Quando o tumor tem nome e sobrenome: informação que acolhe e orienta
Conhecer o subtipo do câncer de mama traz clareza, ajuda nas escolhas terapêuticas e fortalece a mulher em cada etapa do cuidado
Nem todo câncer é igual. E essa frase, que parece simples, ganha um significado enorme quando falamos de câncer de mama: cada tumor tem um “nome e sobrenome”¹. Ele carrega características próprias, como tamanho, localização, presença de proteínas específicas e sensibilidade a hormônios que influenciam decisões importantes ao longo da trajetória de cuidado.¹, 2
“Ao dizer que o tumor tem ‘nome e sobrenome’, estamos nos referindo às suas características biológicas que definem o seu subtipo. Esses marcadores são como o RG do tumor: mostram quem ele é e ajudam a definir a jornada de tratamento adequada para cada pessoa”¹, explica a diretora médica da MSD, dra. Márcia Datz Abadi.
Entre esses subtipos está o câncer de mama triplo negativo — assim definido pela ausência de três marcadores: receptores de estrogênio, progesterona e da proteína HER2. “Isso significa que esse subtipo não responde às terapias hormonais ou aos tratamentos anti-HER2 usados em outros subtipos, então as estratégias terapêuticas precisam ser diferentes”², detalha a especialista.
Essa particularidade orienta o tratamento por outras vias e demanda um cuidado bastante individualizado.³ O triplo negativo aparece com maior frequência em mulheres jovens4 e mulheres negras, segundo dados do Instituto Nacional do Câncer (INCA)5 — e, em alguns casos, pode se desenvolver com mais rapidez.² Mas isso não deve gerar medo — e, sim, ação.
“A evolução pode ser mais rápida, mas isso não precisa ser um motivo de pânico. Significa apenas que precisamos ser ágeis: diagnóstico precoce, avaliação multidisciplinar e início rápido do tratamento adequado podem aumentar muito as chances de cura e controle da doença”6, 7, reforça a médica.
Quando o cuidado começa antes da operação
Ao receber o diagnóstico, muitas mulheres imaginam que a cirurgia será o ponto de partida. No triplo negativo, porém, o tratamento pode começar por outra via, e isso é absolutamente esperado.8
“A decisão sobre a sequência do tratamento é individual. Geralmente, a cirurgia não é a melhor primeira intervenção quando o tumor é grande ou quando há sinais de doença em locais além da mama”7, 8, explica.
Por isso, em muitos casos, o cuidado pode começar com terapias sistêmicas, ou seja, que atuam em todo o corpo e que reduzem o tumor, facilitam o procedimento cirúrgico, além de fornecer informações valiosas sobre o comportamento da doença.7
Esse tratamento antes da cirurgia é chamado de neoadjuvância, e tem como objetivo reduzir o tumor e assim preparar um cenário mais favorável para a operação, e fornecer informação de como o tumor responde ao tratamento sistêmico.9 “Em termos simples, essa fase do tratamento busca ‘encolher’ o tumor antes do procedimento. Isso pode ajudar a preservar a mama e aumentar a chance de remover toda a lesão”9, detalha a especialista.
No triplo negativo, especialmente nos estágios iniciais, a combinação de medicamentos nessa fase tem mostrado resultados promissores.6
O cuidado que continua depois da cirurgia
Mesmo após a remoção do tumor, o tratamento pode seguir com uma etapa complementar para reduzir o risco da sua volta.1, 10
“Trata-se da adjuvância, um cuidado que vem depois da cirurgia, pensado para eliminar possíveis células residuais”1, 10, esclarece.
As opções variam — quimioterapia, radioterapia, imunoterapia ou outras terapias sistêmicas7, 11 — e são definidas a partir do subtipo, das características do tumor, da resposta ao tratamento prévio e da avaliação da equipe multidisciplinar.7
A imunoterapia
A imunoterapia tem se mostrado uma inovação promissora no tratamento do câncer de mama triplo negativo, um subtipo com opções terapêuticas historicamente limitadas. Ao estimular o próprio sistema imunológico a reconhecer e atacar células tumorais, a imunoterapia vem ampliando as alternativas para pacientes com doença avançada ou inicial de alto risco, especialmente quando combinada com quimioterapia nos cenários apropriados.12 Dados clínicos recentes indicaram que, quando aplicada ao perfil de paciente correto, a adição de imunoterapia pode aumentar a resposta ao tratamento.12
Quando as terapias se somam, os resultados se fortalecem
Em muitos casos, a estratégia mais eficaz envolve integrar diferentes abordagens terapêuticas.10
“Tratamentos combinados funcionam como um time em que cada jogador tem uma função distinta. Um medicamento enfraquece as células tumorais, outro ativa o sistema imune, outro ataca uma vulnerabilidade específica do tumor. Somando forças, aumentamos a chance de resposta e reduzimos a probabilidade de que a doença volte”10, afirma a diretora médica.
