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“Saudade daquelas férias, livres de obrigação”

Por Mônica Martelli (colaboradora) - Atualizado em 28 out 2016, 01h14 - Publicado em 25 jan 2016, 07h00

Na minha adolescência, em Macaé, no Rio de Janeiro, férias sempre estiveram associadas a ser feliz, brincar, não pensar em estudos, não ter obrigações, não fazer planos. Significavam ficar na praia o dia inteiro, andar de bicicleta pela cidade até dar calo no bumbum, brincar de polícia e ladrão na rua, de salada mista, fazer brigadeiro à tarde pra comer com os amigos, subir em árvores e só dormir quando o corpo não aguentasse mais em pé.

E vinha o Carnaval, momento de confeccionar fantasias para ir ao baile no clube. No primeiro dia, usávamos uma nova, feita especialmente para aquele ano. No segundo, a do ano anterior. E, no terceiro, repetíamos a fantasia nova. Ficávamos rodando e cantando no salão ao som de marchinhas famosas, esperando algum garoto ficar rodando ao nosso lado até sair o primeiro beijo. Depois a gente ia para algum canto se agarrar com mais privacidade até ser descoberta por algum adulto e ser obrigada a voltar pro salão. (Lembro muito do desejo de ser adulta pra ficar de pegação sem ser incomodada e nunca mais sentir que estava fazendo algo errado.) Quando finalmente tocava Cidade Maravilhosa, sabíamos que era a saideira, que o dia seguinte seria Quarta-Feira de Cinzas e depois começariam as aulas. Nas últimas voltas, rodopiávamos tristes porque quem não tinha pegado ninguém não ia pegar mais. E pra quem tinha pegado só havia mais uma música pra beijar.

Hoje, na minha vida de adulta, férias são sinônimo de filho sem escola e ter que arranjar mil programas: levar pro cinema, à casa dos amiguinhos… Ou recebê-los em casa com lanchinho. Providenciar uma colônia de férias, inventar uma viagem – vivemos preocupadas em fazer nossos filhos felizes todo o tempo. Praia, só se for antes das 10 horas ou depois das 16, porque causa insolação nas crianças e leva por água abaixo o investimento que fizemos em tratamentos dermatológicos milionários.

A viagem em família já começa com infindáveis discussões com o marido sobre o hotel. Depois sobre nossas malas, “tão grandes pra levar só canga e biquíni”. Parece fora do alcance masculino entender que há também saídas de praia, vestidinhos, chinelos, chapéu; nécessaire para o banheiro com hidratante e xampu; nécessaire dos remédios, porque sou prevenida; e a dos protetores solares: fator 100 para o rosto, 70 para o colo e 50 para o restante do corpo.

O stress continua assim que entramos no carro e pegamos o primeiro engarrafamento. Sou a culpada, porque atrasei fazendo mala. A gente se desvia do caminho e ele não pede informação. (Os homens têm algum problema com isso, talvez a neurociência explique.) Então você se perde junto, porque a criatura é que está ao volante. Com jeitinho: “Amor, seria interessante perguntar para alguém, porque estou achando que estamos bem perdidos”. E completa para não feri-lo em sua macheza: “Realmente é uma estrada complicada, com pouca sinalização”.

Seis horas e chegamos ao destino, que tem como obrigação ser um paraíso. O quarto não é exatamente como na internet e a piscina infantil está em obras. Na manhã seguinte, bem cedinho, um funcionário animado do hotel bate na porta gritando: “Bom dia, família! Vamos ao desjejum”. Aí você só pensa que a felicidade estava na varanda da sua casa, você esparramada numa deliciosa poltrona ao lado da piscininha de plástico do seu filho, lendo jornal calmamente e tomando um café bem gostoso. Saudade daquelas férias, livres de obrigação.

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