Saúde da mulher: o cuidado começa no dia a dia
Especialistas do A.C.Camargo Cancer Center mostram como hábitos saudáveis e acompanhamento médico contribuem para a saúde e a prevenção ao longo da vida
Cada mulher conhece seu corpo de uma forma única. Ainda assim, entre a rotina corrida e tantas cobranças sobre a aparência, nem sempre sobra tempo para cuidar dele com a mesma atenção. A boa notícia é que boa parte desse cuidado está nas escolhas do dia a dia. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), entre 30% e 50% dos casos de câncer podem ser evitados com a redução dos fatores de risco e com estratégias de prevenção já conhecidas.¹
Pequenas escolhas, grande proteção
Mudar hábitos não precisa ser algo radical. Incluir caminhadas na rotina, dar preferência a alimentos frescos e evitar o consumo de álcool já são passos que contam. O álcool, por exemplo, está ligado a diferentes tipos de tumor: no mundo, um em cada 20 casos de câncer de mama é atribuído ao consumo de bebidas alcoólicas.¹ • Mexa-se: inclua atividade física na sua rotina. Ideal são 2h30 por semana;
• Prato equilibrado: priorize alimentos frescos e evite os ultraprocessados;
• Menos álcool, nada de cigarro: os dois estão entre os principais fatores de risco evitáveis;
• Vacina em dia: confira se a vacinação está em dia. A vacina de HPV evita o câncer de colo de útero e é ministrada gratuitamente no SUS;
• Consultas de rotina: mantenha o acompanhamento ginecológico e os exames indicados para a sua idade;
• Atenção ao corpo: mudanças que persistem merecem avaliação.
Atenção aos sinais do corpo
“Percebo com muita frequência que as mulheres não têm tempo para olhar para si mesmas. Prestam atenção ao rosto, ao peso, à roupa que vão vestir, mas nem sempre observam as próprias mamas, por exemplo”, relata a mastologista Fabiana Makdissi, líder do Centro de Referência em Tumores da Mama do A.C.Camargo Cancer Center.

Conhecer as próprias mamas significa estar familiarizada com seu formato, a textura da pele e a aparência dos mamilos, além de reconhecer as variações do ciclo menstrual.² “Nos dias anteriores à menstruação é comum haver inchaço e sensibilidade. Depois, as mamas geralmente ficam menos tensas e doloridas”, explica a médica. Com esse olhar, fica mais fácil perceber quando algo muda, como um nódulo ou alterações na pele e no mamilo, e procurar orientação médica.³
Exames em dia
Esse cuidado com o próprio corpo, porém, não substitui o acompanhamento médico. Para as mamas, a Sociedade Brasileira de Mastologia recomenda a mamografia anual a partir dos 40 anos,⁴ e o SUS garante o exame nessa faixa etária por decisão conjunta com o profissional de saúde.⁵ Quem tem casos de câncer de mama ou de ovário na família deve conversar com o médico sobre a necessidade de começar antes.
Apesar da importância do rastreamento, uma parcela expressiva das brasileiras desconhece as formas de prevenção ao câncer de mama. Uma pesquisa realizada em 2026 pelo A.C.Camargo Cancer Center, em parceria com o Instituto de Pesquisa Nexus, ouviu 1.038 mulheres de diferentes regiões do país e revelou que 29% não conheciam essas formas de prevenção. Na edição anterior da mesma pesquisa, conduzida em 2024, o percentual era de 25%.⁶
Entre as entrevistadas que conheciam as formas de prevenção, 65% já haviam feito mamografia. No grupo que as desconhecia, apenas 35% tinham realizado o exame.⁶ Ou seja, informação também é prevenção.
Além da falta de conhecimento, o medo da dor durante a mamografia, a desinformação nas redes sociais e as dificuldades de acesso aos serviços de saúde ainda afastam muitas mulheres do rastreamento.²
O que revelam os dados sobre o câncer de mama
Entre 2000 e 2024, o A.C.Camargo registrou 15.950 casos da doença. Desse total, 42% ocorreram em pacientes com menos de 50 anos, e 81% foram identificados nos estágios in situ, I ou II, considerados iniciais. No estágio in situ, as células cancerosas ficam restritas à mama e não causam metástase.
Os registros também mostram um aumento na sobrevida das pacientes com carcinoma invasivo de tipo não especial, o tipo mais frequente de câncer de mama invasivo. A proporção de sobrevida global em cinco anos após o diagnóstico aumentou de 83%, entre 2000 e 2004, para 90%, no período de 2015 a 2019.⁷
Os avanços no diagnóstico e no tratamento, aliados à estrutura especializada do A.C.Camargo, contribuíram para esses resultados. Dra. Fabiana ressalta, porém, que os indicadores se referem às pacientes atendidas pela instituição e não representam a realidade brasileira como um todo.
