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Zika: tire todas as suas dúvidas sobre a doença

Associada à explosão de casos de microcefalia em bebês, a infecção pelo vírus também oferece riscos a adultos e crianças

Por Cristina Nabuco (colaboradora) Atualizado em 28 out 2016, 14h38 - Publicado em 17 jan 2016, 14h00

Quando foram comprovados os primeiros casos de infecção pelo vírus zika no país, em maio passado, o então ministro da Saúde, Arthur Chioro, chegou a dizer que a questão não era preocupante. Entretanto, até novembro, a situação havia saído do controle. Já eram duas mortes confirmadas e mais de 130 casos de microcefalia em decorrência do vírus, em quatro estados, além de 2 165 sob suspeita. “O Brasil está diante de uma tragédia de saúde pública”, lamenta o neurologista Marcelo Masruha, presidente da Sociedade Brasileira de Neurologia Infantil. E prepare-se: a epidemia deve ganhar ainda mais força nos próximos meses, segundo o virologista Maurício Lacerda Nogueira, professor da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (SP). “A transmissão é feita pelo mesmo mosquito da dengue, e o período de maior incidência dessa doença vai justamente de março a maio”, explica. Para se proteger, esclareça suas dúvidas sobre o assunto.
 
Como se transmite o vírus? 

A principal via é a picada do mosquito Aedes aegypti, o mesmo que provoca a dengue e o chikungunya. Ao entrar em contato com o humano contaminado, ele se infecta e depois passa o vírus para outras pessoas. O zika também já foi achado em sêmen e saliva; portanto, há a possibilidade de transmissão sexual.

Onde surgiu? 

O registro inicial é de 1947, quando foi descoberto em macacos da floresta de Zika, na Uganda. O primeiro caso em humano data de 1964, mas a grande epidemia só ocorreu em 2007, na Ilha de Yap, na Micronésia. A segunda, na Polinésia Francesa, teve 18 mil casos notificados entre 2013 e 2014. No Brasil, foi detectado na Bahia e em Natal em maio passado. Suspeita-se que tenha chegado ao país durante a Copa do Mundo de 2014.

Quais são os sintomas? 

Em mais de 80% dos casos, a infecção é assintomática; nos 20% restantes, produz sintomas semelhantes aos da dengue, porém menos agressivos. “Não sabemos se essa porcentagem vale para as gestantes”, esclarece a infectologista Nancy Bellei, do Comitê de Virologia da Sociedade Brasileira de Infectologia. Os doentes têm manchas vermelhas pelo corpo (que coçam muito), febre baixa (no máximo 38ºC), vermelhidão nos olhos e dor de cabeça. A dengue provoca febre mais alta (acima de 39oC) e intensa dor no corpo. Além disso, entre o terceiro e o quinto dia, ela pode evoluir para hemorragias graves e até fatais, perigo que não se observa com o zika.

Em que o zika difere do chikungunya? 

No caso da segunda, a febre é mais alta (em torno de 38,5ºC). Além disso, de dois a três dias depois, aparece o sintoma mais característico: dor e inchaço nas articulações, em especial nas mãos, nos pés e nos joelhos. “É tão intensa que a pessoa nem consegue se levantar da cama”, informa Nancy Bellei. Não costuma haver complicações.

É fácil distinguir as três? 

Não, as diferenças são sutis. “A maioria dos doentes chega ao médico se queixando de sintomas presentes nas três. Às vezes nem os profissionais conseguem definir o diagnóstico. Portanto, a orientação é tratar como dengue, que é a mais perigosa e pode matar”, diz Maurício Nogueira. O uso de aspirina está desaconselhado nos três casos.

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Exames resolvem a charada? 

Não existem testes simples e eficientes para comprovar o zika. Exames de biologia molecular detectam o material genético desse vírus e do chikungunya, mas são caros e pouco disponíveis.

O que fazer na suspeita de zika? 

O mesmo que ao desconfiar de dengue ou chikungunya: Ir a um serviço de saúde, passar por avaliação médica e fazer um hemograma para checar a coagulação e a concentração do sangue. Conforme o resultado, a pessoa fica internada ou recebe soro e é dispensada. Se estiver no grupo de risco para dengue hemorrágica (grávidas, idosos, menores de 2 anos e portadores de doenças crônicas), já realiza o teste da doença (o rápido, que em minutos identifica uma proteína do vírus; ou o mais difundido, que localiza anticorpos contra ele, cinco dias após o início dos sintomas). Só depois, se houver indicação, faz o exame para o zika.

Como é o tratamento?

“Os médicos receitam paracetamol contra dor e DIPIRONA para febre. A pessoa deve beber de 3 a 5 litros de água por dia e fazer repouso”, explica Nancy Bellei. Entre 48 e 72 horas depois da primeira consulta, é aconselhável repetir o exame. Se o quadro se agravar, com sangramento, vômito, dor abdominal, queda de pressão, tontura e sonolência, vá ao hospital imediatamente.

O zika deixa sequelas exclusivamente em bebês? 

Não. Também foram registrados casos da síndrome de Guillain-Barré em alguns pacientes. Rara, a doença, autoimune, ataca os nervos, que se inflamam, prejudicando a comunicação com os músculos a ponto de causar paralisia. Ela atinge sobretudo adultos e, na maioria dos casos, é tratável e reversível.

Quais os riscos de uma gestante infectada com o zika ter um bebê com microcefalia? 

Não se sabe, pois esta é a primeira vez que se estabelece a relação entre esse vírus e o nascimento de crianças com a circunferência da cabeça menor do que 32 centímetros – indício de que o cérebro não se desenvolveu corretamente. Não está comprovado se outros fatores complicam o quadro e se a criança exposta, mesmo que não tenha microcefalia, está sujeita a outros déficits, como de visão, audição e aprendizagem. Diante das incertezas, autoridades de saúde estão sugerindo às mulheres que adiem a gravidez. “O que sabemos é que, quanto mais precoce a infecção, maior o risco de malformações do cérebro”, explica o neurologista Masruha. Bebês com microcefalia em geral sobrevivem, mas com sequelas que fazem com que precisem desde cedo de estimulação feita por fisioterapeutas, fonoaudiólogos e terapeutas ocupacionais.

Como se proteger?

  1. Combater os focos de água parada, como vasos de flores, pneus e garrafas, onde o mosquito procria.
  2. Colocar telas nas janelas.
  3. Refrigerar o ambiente com ar-condicionado, que inibe o mosquito.
  4. Usar repelentes à base de icaridina, DEET ou IR 3535, seguros inclusive para gestantes. Aplique versões infantis em crianças de 2 a 12 anos. Entre 6 meses e 2 anos o único ativo indicado é o IR 3535. Antes dessa idade, os produtos são proibidos. Vista o bebê com mangas longas e calças; use mosquiteiros no berço e no carrinho. Repelentes naturais não têm eficácia comprovada.
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