“Rezei para ele morrer; algo tinha de pará-lo”: Mãe de atirador de Columbine relembra tragédia

Em livro, Sue Klebold revela que levou meses para aceitar que o filho foi o responsável por ataque brutal a escola americana

Em 20 de abril de 1999, um ataque ao colégio Columbine High School, em Denver, Colorado, chocou os Estados Unidos. Dois alunos, Dylan Klebold e Eric Harris, planejaram um ataque que matou 12 alunos e um professor. Outras 24 pessoas ficaram feridas. Dylan tinha 17 anos e Eric, 18. Os dois cometeram suicídio na biblioteca após o ataque.

Após anos de silêncio, Sue Klebold resolveu se abrir sobre a tragédia que marcou profundamente, não só sua própria vida, mas que criou marcas na história americana.

“Eu passei meses sem acreditar. E quando eu soube que o plano inicial deles era matar todo mundo… Quando eu pensei na magnitude daquilo, eu pensei que eu não fosse sobreviver”, contou Sue em entrevista a ABC News.

Sue revelou ainda que visita com certa frequência o memorial construindo para homenagear as vítimas do ataque. Lá, ela trava diálogos imaginários com as crianças e com o professor que foram mortos. “Sem o restante do mundo, sem os pais, sem os advogados, sem a comunidade. Eu digo que quero que saibam que estou pensando neles. E que pensarei neles para sempre.”

Sue confessa que o filho já havia dado alguns sinais de seu distúrbio mental, mas que ela e o marido não conseguiram perceber a gravidade do problema antes que fosse tarde demais. “Hoje eu consigo ver que havia sinais. Ele havia sido preso, tinha problemas na escola. Mas eu não percebi que essas coisas eram sinais de um problema mental. Por isso eu escrevi esse livro, para mostrar que quando as crianças demonstram irritação, talvez não seja o caso de dar broncas. Talvez seja um sinal de que elas estão doentes”, afirmou.

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Ela conta que na manhã do massacre seu filho saiu fazendo barulho e batendo a porta. Ela e o marido conversaram sobre a atitude e decidiram conversar mais tarde com o filho para saber se algo estava errado. Não houve tempo.  “O que eu mais queria era ter segurado o Dylan naquela manhã e ter dito a ele: ‘Senta aqui. Você não vai a lugar nenhum. Vamos conversar’.”

Apesar da franqueza com que se refere ao filho, Sue admite que passou por um longo processo de negação antes de acreditar que ele, de fato, havia cometido os assassinatos. “Eu não sabia que ele era um assassino. Na minha mente, eu não tinha como aceitar que ele era um assassino. Só fui acreditar depois de seis meses, quando vi o relatório da polícia.”

Anos após o massacre, Sue ainda tenta lidar com o arrependimento. “Eu pensei que eu era uma boa mãe… Que ele poderia falar comigo sobre qualquer coisa. Parte da dor está em entender que o que eu acreditava e a maneira como eu educava era uma invenção em minha própria mente. Que era um mundo completamente diferente que ele estava vivendo”, afirmou. “Não há um único dia que eu não pense nas pessoas que o Dylan feriu. É muito difícil conviver com o fato de que alguém que você amava assassinou tantas pessoas de uma forma tão horrível”, disse.

Sue soube da tragédia pelo noticiário. Pouco tempo depois ela foi detida pela polícia em sua própria casa para prestar esclarecimentos sobre o ocorrido. Acompanhando o desenrolar da história pela televisão, antes que a tragédia chegasse ao fim a mãe rezou pela morte do filho. “Rezei para ele morrer. Algo tinha de pará-lo e acabar com aquela violência brutal. Eu demorei meses pra acreditar. Vivi meses de negação extrema. Uma das coisas mais difíceis foi saber que eles iam explodir a escola inteira”, contou.

Desde o ataque, Sue tem se dedicado a ajudar famílias de crianças que se suicidaram. Em um livro, ela deve ser lançado ainda este mês, ela conta detalhes de sua história. Batizada de “A Mother’s Reckoning: Living in the Aftermath of the Columbine Tragedy (O acertar de contas de uma mãe: vivendo depois da tragédia de Columbine, em tradução livre), a obra não pretende eximir o filho de sua culpa..

O livro faz parte do projeto e terá todo o lucro das vendas revertido para organizações de saúde mental.

Ela escreve que seria melhor para o mundo se Dylan não tivesse nascido – mas não para ela. “Quando eu penso no que ele fez, nas vidas que ele tirou, no trauma que ele causou… não há como mensurar isso. Eu sei que é terrivelmente difícil para os que sobreviveram me ouvir falar do amor que eu sentia pelo Dylan. Mas ele era meu filho e conhecê-lo enriqueceu minha vida. Eu o amei. Ele me trouxe muitas alegrias.”