Com mais de 70 anos de atuação em oncologia, o A.C.Camargo Cancer Center reúne assistência, ensino e pesquisa. Seus 13 Centros de Referência são dedicados a diferentes tipos de câncer, com equipes de várias especialidades que discutem cada caso para definir o tratamento mais adequado. O atendimento pode incluir recursos como cirurgia robótica e medicina de precisão, além de acompanhamento que abrange prevenção, diagnóstico, tratamento e reabilitação, incluindo cuidados paliativos, quando necessários.
O A.C.Camargo também desenvolve nove estudos clínicos sobre câncer de mama, voltados à investigação de novas possibilidades de tratamento.
A saúde feminina não se limita às mamas
Entre os principais cânceres ginecológicos estão os de colo do útero, endométrio e ovário. Embora tenham características e fatores de risco diferentes, todos reforçam a importância da prevenção, do acompanhamento ginecológico e da atenção aos sinais que o corpo apresenta. Reconhecer possíveis sintomas e procurar avaliação médica quando necessário pode contribuir para o diagnóstico oportuno e o início do tratamento.⁸
No câncer de colo do útero, a prevenção começa com a vacinação contra o HPV e o rastreamento regular. A doença está associada à infecção persistente por tipos de alto risco do papilomavírus humano (HPV), um vírus transmitido principalmente por contato sexual. No Brasil, a vacina contra o HPV é oferecida gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS) para meninas e meninos de 9 a 14 anos. Também existem estratégias de resgate vacinal voltadas a adolescentes de 15 a 19 anos que ainda não foram imunizados.⁹
O rastreamento também vem passando por mudanças importantes. Além do exame de Papanicolau, que identifica alterações nas células do colo do útero, o teste molecular de DNA do HPV permite detectar a presença de tipos do vírus associados ao desenvolvimento da doença. Por apresentar maior sensibilidade para identificar infecções de alto risco, esse método pode ajudar a reconhecer precocemente as mulheres que precisam de acompanhamento.
No Brasil, o rastreamento é indicado para mulheres de 25 a 64 anos que já tiveram atividade sexual. O teste de DNA do HPV está em processo de implantação progressiva na rede pública de saúde, com expansão gradual para diferentes regiões do país. Quando o resultado deste é negativo, o intervalo recomendado até o próximo exame pode chegar a cinco anos. Se o teste for positivo, a conduta dependerá do tipo de HPV identificado e dos demais achados, podendo incluir exames complementares, como o Papanicolau e a colposcopia. A necessidade e a frequência do acompanhamento devem seguir as diretrizes clínicas e a orientação do profissional de saúde.¹⁰
Já os cânceres de endométrio e ovário não contam com métodos de rastreamento eficazes recomendados para mulheres sem sintomas. Por isso, conhecer os sinais de alerta e buscar avaliação médica diante de alterações persistentes é especialmente importante.
O câncer de endométrio, que se desenvolve no revestimento interno do útero, tem como principal sinal de alerta o sangramento vaginal anormal, sobretudo após a menopausa. Mulheres na pré-menopausa ou na perimenopausa também devem investigar sangramentos persistentes ou diferentes do habitual. Entre os fatores de risco, a obesidade merece destaque, pois o excesso de gordura corporal está associado a alterações hormonais que favorecem o desenvolvimento desse tipo de tumor. O aumento da obesidade também contribui para a preocupação com a incidência crescente da doença em diferentes faixas etárias.
O câncer de ovário, por sua vez, pode evoluir com sintomas pouco específicos, facilmente confundidos com desconfortos do dia a dia. Aumento persistente do volume abdominal, sensação frequente de inchaço, desconforto pélvico e alterações urinárias ou intestinais estão entre as manifestações que merecem atenção, especialmente quando são novas, recorrentes ou não desaparecem. Como não há um método de rastreamento comprovadamente eficaz para a população geral sem sintomas, muitos casos são identificados em fases avançadas. Cerca de 80% dos diagnósticos ocorrem nesses estágios, explica Andrea Gadelha, vice-líder do Centro de Referência em Tumores Ginecológicos do A.C.Camargo Cancer Center.
Diante desse cenário, é fundamental não normalizar sintomas persistentes. Sangramentos vaginais fora do habitual, principalmente após a menopausa, dor ou desconforto pélvico recorrente, aumento contínuo do volume abdominal e mudanças nos hábitos urinários ou intestinais devem ser avaliados por um ginecologista. Esses sinais não significam necessariamente a presença de câncer, mas precisam ser investigados para esclarecer suas causas e permitir o tratamento adequado, quando necessário.
Os hábitos de vida também fazem parte dessa equação. Uma pesquisa realizada pelo A.C.Camargo em parceria com a Nexus mostrou que 65% das mulheres entrevistadas apresentavam índice de massa corporal (IMC) acima da faixa considerada adequada: 37% tinham sobrepeso e 28%, obesidade. Além disso, 49% relataram nunca praticar atividade física.¹¹
Os dados reforçam a importância de medidas que favoreçam a saúde a longo prazo. Manter uma alimentação equilibrada, praticar atividade física regularmente, controle do peso, evitar o tabagismo e não consumir bebidas alcoólicas são atitudes que contribuem para a saúde geral e podem reduzir o risco de diversos tipos de câncer. No caso do câncer de endométrio, em particular, o controle do peso merece atenção devido à sua associação com o desenvolvimento da doença.
