples e acessível para que a população, em especial as mulheres, tivesse conhecimento.

Cá entre nós: esse nosso “clã” é muito metido a besta; usa termos que só a gente entende. Mas o Direito é e precisa ser de todo mundo. Passei a usar a linguagem que uso com amigas, marido e filhos, para incluir todo mundo.

É romper bolhas. A missão sendo realizada: não falo para jurista; falo para a Maria que não concluiu o ensino médio, para a médica, a engenheira, a moça do prédio.

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Imagem da advogada Fayda Belo representando educação inclusiva e acesso das mulheres ao Direito
Mais do que representar, em sua carreira Fayda busca que todos tenham acesso a Justiça e políticas públicas (@faydabelo/Instagram)

CLAUDIA: Você enfrentou resistências no meio jurídico ao levantar esses temas e se comunicar dessa forma?

Fayda Belo: Obviamente, sim. No início, diziam que eu estava fazendo o Direito virar ralé, que eu estava banalizando o Direito. Eu dizia que estava arrancando de um altar que não existe. Na realidade, eu estava devolvendo à população o que já é dela: acesso à informação.

Ouvi tudo com muita paz, sempre andando com o Código de Ética da OAB embaixo do braço. Eu sabia que não estava infringindo norma; ao contrário, estava realizando um trabalho humanitário que ajuda a população.

CLAUDIA: O que ainda falta para tornar o sistema jurídico mais inclusivo e representativo?

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Fayda Belo: Pluralizar. E, para isso, precisamos olhar para dentro. Explico: não te incomoda entrar num evento e ver apenas uma mulher na mesa? Ou apenas uma mulher negra? Acha isso normal? Falta o incômodo de olhar em volta e entender a importância de todo mundo fazer parte.

Se não pluralizo o debate, não entrego Justiça de verdade; reduzo a um gênero, a uma classe. O Brasil é plurirracial e múltiplo. Recortando para as mulheres: fomos um país colonizado; a Europa trouxe um modelo de Estado que anulava as mulheres, inclusive na lei.

Hoje temos leis dizendo que homens e mulheres são iguais, mas por séculos tivemos outra lei dizendo que mulher era objeto, posse de homem.

CLAUDIA: Pensando em tudo o que você já tem, o que ainda te move? O que sonha conquistar na carreira?

Fayda Belo: Outro dia eu refletia: o que ainda quero? Tenho realizado muitas coisas. Mas falta ampliar a voz para além da fronteira. Os temas que trago precisam ser resolvidos no mundo inteiro.

O que me move? Sou uma eterna romântica. Tenho a graça de realizar o que amo. Acordo empolgada por ser um grãozinho que ajuda a mudança, nem que seja na vida de apenas uma mulher. Amo abrir os olhos e pensar num Brasil mais justo, mais equânime, em que todo mundo faça parte. Podem achar utópico, mas é isso que me move.

CLAUDIA: Para finalizar: que conselho você daria a jovens que querem seguir no Direito, mas ainda não se veem representados no meio jurídico tradicional?

Fayda Belo: O importante não é ser a primeira — é abrir portas. Enganaram a gente dizendo até onde dava para ir. Era mentira. A gente pode, vai e deve ocupar todo e qualquer espaço. Como disse Maya Angelou: “se não houver lugar à mesa, leve sua cadeirinha”.

Não deixe de ocupar um espaço porque disseram que ele não existe. Existe, e nós vamos ocupar todos, até termos, de verdade, espaços públicos e privados, e um Judiciário que represente a população.

O Prêmio CLAUDIA 2025

O Prêmio CLAUDIA chega a sua 25ª edição, celebrando mulheres que transformam o Brasil em diferentes áreas. A edição 2025 será realizada em 9 de dezembro, às 20h, no Roxy Dinner Show, Rio de Janeiro, e destaca finalistas que se tornaram referência em cultura, educação, negócios, direitos da mulher, saúde, inovação, sustentabilidade, trabalho social, influência digital e impacto do ano.

O júri desta edição reúne nomes influentes e plurais, como Zezé Motta, Maria da Penha, Luiza Helena Trajano, Ana Fontes e a jornalista Aline Midlej, além das representantes da Editora Abril: Karin Hueck (editora-chefe de CLAUDIA), Helena Galante (diretora de núcleo da Abril) e Andrea Abelleira (VP de Publishing da Editora Abril).

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