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Racismo caricato, o caminho da piada ao genocídio de negros

O professor João Paulo Ignacio aponta como o humor torna o racismo ainda mais cruel e letal, enquanto a psicóloga Mariana Luz fala do impacto mental

Por Ana Carolina Pinheiro 7 abr 2021, 20h21

Foram necessárias mais de 72 horas para a produção da Rede Globo interferir no jogo do Big Brother Brasil 21 após um episódio de racismo, que aconteceu no dia 3 de abril.

Até quem não acompanha o reality, provavelmente se deparou com a notícia de que o cantor Rodolffo comparou o cabelo de outro participante, o professor de geografia João Luis Pedrosa, com a peruca de uma fantasia de homem das cavernas, figura que estereotipa o homem primitivo do período Paleolítico.

Ainda que nem todos os brothers tenham presenciado o episódio que oprimiu João, as câmeras registraram tudo, inclusive o desabafo que o participante fez com sua companheira de jogo, a criadora de conteúdo Camilla de Lucas.

“Fiquei muito desconfortável e não consegui dizer que não achei legal. Acho que ele nem percebeu que eu não achei legal. Foi chato, muito chato. Fiquei pensando: ‘Não sou o homem das cavernas só porque meu cabelo é desse jeito”, comentou João sobre a indumentária usada por Rodolffo e Caio no castigo do anjo.

Três dias depois, a cena foi contada pelo participante para todos os confinados durante o jogo da discórdia, dinâmica que acontece semanalmente no programa. A palavra “racismo” não tinha aparecido, até então, em nenhum momento, mas Rodolffo reagiu com a combinação mais previsível e cruel diante desse crime: negando, questionando o entendimento de João e relativizando a sua fala com elementos externos e do passado. “Já elogiei o seu estilo” e “meu pai tem o cabelo parecido com o seu” foram algumas das tentativas para justificar o injustificável.

Racismo caricato

Para o professor, psicólogo e psicanalista João Paulo Ignacio, a atitude de Rodolffo se enquadra no que ele chama de racismo caricato, que usa do humor para reduzir e desumanizar existências negras. O conceito foi trabalhado a partir de uma ideia do filósofo Frantz Fanon no livro Pele Negra, Máscaras Brancas, acerca do negro caricato e jocoso.

Segundo João, o racismo caricato está dentro do conceito de racismo recreativo, trabalhado por Adilson José Moreira, no livro que leva o mesmo nome e faz parte da coleção Feminismo Plurais.

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“É a liberdade de ser racista com a alcunha de que tudo não passa de uma piada. Com essas doses letais de humor, o racista usa elementos da cultura e da existência negra para reproduzir ataques, afirmando o domínio da branquitude. Enquanto isso, nós somos reduzidos a essas caricaturas”, pontua o mestrando em bioética e saúde coletiva pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Outro ponto que o psicanalista identifica na fala de Rodolffo é o mito da democracia racial. Ao citar que o próprio cabelo não é liso, na tentativa de se aproximar da estética de João, o participante transmite aquela velha falácia do “somos todos iguais”. “A ideia de democracia racial funciona como uma válvula de escape, assim como a desculpa de que não tem informação suficiente”, diz o psicólogo. Segundo ele, é intrigante a branquitude, responsável pela produção do racismo, negar a todo momento a existência dessa estrutura perversa.

O não reconhecimento do opressor fere ainda mais a vítima, que tende a cair no movimento de distorção do racismo. A psicóloga e escritora Mariana Luz alerta que, ainda que a pessoa negra tenha instrução racial, as agressões podem ser vistas como suas responsabilidades. “A culpa vai ser sempre do agressor, mas na dinâmica do racismo isso tende a se inverter e cair sobre nós”, considera.

Posicionamento da Globo

“João se sentiu incomodado.” Foi com essa frase que o apresentador Tiago Leifert antecedeu seu posicionamento para os participante na noite de ontem. Novamente, sem mencionar o termo racismo. Mas por que só agora a direção do programa tentou frear uma atitude ofensiva, que não foi a primeira cometida por Rodolffo no programa?

Para o psicólogo, o comentário soou como piada ou algo natural até para a produção do reality. “Quando o Rodolffo afirma que todos devem ter feito a mesma associação ao olharem bem a peruca, ele representa muita gente”, afirma João Paulo, que enxerga o programa como um experimento social bancado pelo capitalismo. “As marcas estão interessadas na pauta racial, o que gera uma pressão, assim como a que foi articulada na internet. Esse efeito rebote não me convence, há uma influência de tentar deixar tudo bem. Não faço juízo moral, mas essa demora surge após um efervescer. Se não tem repercussão, o assunto passaria batido”, sinaliza.

O impacto nas vítimas

O contexto específico do jogo, que gera expectativa do que o público espera e a preocupação em manter um convívio respeitoso dentro da casa, também ecoaram na reação de João e Camilla, acredita a escritora. O psicanalista chama atenção para a criadora de conteúdo durante o comentário de Tiago. “A reação corporal dela é de quem está em sofrimento e tem traumas, que todos nós carregamos juntos”, considera.

Ao sofrer situações de opressão, não dá para colocar o amor e perdão como a única via. “A raiva é fruto de processo de violência de séculos. De forma canalizada, esse sentimento pode apontar caminhos de transformação para nós, negros”, afirma Mariana, que também defende a importância da terapia para ressignificar essas dores.

Eliminação

Com 50,48% dos votos, Rodolffo foi eliminado do programa, mostrando o passibilidade do racismo caricato. “O crime perfeito, conceito do antropólogo Kabengele Munanga, é essa ideia de que os brancos não são responsabilizados como os negros, que, no programa, bateram recorde de rejeição nas votações. Ao fazer a comparação, Rodolffo dá passos para legitimar o caminho que o genocídio contra a população negra percorre, que é essa associação à outra espécie ou ao objeto. Isso não é só uma piada, porque pode terminar em morte”, finaliza o professor.

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