É errado se incomodar com crianças no cinema?
Crianças empolgadas em sessões de cinema geraram debate; analisamos o limite entre a diversão infantil e o respeito ao espaço alheio
Imagine o seguinte cenário: você vai ao cinema assistir a uma produção que aguardou por meses. Pipoca comprada, você se acomoda no assento, o filme começa e tudo decorre da melhor maneira, até que, justamente na cena mais importante, um grupo de crianças começa a cantar e falar ao mesmo tempo.
Algumas pessoas já devem estar pensando: “Nossa, CLAUDIA, mas são apenas crianças”, certo? Só que, para outras, não é exatamente assim.
Na última semana, viralizaram vídeos da exibição no Brasil do filme KATSEYE: Wild Hearts, que aborda os bastidores da nova fase do grupo feminino de K-pop. Nas cenas, é possível ver crianças gritando, cantando e dançando ao longo da sessão.
O momento rapidamente virou tema de debate nas plataformas, com muitas pessoas defendendo as regras básicas de uma ida ao cinema. Só que a discussão envolve muitas camadas além de certo ou errado. Vem formular esse raciocínio com a gente.
Crianças são o público do filme?
Primeiramente, vamos tratar especificamente de KATSEYE. Algumas pessoas justificaram as atitudes das crianças sob a ótica de que o grupo tem muitas fãs no público infantil e de que muitas delas aguardaram para assistir às cantoras no cinema.
Vale ressaltar que não cabe a nós dizer como pais criam seus filhos e definem quais conteúdos eles podem ou não assistir. Mas o foco das integrantes do grupo parece mirar um público um pouco mais velho, entre adolescentes e jovens adultos, visto que suas produções carregam elementos de sensualidade e composições mais maduras.
Então, a justificativa de que se tratava de uma sessão naturalmente infantil talvez não possa ser aplicada aqui, porque não estamos falando de uma animação para crianças pequenas ou de um evento pensado para participação ativa do público.
Um espaço coletivo
Mas vamos pensar de um modo um pouco mais geral. Não dá para dizer que quem se incomoda está completamente errado, porque, quando uma pessoa vai ao cinema, ela espera assistir ao filme em um ambiente em que algumas regras são quase universais: silêncio ao longo das cenas, celulares guardados, nada de luzes atrapalhando a tela e respeito ao espaço do outro.
Então, ela está no direito de não se sentir confortável com esse tipo de situação. Afinal, pagar por uma experiência e não conseguir aproveitá-la porque um grupo decidiu transformar a sessão em show particular é, sim, frustrante.
Mas também é complicado levar tudo a ferro e fogo. Se o filme é claramente dedicado ao público infantil, é natural que haja um número maior de crianças na sala. Elas podem rir alto, fazer comentários ou reagir de forma mais espontânea. Claro que os pais devem conter exageros, mas não dá para esperar silêncio absoluto nesse contexto.
Ou então pensemos em um filme para o público adulto em que uma pessoa esteja com um bebê de colo. Não seria justo pedir que uma mãe, provavelmente sem rede de apoio para deixar a criança, não possa aproveitar um breve momento apenas por implicância com ruídos ocasionais.
“São apenas crianças” não pode ser salvo-conduto
A questão não é a presença infantil em espaços públicos, mas a ideia de que qualquer incômodo causado por ela deve ser aceito sem questionamento. Nas redes sociais, muitos pais se acostumaram a acreditar que crianças podem quase tudo por causa da idade, e que os demais, alheios à criação, precisam aceitar sem se opor. Afinal, “são apenas crianças”.
Mas a infância não deveria ser usada como salvo-conduto para ignorar regras mínimas de convivência. Crianças estão aprendendo a viver em sociedade e, exatamente por isso, precisam ser orientadas sobre como se comportar em cada ambiente. No cinema, isso significa entender que cantar, gritar, correr ou falar alto durante a sessão pode atrapalhar outras pessoas. E cabe aos pais ou responsáveis reconhecer que são parte fundamental desse processo, entendendo que limites básicos são apenas uma forma de prepara-las para circular pelo mundo.
Hoje, qualquer crítica ao comportamento infantil em locais públicos costuma ser rapidamente lida como ódio a crianças. E nem sempre é esse o caso. Existe, sim, uma parcela de adultos que parece se irritar simplesmente com a presença delas em qualquer ambiente. Mas também há situações em que o incômodo é legítimo. Questionar gritaria em uma sessão de cinema, bagunça em um restaurante ou correria em locais inadequados não significa defender uma sociedade sem crianças, mas lembrar que toda convivência exige algum nível de cuidado.
A falta de mediação adulta
Criança se empolga e testa limites, ainda mais diante de algo que admira. Isso faz parte. O ponto é o que os responsáveis fazem quando percebem que aquela empolgação está invadindo a experiência dos outros.
Elas não nascem sabendo como se comportar, mas aprendem. E, para isso, precisam de adultos que não tratem qualquer limite como trauma, reclamação como perseguição e regra de convivência como ataque à infância. Ensiná-las a respeitar esse limite não tira dela o direito de aproveitar o momento. Apenas mostra que a diversão dela não precisa custar a experiência de todos ao redor.
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