Clique e assine Claudia a partir de R$ 8,90/mês

Projetos que doam absorventes a mulheres vulneráveis crescem no Brasil

O uso de sacos plásticos, miolo de pão e pedaços de pão aumenta o risco de infecções. As mulheres dependem da ajuda de coletivos feministas

Por Colaboraram: Maria Clara Serpa e Gabriela Maraccini - Atualizado em 14 jul 2020, 10h43 - Publicado em 8 Maio 2020, 18h58

Um único absorvente custa em torno de 50 centavos. Longe de ser o artigo de higiene mais caro, ainda assim é um artigo de luxo para uma parcela das mulheres no mundo. No Brasil, mais da metade de população é de mulheres e parte delas, as que vivem em situação de rua ou fazem parte das classes mais baixas, muitas vezes tem que recorrer a qualquer outro material para fazer as vezes de absorvente. Há relatos do uso de sacolas plásticas, pedaços de papelão e até miolo de pão para conter o sangramento. Isso é um risco enorme, pois pode levar a infecções. Segundo uma pesquisa da marca Sempre Livre com mais de 9 mil participantes, 19% das mulheres entre 18 e 25 anos não tem acesso aos produtos por não terem dinheiro.

Mesmo sendo de extrema necessidade para a maioria das mulheres e alguns homens trans, a distribuição dos artigos de higiene menstrual não foi uma preocupação dos governos por muito tempo. Nos últimos anos, com o aumento de dados e de mulheres reivindicando o fim da pobreza menstrual – termo criado na Franca que se refere à falta de acesso aos produtos de higiene no período –, o debate finalmente despertou entre políticos brasileiros. Em junho de 2019, um projeto de lei de autoria do Leonel Brizola Neto (PSOL) foi aprovado no município do Rio de Janeiro e prevê que absorventes estejam disponíveis para alunas da rede municipal em máquinas nos banheiros das escolas. O projeto é de extrema importância, porque muitas meninas perdem dias de aula por não terem os artigos de higiene e ficam impossibilitadas de sair de casa. Ainda assim, isso é muito pouco.

Alguns países, como Quênia, Índia, Malásia, Austrália, Canadá e alguns estados dos EUA já conseguiram garantir a isenção de impostos sobre o produto. Mas no Brasil um único absorvente tem taxação média de mais ou menos 35% sobre seu preço, segundo dados do Impostômetro. Enquanto nada é feito por aqui, meninas e mulheres buscam ajudar como podem. As estudantes Talita Soares, 21 anos, e Carol Chiarello, 24, perceberam em uma conversa quão privilegiadas são por poderem escolher o tipo de absorvente que preferem e terem acesso a eles. Criaram o projeto Tô de Chico, que faz doações mensais de absorventes para mulheres em situação de rua no Rio de Janeiro e Niterói desde o início de 2019.

View this post on Instagram

JÁ ARRECADAMOS 25 PACOTES E 386 ABSORVENTES!!! Estamos muito felizes! 🙌🏻🤩 Graças a vocês conseguimos colocar o projeto no papel, mas ainda não acabamos! Temos até o DIA 12/01/2019 para batermos nossa META DE 100 PACOTES!! Vem com a gente? ❤️ Gostou do projeto? Quer ajudar? Manda uma mensagem pra nós! Carolina: (21)98273-0354 Talita: (21)99377-9837

A post shared by Tô de Chico (@eutodechico) on

Continua após a publicidade

Para doar, basta entrar em contato com elas e combinar um ponto de encontro. Todos os tipos de absorvente, de qualquer marca, são bem-vindos. Logo após as primeiras doações, elas perceberam que algumas das mulheres sequer tinham calcinhas e então de nada adiantaria ter acesso ao artigo de higiene. Por isso, passaram a arrecadar também calcinhas e sutiãs. Atualmente, como vivem com pessoas dos grupos de risco, não estão podendo dar continuidade nas doações, mas pretendem voltar logo após o fim da pandemia.

Em Recife, o Por Todas Recife, criado pela estudante Millena da Silva no início de 2019, tem uma proposta parecida. O grupo começou com 10 amigas que tiveram a ideia de coletar itens de higiene para ajudar mulheres que vivem nas ruas e em presídios. Elas montam kits com absorventes, calcinhas e sabonetes e distribuem pela cidade.

View this post on Instagram

A quantidade de absorventes que foram doados no começo do ano 😍 Tudo isso foi possível por conta de vocês que disponibilizaram tempo e dinheiro para comprar e doar os absorventes. Muito obrigada a todas.

A post shared by Por Todas Recife (@portodasrecife) on

Continua após a publicidade

A situação se agravou ainda mais com o início da pandemia do novo coronavírus. As doações se tornaram menos frequentes e as mulheres passam por dificuldades. O coletivo Nós Mulheres, de São Paulo, que faz campanhas anuais de arrecadação de produtos de higiene feminina para detentas tinha pausado seus trabalhos durante o período, mas, resolveu voltar devido à gravidade da situação.

Continua após a publicidade

No início dessa semana, as organizadoras receberam informações de que o cenário piorou nos presídios, já que são poucas as visitas nesse período e as mulheres que recebiam absorventes da família não têm acesso ao produto atualmente. Por isso, retomaram sua vaquinha, que ficará aberta até domingo (10), para conseguir ajudar ainda na quarentena.

Em condições normais, além da arrecadação de dinheiro, o grupo trabalha com vários pontos de doação físicos em toda a cidade. A distribuição é feita pela Pastoral Carcerária de Santana, uma instituição religiosa que tem autorização para entrar nos presídios.

