#TemQueFalar: “Ele me obrigava a colocar a mão no pênis dele”

Leia o relato da leitora Cíntia*, de 28 anos*

Nas últimas semanas, as mulheres brasileiras se uniram em torno do tema #PrimeiroAssédio, capitaneado pelo grotesco ataque sofrido por uma participante do MasterChef infantil – ela tem apenas 12 anos. A mobilização levou muitas delas a compartilhar em suas redes sociais casos semelhantes ou ainda mais graves, que deixam sequelas profundas em suas vítimas. Algumas delas, porém, preferiram guardar suas histórias para si, por medo de ser identificadas por seus agressores. Publicamos a história de uma leitora que, 15 anos após um ataque sexual, ainda tem medo de ser encontrada. Não demorou para que outras mulheres nos procurassem: Gabriela*, Marcela*, Mariana*. Em comum, o desejo de dividir seus traumas, medos e culpas. Especialistas apontam que falar sobre eles é uma das maneiras eficientes de superá-los. Por isso, criamos o movimento #temquefalar. Um espaço de cura, que incentiva a troca de experiências e, sobretudo, traz o assunto à tona, para evitar novas vítimas entre crianças e mulheres. 

Leia o relato da leitora Cíntia*:

“Depois de muito ler as histórias do #temquefalar, resolvi falar também, quem sabe posso contribuir em abrir os olhos de muitas mães e pais desavisados.

Quando era bem pequena, tinha um amigo bem íntimo da família que não saía de dentro da minha casa. Ele era como meu pai, mais velho e não tinha família. Dizia que nós éramos a família dele e eu realmente o via como um pai. Costumava ir com ele para todos os cantos, passeava, brincava, ia à padaria, ia até mesmo à missa com ele. Era uma cidade bem pequena do interior, então todos já sabiam que ele era considerado da família. E lá estava eu grudada com o “tio”.

Até que um dia, ele me viu trocando de roupa e disse que eu tinha peitinhos bonitos, que deveria mostrar mais vezes. Eu não queria, não queria… Mas aí ele me prometeu um ovo de páscoa! Sim, sempre sonhei em ganhar um ovo de páscoa, já que minha família não tinha condições de comprar um. Eu sonhava com ovos de páscoa, era o meu maior desejo… Então resolvi deixá-lo ver.  E não acabou por aí, ele tomou liberdade e começou a passar as mãos em mim. Colocava seus dedos calejados por dentro da minha calcinha e dizia que não poderia contar pra minha mãe, pois ela acharia que a culpa era minha, que iria me bater. Dizia que meu pai não me amaria mais.

Minha mãe me deixava com ele na sala sozinha e eu morria de medo… Ele me obrigava a colocar a mão no pênis dele, afinal, ele era um amigão da família. Todos achavam que ele me tratava como uma filha, já que não poderia ter família, até que cresci e comecei a entender que não queria aquele homem na minha casa.
Nunca, nunca falei para ninguém… Comecei a ignorar aquela pessoa dentro de casa. Quando ele chegava, eu saía pra brincar. Passava o tempo todo arrumando ideias para aquele nojento sumir da minha casa, da minha família, da minha vida.

Eu me sentia suja e tinha muita vergonha de sair na rua, porque as pessoas perguntavam por ele, como se fosse meu pai, mas ele era o meu pesadelo. Ele, graças a Deus morreu. Até hoje não me perdoo por ter deixado acontecer. Eu me culpo, culpo meus pais, me culpo por ter continuado vivendo. Já tentei me matar, já tentei fugir de casa, mas fui fraca, fraca por não pedir ajuda. Fraca por ter tido medo, fraca por aceitar toda aquela situação. Hoje, aos 28 anos*, ainda tenho pesadelos, ainda há resquícios de sujeira no meu corpo e na minha vida.”

*Nome e idade fictícios.

Se você também quiser dividir o seu relato com outras leitoras, envie para redacaoclaudia@gmail.com. A sua identidade será preservada.