Elizabeth Gilbert: “É preciso acreditar que é possível ser feliz”

A americana Elizabeth Gilbert, autora do best-seller Comer, Rezar e Amar, lança um novo livro – desta vez, autoajuda pura.

Desde que lançou Comer, Rezar e Amar, em 2009, a escritora americana Elizabeth Gilbert se tornou uma espécie de guru. O best-seller em que relata a experiência de passar um ano viajando, em um processo de autoconhecimento, serviu de bíblia e inspiração para milhões de mulheres no mundo todo. Na viagem, ela conheceu Felipe, o brasileiro com quem é casada até hoje. Agora, aos 46 anos, Liz lança Grande Magia – Vida Criativa sem Medo (Objetiva, 29,90 reais), quase uma continuação de sua palestra Alimentando a Criatividade (2009), que até hoje figura entre as 20 mais assistidas do TED (sigla de Tecnologia, Entretenimento e Design, organização americana que promove ideias inovadoras). No novo livro, ela discorre sobre as dificuldades que atormentam quem depende da própria criatividade para trabalhar – como o medo do fracasso e de julgamento – e dá um empurrãozinho àqueles que buscam uma vida mais emocionante. “Sou fascinada por esses tesouros, que são as ideias e inpirações, que crescem dentro de nós, e pelo jeito como lidamos com elas”, disse a CLAUDIA, por telefone, de Nova Jersey, onde mora. Leia a seguir o que mais a escritora falou – inclusive da criatividade dos brasileiros –, antes de encerrar a entrevista com um “tchau, querida”.

Você viveu algum embate pessoal por estar escrevendo um livro de autoajuda?

Honestamente – perdoe-me o meu palavreado –, dane-se! (risos). Estamos aqui por pouco tempo. Especialmente depois dos 40 anos, minha preocupação é apenas manter a minha vida emocionante – seja escrevendo um romance, um livro de memórias, um guia de autoajuda, seja um texto no Facebook.

No livro, você diz que viver criativamente é ter uma rotina motivada mais pela curiosidade do que pelo medo. Qual a relação entre as duas coisas?

A criatividade pede que você explore uma nova paisagem sem saber aonde ela vai dar. E o medo odeia resultados incertos. O papel dele, como instinto de sobrevivência, é ficar repetindo: “Não faça isso”. Coragem significa sentir medo, mas seguir em frente.

Você acredita em talento ou tudo na vida depende de trabalho duro?

Ainda que você tenha a genética ou todos os dons do mundo a seu favor, não chegará a lugar algum se não trabalhar. Conheço pessoas muito talentosas, mas que não se desafiam e acabam não criando nada. E outras que não têm esse talento natural, mas sentam e fazem um ótimo trabalho.

Por que as mulheres acreditam menos em si mesmas do que os homens?

É só olhar a história do mundo para perceber que há uma boa razão para esse problema de autoconfiança. Nós existíamos apenas como máquinas de reprodução e satisfação sexual e para manter a casa em ordem. Esses eram os únicos trabalhos que nos eram permitidos. E há ainda milhões de mulheres nessa situação. Se você tem a sorte de ter outras possibilidades, use isso!

Tem gente que nem coloca uma ideia em prática porque acredita que tudo já foi inventado e não vale o esforço. Qual sua sugestão para lidar com esse tipo de bloqueio?

Muitas coisas já foram criadas realmente. Mas isso não é problema meu. Há milhares de anos as pessoas faziam exatamente o que faço agora. Faça do seu jeito, faça porque o processo de criar é satisfatório. A alternativa para isso é ficar estagnada. Se pensar demais, você nunca vai criar nada. Para mim, o mais importante é continuar em movimento. E todo mundo tem mais facilidade para fazer algo. É justamente aí que seu talento descansa.

Investir na criatividade deixa a vida mais feliz?

Este é um mundo muito difícil e doloroso. Se você não acreditar que é possível ser mais feliz, ele fica ainda mais complicado. Eu vivi um período de depressão e ansiedade e só com muito trabalho, disciplina e devoção fui capaz de transformar a crise. Preciso acreditar que dá para conquistar uma vida melhor e fazer as coisas de um jeito mais fácil. Do contrário, o que estamos fazendo aqui?

Algumas décadas atrás, era comum as pessoas trabalharem a vida toda em uma mesma empresa. Hoje, muita gente deseja ter o próprio negócio. Precisamos ser mais criativos para ter sucesso?

Sou muito cautelosa com a noção de que no passado tudo era mais fácil. Se você olhar de maneira ampla para o começo da história da humanidade até agora, não há evidências de que existiu um momento em que viver era mais simples. Talvez em um curto período, por volta dos anos 1970, em algumas partes do mundo e para algumas pessoas existisse um tipo de segurança no trabalho. Mas nem todos tinham acesso a isso. Durante a maior parte da história, a vida foi um quebra-cabeça diário, demandando sempre muita criatividade para ser solucionado.

Seu marido também passa parte do dia em casa. Como isso afeta sua rotina de trabalho?

Quando eu estava escrevendo meu livro anterior, trabalhava o dia todo e, às 17 horas, ele batia na porta com duas taças de vinho, sentava e dizia: “Leia para mim o que você escreveu hoje”. Eu lia e, no final, ele perguntava o que viria a seguir. Isso era muito doce porque, na manhã seguinte, eu acordava pensando que teria que trazer uma nova história para ele à noite, teria que seguir em frente. É lindo e bem diferente do que já tive. Sempre achei que seria impossível manter a vida criativa que eu queria porque nenhum relacionamento seria suficientemente generoso. Hoje, estou com uma pessoa que me dá bastante espaço para criar.

Você esteve no Brasil algumas vezes. Acha o nosso povo criativo?

A resposta é um retumbante sim! E o melhor indício disso é a feijoada. Há um engano quando pensamos que a criatividade é algo que pertence a poucos, aos profissionais bem treinados, à elite. A história da feijoada é a de um povo que não tem nada e pega esse nada, usa a imaginação e cria o melhor prato do mundo! Trata-se de criatividade: ver as coisas de um jeito diferente, provar os ingredientes e misturar tudo. Os brasileiros sempre foram fantásticos nisso! E olha que eu sou casada com um, então… (risos).