Mulheres mostram como o pole dance vai muito além do erotismo

Popularizada nos clubes de strip-tease, a atividade vai para os estúdios de ginástica e conquista quem procura mais vigor físico e amor-próprio

O ano era 2007. Os brasileiros acompanhavam com interesse a história de Alzira, recatada enfermeira que, à noite, fazia apresentações de danças sensuais numa boate. Foi com a inesquecível personagem de Flávia Alessandra, na novela Duas Caras, da Rede Globo, que o país inteiro conheceu a pole dance, atividade física que mescla movimentos de dança, ginástica olímpica e acrobacias em torno de um mastro (pole, em inglês).

Sua origem é incerta, mas, segundo a bailarina e socióloga Vanessa Costa, fundadora da Federação Brasileira de Pole Dance, provavelmente remonta ao mallakhamb, ginástica acrobática realizada majoritariamente por homens em postes de madeira com cordas, desde o século 12, na China e na Índia.

A conotação erotizada, no entanto, teria surgido nos anos 1920, no Ocidente, em apresentações itinerantes de circo. “Na maioria das vezes, eram suspensas duas tendas. Uma delas abrigava shows eróticos com mulheres que dançavam ao redor de um cano de ferro usado para sustentar a tenda. Mais tarde, a dança passou a ser apresentada em clubes de strip-tease nos Estados Unidos”, explica. Lastreada no pilar da volúpia, a modalidade chegou ao Brasil.

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A pole, porém, não ficou nisso. Existem diferentes linhas da prática, desde a sensual e artística até a fitness e esportiva. Cada um usufrui como quer. O que importa, diz o educador físico Rafael Melo, de São Paulo, é que a atividade aumenta a força e a flexibilidade, além de melhorar a coordenação motora e apurar a consciência corporal.

A dança também tonifica as regiões abdominal, lombar e pélvica, além de braços, ombros e escápulas. Os músculos das pernas são trabalhados em exercícios estáticos para melhor sustentação no mastro.

Em uma aula de 1 hora e meia, gastam-se cerca de 500 a 600 calorias. Tantos benefícios chamaram a atenção do público. Estão cadastradas na federação 200 escolas, espalhadas pelo Brasil, com mais de 8 mil alunos.

“O boom aconteceu há cerca de quatro anos, quando começaram os campeonatos”, conta Liliane Varanda, sócia do renomado Studio Metrópole, em São Paulo. “Existe uma procura enorme por aulas da modalidade. Mudamos para um lugar cinco vezes maior para dar conta da demanda.”

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Superação

Especialmente por acender a chama de outro tipo de força – aquela invisível, sem a qual não se vive e que pode ser chamada de autoestima ou amor-próprio –, a pole dance atrai muitas mulheres. A brasiliense Raquel Desideri, 43 anos, pratica há quatro.

“Em 2008, minha mãe teve um câncer de pele e acabou falecendo. Três dias depois, meu marido, com quem eu já vivia um relacionamento complicado, saiu de casa. Mergulhei numa depressão profunda”, lembra.

Após alguns anos de separação, ela chegou à pole levada por uma amiga. “Na primeira aula, eu não consegui subir na barra.” Não desistiu; precisava fazer algo por si mesma. “Fui percebendo que ali eu extravasava tudo, dava risadas, brincava, conversava… Além disso, o desafio de me superar a cada aula, evoluir nos movimentos, me motivava muito. É assim até hoje.”

Raquel não se considera curada da depressão; enfrenta altos e baixos. “No exercício, porém, eu me encontro, me seguro e renovo o ânimo para seguir em frente. Às vezes faço um enorme esforço para ir às aulas, mas, quando estou lá, volto a ser a pessoa que já fui”, afirma.

