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No Paquistão, mulheres fazem manifestação contra estupros e violência

Em cinco dias, duas vítimas foram violentadas brutalmente, sendo que uma veio à óbito e outra foi estuprada na frente dos filhos

Por Da Redação - Atualizado em 11 set 2020, 20h18 - Publicado em 11 set 2020, 20h10

Em um intervalo de cinco dias, o Paquistão registrou dois casos brutais envolvendo violência contra mulher. O primeiro aconteceu no sul do país com uma menina de 5 anos, que foi estuprada, sofreu lesões graves na cabeça e por fim incendiada. Já o segundo ocorreu no leste do país com uma mulher sendo arrancada de seu carro e abusada sexualmente em uma rodovia na frente de seus filhos.

A reação da população foi proporcional à gravidade dos trágicos episódios, gerando uma onda de manifestações no país, conhecido pela cultura tóxica em torno de agressões sexuais e abuso infantil. Nas redes sociais, pessoas comuns, políticos da oposição e atletas usaram o espaço para pedir justiça às vítimas.

“Não podemos perder nossa juventude para atos tão nojentos e desumanos”, escreveu o atleta Shan Masood no Twitter. “Ficar calado está contribuindo para o problema. Devemos enfrentar esses covardes e agir”, completou.

Além do trauma causado pelos crimes, as vítimas ainda são vistas e tratadas como criminosas e até responsáveis pelos ataques. Em entrevista ao The New York Times, Mehnaz Akber Aziz, membro da oposição na Assembleia Nacional do Paquistão, afirma que “não há empatia, apenas silêncio. Isso está mudando, porque o público está reagindo”.

Segundo a ativista, boa parte das crianças abusadas são de pequenas cidades ou vilarejos, o que dificulta a repercussão dos casos e cobrança por parte dos internautas nas redes sociais. Consequentemente, as autoridades ficam mais confortáveis com seu descaso e desamparo perante os ataques. Com a impunidade, Aziz considera que “está sinalizando para essas pessoas, os estupradores, que ‘está tudo bem, você pode continuar fazendo o que está fazendo e haverá uma saída, mesmo se você for preso’”, pontuou.

No caso da menina, segundo a polícia, ela foi sequestrada na sexta-feira passada após ir comprar biscoitos em uma loja na cidade portuária de Karachi. A criança foi encontrada dois dias depois sem vida e com marcas de abuso sexual, de acordo com a autópsia. Com a pressão da população, a polícia prendeu mais de 20 suspeitos no caso, sendo que nesta quarta-feira um deles admitiu sequestro e assassinato.

Já no crime com a mulher, o caso aconteceu enquanto ela dirigia na noite de terça-feira com seus três filhos de Lahore, capital da província de Punjab, para a cidade de Gujranwala. O carro dela ficou sem combustível, o que a fez chamar a polícia, porém, enquanto esperava por ajuda, dois homens quebraram a janela do motorista com paus e pedras e arrastaram ela e seus filhos para fora da estrada. Em seguida, a vítima foi estuprada diversas vezes, e os homens  ainda roubaram cartões, joias e dinheiro.

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De acordo com o jornal, mesmo com o relato do ataque, o chefe de polícia ainda tentou culpabilizar a mulher pelo crime, questionando o motivo dela viajar de noite, sem um acompanhante adulto e com pouco combustível. “Se um importante policial pode se envolver abertamente na acusação de vítimas, imagine como os policiais juniores tratam os sobreviventes de estupro”, escreveu a jornalista paquistanesa Ailia Zehra no Twitter. “É por ISSO que as mulheres não denunciam crimes sexuais”, alertou.

Por parte do governo, comentário do representante também foi desaprovado. Shireen Mazari, ministra dos direitos humanos do gabinete do primeiro-ministro Imran Khan, escreveu no Twitter que “nada pode jamais racionalizar o crime de estupro”. Também no Twitter, o primeiro-ministro também se pronunciou. “Tal brutalidade e bestialidade não podem ser permitidas em nenhuma sociedade civilizada”, disse Khan.

Dos 182 países signatários da Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos da Criança, o Paquistão ocupa a 147º posição no índice sobre o bem-estar infantil publicado pela KidsRights Foundation, um grupo de pesquisa e defesa da Holanda. A organização mede a prevalência de trabalho infantil e as taxas de mortalidade e desnutrição, entre outros critérios.

Outros casos

O histórico do país vem preocupando a comunidade internacional, que cobra investigações e políticas públicas para estancar a violência doméstica. Em 2015, houve uma denúncia de que pelo menos 280 crianças menores de 14 anos foram vítimas de abuso sexual. O crime teria sido praticado por uma gangue de 15 homens, que faziam vídeos para extorquir dinheiro das crianças e de seus pais.

Muhammad Faizan, um menino de 8 anos, também foi alvo de ataque sexual. A criança foi estuprado e morta na cidade de Chunian, no leste do Paquistão, gerando inúmeros protestos, em que pessoas cercaram a delegacia local e acusaram os policiais de negligência.

Em março, o Parlamento aprovou que qualquer pessoa que sequestrar, estuprar ou assassinar um menor pode ser condenado à prisão perpétua ou à pena de morte. Aziz sinaliza que a medida é o primeiro passo para uma mudança enorme e urgente para a promoção do bem-estar infantil. Entretanto, até agora, ela desconhece algum criminoso que tenha sido processado de acordo com a legislação atual.

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