View this post on Instagram

AJUDEM COMO PUDEREM! 😔🙏🏽 Todo o dinheiro da nossa vakinha online será retirado no final dessa semana (10/05) para compra de produtos de higiene básica.

A post shared by NÓS Mulheres (@_nosmulheres) on

Continua após a publicidade

Com o mesmo objetivo de ajudar mulheres em situação de cárcere, o coletivo Narcisa Amália (@coletivo.narcisaamalia), do curso de Jornalismo da PUC-SP, iniciou, em maio, uma campanha para arrecadar dinheiro para compra de absorventes para detentas do Presídio do Carandirú, em São Paulo.

Continua após a publicidade

“O Estado não fomenta nenhum tipo de item básico de higiene dentro das penitenciárias, o que faz com que as famílias dos presos tenham que custear isso. Entre as mulheres, a situação é ainda mais delicada, já que possuem uma adesão de visitas baixíssima se comparada à dos homens”, argumenta o coletivo em uma publicação no Instagram. “Essa realidade brutal pode ser vista como o abandono ao qual todas nós estamos vulneráveis, pois somos socialmente construídas para sermos obedientes e não para infringirmos regras, isso é inadmissível dentro dessa estrutura patriarcal em que estamos inseridas.”

Para contribuir com a campanha, basta doar qualquer quantia pela Benfeitoria, site de vaquinha online.

View this post on Instagram

Olá pessoal, estamos passando para avisar que agora temos um novo método de doação, através da vaquinha on-line no site da Benfeitoria, que aceita diversos tipos de pagamento. Sentimos que existia uma questão em arrecadacar o dinheiro somente através da conta bancária, porque para muitas pessoas, outros meios são mais acessíveis e simples. Ainda estamos com a opção de depósito em conta para quem preferir. Ajuda a gente a divulgar? O link da vaquinha on-line estará na bio.

A post shared by Coletivo Narcisa Amália ♀ (@coletivo.narcisaamalia) on

Continua após a publicidade

Em Salvador, na Bahia, o transformador social Enderson Araújo já estava entregando cestas básicas com alimentos para famílias mais carentes por meio do Chamada Solidária, grupo que realiza ações sociais dentro da comunidade. No entanto, logo ele percebeu que material de limpeza e higiene pessoal, que normalmente ficam de fora dos itens necessários para uma cesta, também eram essenciais. Entre os itens, estavam os absorventes íntimos para mulheres que não têm condições de comprar o produto.

Continua após a publicidade

“Em uma conversa com uma amiga, tive noção de que essas mulheres têm dificuldade e vergonha de pedir o absorvente e, muitas vezes, acabam usando produtos como algodão, papel higiênico, pano para estancar a menstruação“, conta ele à CLAUDIA. “Eu fiquei com essa preocupação e pedi a algumas amigas para que compartilhassem a ideia e me ajudassem a engajar pessoas com essa causa”, relata.

Sua ação já conseguiu arrecadar 30 pacotes com 8 absorventes cada. No entanto, ele ainda precisa de mais 110 pacotes para conseguir abastecer as 70 famílias vão receber as cestas básicas na próxima sexta-feira (12).

View this post on Instagram

Hoje foi dia de entregar as cestas básicas, na rua em que morei minha infância e adolescência, antes de vir para a Sussuarana morar com minha avó, entrar e sair da Rua Maria Antonieta em Cajazeiras 11 se tornou angustiante para mim, lembro toda vez da falta de alimento várias vezes, das subidas e descidas para fazer favor e ter um trocado para comprar algo no dia seguinte, tinha um guarda que trabalhava na Escola que estudei na infância, e que a diretora emprestou espaço hoje, que dia sim dia não ele me dava dois transportes para buscar o rango dele, eu ia andando e voltava, e ele dividia o rango comigo, eu dormia alimentado. Hoje foi foda voltar nesse lugar e doar um pouco de alimento para 70 famílias naquele lugar que eu tinha que resistir diariamente e driblar a fome, consegui driblar e ser um ser humano um tanto suficiente para ajudar outras pessoas, essas que me viram crescer e hoje eu pude ajudar como sempre sonhei, mesmo com pouco… não consigo mais escrever, tou feliz e chorando rsrs, vejam as fotos. Obrigado @alexbitencourt_, @htatai, @daaianesousa, @oxente_kynha, @laysouzaa.s, @leosouzay que me ajudaram na logística de arrumação, cadastro e distribuição. Muito obrigado a quem doou e continua doando e ajudando como pode. Obrigado a @macacogordo e a @chicok que colaram e colocaram a nossa QR Code na Live do @adelmariocoelhooficial.

A post shared by Enderson Araújo (@endersonaraujo) on

Continua após a publicidade

Com o crescimento de informações sobre essa causa, projetos do tipo são cada vez mais comuns em várias cidades do país e o debate cresce em coletivos feministas. Em março deste ano, a deputada federal Tabata Amaral (PDT-SP) apresentou um projeto de lei na Câmara que prevê a distribuição gratuita de absorventes biodegradáveis em espaços públicos.

Continua após a publicidade

“O uso de materiais inadequados como jornal, papel higiênico, miolo de pão ou tecidos e ainda a troca infrequente dos absorventes, por motivo de economia, podem trazer riscos para a saúde como infecções”, reforça o documento do projeto. Segundo Tabata, o custo seria de aproximadamente 119 milhões de reais, com foco em mulheres entre 10 e 50 anos que recebem até um salário mínimo domiciliar. O projeto de lei ainda precisa ser votado.

Em tempos de isolamento, não se cobre tanto a ser produtiva:

 

Publicidade