O resgate da autoestima está na resposta de todas as mulheres entrevistadas para esta reportagem. Elas contam que tudo no ambiente ajuda. As salas de aula são muito iluminadas, com espelhos do teto ao chão. Por se tratar de um esporte que exige aderência da pele à barra, as roupas devem ser, sim, muito justas e curtas. “Isso obriga a praticante a lidar com o próprio corpo”, opina Liliane. “Ela nota suas imperfeições, mas começa a gostar do que vê, porque os movimentos são bonitos e desafiadores. Assim, a aluna passa a ficar mais forte por dentro”, resume.

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“No exercício, eu me encontro e renovo o ânimo para seguir em frente”, comemora Raquel Desideri, 43 anos, em uma pose clássica da pole dance, batizada de Batman

“No exercício, eu me encontro e renovo o ânimo para seguir em frente”, comemora Raquel Desideri, 43 anos, em uma pose clássica da pole dance, batizada de Batman (Takeuchiss/CLAUDIA)

O preconceito

A vertente sensualizada da pole dance ainda é forte e muito procurada, embora geralmente de modo discreto, por mulheres que desejam turbinar um relacionamento, por exemplo.

“Não há problema nenhum nisso”, defende a pernambucana Alexandra Valença, uma das pioneiras no Brasil. Foi ela que ensinou a arte a Flávia Alessandra. Seduzir é importante, fazer sexo de formas criativas e envolventes também. Se a pole dance ajuda a mulher nessa área, ótimo! “Porém, no imaginário popular, fica impossível desvincular da imagem de vulgaridade”, comenta Alexandra. Por isso, as praticantes ainda sofrem preconceito.

A advogada Andrea Borges, 45 anos, de São Paulo, conta que percebe a patrulha maliciosa. “Alguns amigos fazem comentários do tipo: ‘Seu marido está se dando bem, hein?’. Isso prova a visão deturpada”, diz a adepta da pole fitness, subcategoria que foca nos exercícios de força e menos na dança. Ela não divulga suas fotos nas redes sociais.

“Mantenho contato com clientes, juízes e outros profissionais de direito. Tenho medo de que não levem meu trabalho a sério.” O marido de Andrea, no entanto, apoia e vibra com cada avanço na prática ou uma nova pose que ela aprende. A federação faz um esforço para mudar a imagem rançosa. “Já conseguimos que aceitassem a pole como um esporte, para que as escolas pudessem funcionar sem preconceitos ou julgamentos. Hoje lutamos para que ela se enquadre na categoria olímpica”, diz Vanessa.

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A advogada Andrea Borges, 45 anos, realiza uma das posições iniciais da pole dance, que promove a contração do abdome, das panturrilhas e dos quadris

A advogada Andrea Borges, 45 anos, realiza uma das posições iniciais da pole dance, que promove a contração do abdome, das panturrilhas e dos quadris (Takeuchiss/CLAUDIA)

Para todas as idades

Andrea considera que a pole é, de fato, um esporte saudável. Duas de suas quatro filhas, Manuela, 17 anos, e Sofia, 15, praticam também. “Nas aulas, aprende-se a gostar do corpo como ele é. Para uma adolescente, isso é maravilhoso”, afirma a mãe. Alunas mais velhas também embarcam na modalidade.

Vera Marques, paulista de 63 anos, começou a se dedicar há sete. “Sou ex-ginasta e sempre vivi do esporte. Conheci a pole numa época em que buscava algo desafiador e encontrei uma nova vibração para seguir amando o que eu fazia”, relata.

Vera se especializou e hoje dá aulas, apesar do preconceito. “Algumas pessoas me julgaram por começar a essa altura da vida; outras questionaram a escolha. Acho tudo isso uma grande bobagem. Tem algo melhor do que encontrar um hobby capaz de somar forças em todos os sentidos?”

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Vera Marques, 63 anos, transformou o hobby em trabalho e dá aulas de pole dance. A pose passé trabalha ombros, costas e peitoral

Vera Marques, 63 anos, transformou o hobby em trabalho e dá aulas de pole dance. A pose passé trabalha ombros, costas e peitoral (Takeuchiss/CLAUDIA)