A trajetória de Fayda Belo, finalista do Prêmio CLAUDIA 2025 e referência no direito das mulheres
A advogada usa sua força nas redes sociais para democratizar o acesso a informações sobre Justiça e direitos das mulheres
Dizem que algumas pessoas já nascem com o dom para determinadas profissões, e Fayda Belo é uma prova disso. Considerada uma criança inquieta, desde os nove anos ela luta por aquilo que considera justo, especialmente quando se trata da defesa das mulheres. Não à toa, nasceu a Dra. Fayda, aprovada na OAB com nota máxima um ano antes do término da graduação.
Mas, apesar da trajetória já consolidada — ocupando cargos como o de conselheira do Conselho de Desenvolvimento Econômico, Social e Sustentável da Presidência da República (CDESS) e autora do livro Justiça para todas: o que toda mulher deve saber para garantir seus direitos — foi nas redes sociais que ela alcançou o grande público.
Com mais de 2 milhões de seguidores, hoje Fayda ensina, de maneira didática e acessível, sobre o direito das mulheres, “sem juridiquês”, como ela mesma define.
E uma profissional tão dedicada a utilizar seu conhecimento para a mudança social não poderia estar de fora da categoria “Direito das Mulheres”, no Prêmio CLAUDIA 2025. Em entrevista, ela conta os caminhos percorridos até aqui.
CLAUDIA: Queria começar conhecendo a sua história. O sucesso na carreira aconteceu como um sonho?
Fayda Belo: Eu sempre digo que estou exatamente no lugar que era o sonho da minha vida. Sempre tive o sonho de ser a advogada que ajuda as mulheres. E isso vem desde muito cedo.
Obviamente, enquanto uma mulher negra retinta, filha de mãe solo e diarista, a educação foi o motor. Acreditar nela enquanto instrumento foi muito importante para que esse sonho se realizasse. Eu entendo a educação como a mudança que coloca o mundo no eixo. E isso não só na minha área, no enfrentamento à violência contra as mulheres, mas na vida.
CLAUDIA: E a entrada na faculdade de Direito, como foi esse processo?
Fayda Belo: Eu larguei o ensino médio porque engravidei muito jovem. Precisei recuar. Quando voltei, falo muito sobre como é difícil retomar os estudos com filhos e marido, morando em um lugar sem universidade pública. Embora eu tenha sido aprovada em algumas, eu não tinha como virar a vida deles do avesso, arrumar a mala e ir embora.
Nesse ponto, foi muito importante existir uma política pública que me desse a chance de realizar esse sonho: o Prouni. Com ele, pude cursar Direito e estar onde estou.
Quando olho para alguém que não é herdeira, não tem pai e mãe com escritório, que não tem estrutura pronta, você pensa: “E agora?”. Porque, em Direito, todo ano se formam muitos profissionais. Como não ser “mais uma”? Larguei meu emprego e fui estagiar na Defensoria Pública. Isso foi muito importante para a base que tenho: não apenas por ajudar os vulneráveis, mas por aprender na prática.
Enquanto outros faziam rifa e churrasco para arrecadar fundos do baile, eu optei por realizar um evento jurídico, o ECAD, para criar uma ponte entre alunos e mercado. Se, de um lado, eu arrumava a grana para o baile, do outro eu já me colocava no mercado, ainda aluna. Tive que abrir um escritório às minhas custas, sem indicações e sem alguém próximo no meio. Era o sonho, a vontade e a coragem.
CLAUDIA: Pensando no recorte de gênero, sexualidade e raça: você disse que isso sempre esteve na sua jornada. Como atravessou o seu trabalho depois de adulta?
Fayda Belo: Na verdade, não atravessa depois que virei a Dra. Fayda. Eu já tinha essa meta desde quando eu era a menina Fayda. Sendo mulher negra e vinda de um ambiente muito escasso — onde o Judiciário, a Justiça e a defesa não chegam — eu cresci com o intuito de ser a advogada que olha pela lente dos grupos que eles não olham.
Antes de entrar na profissão já brincavam: ‘você milita muito’. E eu dizia: ‘Sim, desde sempre’. Essa Fayda online é da base, há muitos anos. Hoje o alcance que tenho me ajuda a levar voz a um público maior, mas isso integra minha vivência há muito tempo.
CLAUDIA: Além de advogar, você ensina e simplifica termos nas redes, tornando-os acessíveis. Como surgiram os primeiros trabalhos e como você encara esse boom?
Fayda Belo: Eu divido em duas partes. Primeiro: sou uma mulher negra retinta que defende as mulheres. Por que é relevante dizer isso? Porque, quando falamos de direito das mulheres, ainda vemos uma mesa branca. Quando boto a lente na mulher negra, é como se só pudéssemos falar sobre mulheres negras, enquanto as brancas falam sobre todas — inclusive as negras.