Essa abordagem integrada reflete o que há de mais atual no cuidado oncológico: personalização, precisão e acompanhamento contínuo.10
Informação é cuidado — e cuidado é acolhimento
Entender o “nome e sobrenome” do tumor não é apenas um detalhe técnico. É um gesto que transforma medo em clareza — e, com o tempo, clareza em coragem. Quando a mulher compreende seu subtipo e as etapas do tratamento, ela passa a participar ativamente das escolhas que envolvem sua própria saúde10.
“O subtipo do tumor, o estágio e as condições clínicas orientam o melhor caminho terapêutico. Nosso papel é explicar opções, riscos e benefícios e construir, junto com cada mulher, um plano individualizado que una eficácia, segurança e qualidade de vida”10, diz Marcia Abadi.
Em um cenário em que cada detalhe conta, a informação acolhe, orienta e fortalece. Porque cada corpo é único. Cada trajetória também. E toda mulher merece ser acompanhada com verdade, leveza e esperança.
“Entender o ‘nome e sobrenome’ do meu tumor mudou todo o caminho.”
Michele Araújo, bióloga, 37 anos
“Percebi um nódulo em novembro de 2019 e procurei atendimento. A biópsia logo confirmou o câncer de mama e, nos exames seguintes, descobri seu ‘sobrenome’: o triplo negativo. Mesmo sendo bióloga, naquele momento eu não era a profissional; era só uma paciente, assustada e tentando entender tudo.”
A partir dessa identificação, cada etapa ganhou sentido.“Saber o subtipo foi decisivo. Ele orientou completamente a conduta e definiu por onde começar. No meu caso, a equipe optou pela neoadjuvância: 16 sessões de quimioterapia antes da operação. O tumor diminuiu, mas não teve resposta completa — e isso guiou os passos seguintes.”
Vieram a cirurgia, a quimioterapia oral e a radioterapia. Depois, um novo cuidado se fez necessário.“Por insistência minha, adiantei alguns exames e descobri dois linfonodos alterados na região do mediastino (parte central do tórax, entre os dois pulmões). A biópsia confirmou uma recidiva — ainda triplo negativo. Mais uma vez, saber o subtipo foi fundamental para definir o tratamento. Fiz uma cirurgia por vídeo, novos ciclos de quimioterapia e iniciei a imunoterapia, que segui até 2024.”
Hoje, Michele celebra um marco que parecia distante: está sem sinais da doença desde agosto de 2021 — e vive uma nova fase. “Em 2024, descobri que estava grávida. Depois de tanta incerteza, gerar a Lara foi um presente inesperado. Existe muita vida durante o câncer — e muita vida depois dele.”
Referências:
- OMS. Breast Cancer. Disponível em: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/breast-cancer. Acesso em: 18 dez 2025.
- NIH National Cancer Institute. Tests for Breast Cancer Biomarkers. Disponível em: https://www.cancer.gov/types/breast/diagnosis/breast-cancer-biomarker-tests. Acesso em: 18 dez 2025.
- Abuhadra N, Stecklein S, Sharma P, Moulder S. Early-stage Triple-negative Breast Cancer: Time to Optimize Personalized Strategies. The Oncologist, v. 27, n. 1, p. 30–39, 2022.
- Drapalik LM, Estes A, Sarode AL, et al. Age disparities in triple-negative breast cancer treatment and outcomes: An NCDB analysis. Surgery, v. 172, n. 3, p. 821–830, 2022.
- INCA. Estudo coordenado pelo INCA investiga por que há mais casos de câncer de mama agressivo na população negra. Disponível em: https://www.gov.br/inca/pt-br/assuntos/noticias/2024/inca-investiga-por-que-ha-mais-casos-de-cancer-de-mama-agressivo-nas-brasileiras-negras. Acesso em: 18 dez 2025.
- Jie H, Ma W, Huang C. Diagnosis, Prognosis, and Treatment of Triple-Negative Breast Cancer: A Review. Breast Cancer (Dove Medical Press), v. 17, p. 265–274, 2025.
- INCA. Tratamento. Disponível em: https://www.gov.br/inca/pt-br/assuntos/gestor-e-profissional-de-saude/controle-do-cancer-de-mama/acoes/tratamento. Acesso em: 18 dez 2025.
- NIH National Cancer Institute. Triple-Negative Breast Cancer Treatment. Disponível em: https://www.cancer.gov/types/breast/treatment/triple-negative-breast-cancer. Acesso em: 18 dez 2025.
- Costa MADL da, Chagas SRP. Quimioterapia Neoadjuvante no Câncer de Mama Operável: Revisão da Literatura. Revista Brasileira de Cancerologia, v. 59, n. 2, p. 261–269, 2013.
- Fabi A, Rossi A, Mocini E, et al. An Integrated Care Approach to Improve Well-Being in Breast Cancer Patients. Current Oncology Reports, v. 26, n. 4, p. 346–358, 2024.
- Li Y, Zhang H, Merkher Y, et al. Recent advances in therapeutic strategies for triple-negative breast cancer. Journal of Hematology & Oncology, v. 15, n. 1, p. 121, 2022.
- Cortés J, Rugo HS, Cescon DW, et al. Pembrolizumab plus Chemotherapy in Advanced Triple-Negative Breast Cancer. New England Journal of Medicine, v. 387, n. 3, p. 217–226, 2022.