Dra. Andrea ressalta ainda que dores, desconfortos pélvicos persistentes e outros sintomas que comprometem a qualidade de vida não devem ser considerados inevitáveis, mesmo durante a perimenopausa e a pós menopausa. Embora nem sempre indiquem uma doença grave, essas manifestações merecem avaliação médica.
“Precisamos deixar de normalizar determinados desconfortos. Nem tudo o que acontece durante o ciclo menstrual ou nas diferentes fases da vida da mulher deve ser aceito como algo inevitável e não passível de avaliação e controle”, conclui.
Referências
- WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Preventing cancer. Disponível em: https://www.who.int/activities/preventing-cancer. Acessado em: 30 out. 2026.
- INSTITUTO NACIONAL DE CÂNCER (INCA). Detecção precoce do câncer de mama. Ministério da Saúde. Disponível em: https://www.gov.br/inca/pt-br/assuntos/gestor-e-profissional-de-saude/controle-do-cancer-de-mama/acoes/deteccao-precoce. Acessado em: 21 out. 2026.
- INSTITUTO NACIONAL DE CÂNCER (INCA). Câncer de mama: sinais e sintomas. Ministério da Saúde. Disponível em: https://www.gov.br/inca/pt-br/assuntos/cancer/tipos/mama/versao-para-profissionais-de-saude/sinais-e-sintomas. Acessado em: 21 out. 2026.
- SOCIEDADE BRASILEIRA DE MASTOLOGIA (SBM). Nota de esclarecimento: recomendações da mamografia. 2024. Disponível em: https://sbmastologia.com.br/para-o-medico/nota-de-esclarecimento-recomendacoes-da-mamografia/. Acessado em: 21 out. 2026.
- MINISTÉRIO DA SAÚDE. Nota Técnica nº 626/2025-CGCAN/DECAN/SAES/MS, de 26 de setembro de 2025. Uniformiza as informações relacionadas ao acesso ao exame de mamografia no âmbito do SUS. Ver também: INSTITUTO NACIONAL DE CÂNCER (INCA). Informações para acesso à mamografia no SUS são objeto de nota técnica. Informe INCA, out. 2025. Disponível em: https://ninho.inca.gov.br/jspui/bitstream/123456789/17839/1/Informa%c3%a7%c3%b5es%20para%20acesso%20%c3%a0%20mamografia%20no%20SUS%20s%c3%a3o%20objeto%20de%20nota%20t%c3%a9cnica.pdf. Acessado em: 30 out. 2026.
- A.C.CAMARGO CANCER CENTER; NEXUS. Aumenta o número de mulheres que desconhecem as formas de prevenção ao câncer de mama, aponta levantamento do A.C.Camargo com a Nexus. 2026. Disponível em: https://accamargo.org.br/sobre-o-cancer/noticias/aumenta-o-numero-de-mulheres-que-desconhecem-formas-de-prevencao-ao-cancer. Acessado em: 21 out. 2026.
- A.C.CAMARGO CANCER CENTER. Registros institucionais de câncer de mama, 2000–2024, e indicadores de sobrevida por período de diagnóstico. Disponível em: https://accamargo.org.br/pesquisa/registro-hospitalar-de-cancer. Acessado em: 21 out. 2026.
- NATIONAL CANCER INSTITUTE (NCI). Endometrial Cancer Screening (PDQ®); Ovarian, Fallopian Tube, and Primary Peritoneal Cancers Screening (PDQ®). Disponíveis em: https://www.cancer.gov/types/uterine/endometrial/screening e https://www.cancer.gov/types/ovarian/hp/ovarian-screening-pdq. Acessado em: 21 out. 2026.
- MINISTÉRIO DA SAÚDE. Jovens de 15 a 19 anos podem se vacinar contra o HPV até dezembro. 2026. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias-ms/2026/julho/jovens-de-15-a-19-anos-podem-se-vacinar-contra-o-hpv-ate-dezembro. Acessado em: 21 out. 2026.
- INSTITUTO NACIONAL DE CÂNCER (INCA). Detecção precoce do câncer do colo do útero. Ministério da Saúde. Disponível em: https://www.gov.br/inca/pt-br/assuntos/gestor-e-profissional-de-saude/controle-do-cancer-do-colo-do-utero/acoes/deteccao-precoce. Acessado em: 21 out. 2026.
- A.C.CAMARGO CANCER CENTER; NEXUS. Setembro em Flor: hábitos de saúde entram na conversa sobre prevenção dos tumores ginecológicos. 2026. Disponível em: https://accamargo.org.br/sobre-o-cancer/noticias/setembro-em-flor-habitos-de-saude-entram-na-conversa-sobre-prevencao-dos. Acessado em: 21 out. 2026.