Sempre quis ocupar esse lugar para lembrar: mulher negra é mulher. Se sou mulher, posso falar sobre todas nós. E mais: se as mais violentadas, estupradas e mortas são negras, é estranho que a mesa seja apenas de mulheres brancas. Eu queria pluralizar o debate.
Segundo: a educação. Essa advogada online veio no acaso do vírus que mudou a vida de todo mundo. Os fóruns trancaram as portas e foram os últimos a abrir. Com o tempo mais ocioso — e eu achava esse mundo online uma bobeira — percebi que dava para explicar o Direito em linguagem simples e acessível para que a população, em especial as mulheres, tivesse conhecimento.
Cá entre nós: esse nosso “clã” é muito metido a besta; usa termos que só a gente entende. Mas o Direito é e precisa ser de todo mundo. Passei a usar a linguagem que uso com amigas, marido e filhos, para incluir todo mundo.
É romper bolhas. A missão sendo realizada: não falo para jurista; falo para a Maria que não concluiu o ensino médio, para a médica, a engenheira, a moça do prédio.
CLAUDIA: Você enfrentou resistências no meio jurídico ao levantar esses temas e se comunicar dessa forma?
Fayda Belo: Obviamente, sim. No início, diziam que eu estava fazendo o Direito virar ralé, que eu estava banalizando o Direito. Eu dizia que estava arrancando de um altar que não existe. Na realidade, eu estava devolvendo à população o que já é dela: acesso à informação.
Ouvi tudo com muita paz, sempre andando com o Código de Ética da OAB embaixo do braço. Eu sabia que não estava infringindo norma; ao contrário, estava realizando um trabalho humanitário que ajuda a população.
CLAUDIA: O que ainda falta para tornar o sistema jurídico mais inclusivo e representativo?
Fayda Belo: Pluralizar. E, para isso, precisamos olhar para dentro. Explico: não te incomoda entrar num evento e ver apenas uma mulher na mesa? Ou apenas uma mulher negra? Acha isso normal? Falta o incômodo de olhar em volta e entender a importância de todo mundo fazer parte.
Se não pluralizo o debate, não entrego Justiça de verdade; reduzo a um gênero, a uma classe. O Brasil é plurirracial e múltiplo. Recortando para as mulheres: fomos um país colonizado; a Europa trouxe um modelo de Estado que anulava as mulheres, inclusive na lei.
Hoje temos leis dizendo que homens e mulheres são iguais, mas por séculos tivemos outra lei dizendo que mulher era objeto, posse de homem.
CLAUDIA: Pensando em tudo o que você já tem, o que ainda te move? O que sonha conquistar na carreira?
Fayda Belo: Outro dia eu refletia: o que ainda quero? Tenho realizado muitas coisas. Mas falta ampliar a voz para além da fronteira. Os temas que trago precisam ser resolvidos no mundo inteiro.
O que me move? Sou uma eterna romântica. Tenho a graça de realizar o que amo. Acordo empolgada por ser um grãozinho que ajuda a mudança, nem que seja na vida de apenas uma mulher. Amo abrir os olhos e pensar num Brasil mais justo, mais equânime, em que todo mundo faça parte. Podem achar utópico, mas é isso que me move.
CLAUDIA: Para finalizar: que conselho você daria a jovens que querem seguir no Direito, mas ainda não se veem representados no meio jurídico tradicional?
Fayda Belo: O importante não é ser a primeira — é abrir portas. Enganaram a gente dizendo até onde dava para ir. Era mentira. A gente pode, vai e deve ocupar todo e qualquer espaço. Como disse Maya Angelou: “se não houver lugar à mesa, leve sua cadeirinha”.
Não deixe de ocupar um espaço porque disseram que ele não existe. Existe, e nós vamos ocupar todos, até termos, de verdade, espaços públicos e privados, e um Judiciário que represente a população.
O Prêmio CLAUDIA 2025
O Prêmio CLAUDIA chega a sua 25ª edição, celebrando mulheres que transformam o Brasil em diferentes áreas. A edição 2025 será realizada em 9 de dezembro, às 20h, no Roxy Dinner Show, Rio de Janeiro, e destaca finalistas que se tornaram referência em cultura, educação, negócios, direitos da mulher, saúde, inovação, sustentabilidade, trabalho social, influência digital e impacto do ano.
O júri desta edição reúne nomes influentes e plurais, como Zezé Motta, Maria da Penha, Luiza Helena Trajano, Ana Fontes e a jornalista Aline Midlej, além das representantes da Editora Abril: Karin Hueck (editora-chefe de CLAUDIA), Helena Galante (diretora de núcleo da Abril) e Andrea Abelleira (VP de Publishing da Editora Abril).
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