Os nossos desejos que não são tão nossos

Quando a vontade de seguir a boiada é maior do que nossas vontades reais

Ela nunca teve vontade de ter filhos. As amigas perguntavam o porquê e ela listava mil motivos, raramente mencionando o verdadeiro: não tinha vontade. Era isto, apenas isto: não tinha vontade de ser mãe, não cresceu acalentando esse desejo, não estava a fim.

Dentro dela havia algumas rachaduras sem nome, alguns buracos existenciais, como em todo mundo – não somos lá muito bem pavimentados por dentro. Mas não havia aquele buraco específico, que se difere dos demais pela placa ao seu lado, onde se lê: “Quero ser mãe”. Se você, assim como eu, sempre quis ser mãe, sabe do que estou falando. De uma espécie de vazio especial, didático, que deixa claro, sem margem para discussões: só serei preenchido por um filho.

As amigas perguntavam se ela tinha certeza, mas compreendiam. A família compreendia. O marido dela – era casada havia dez anos – não só compreendia como não insistia, não cobrava. Só ela mesma não compreendia.

Foi por isso que, perto dos quarenta anos, ela decidiu engravidar. E conversou com o marido, e parou de tomar a pílula, e teve o Miguel.

Teve o Miguel não porque queria ter o Miguel, ou a Catarina, ou a Beatriz. Teve o Miguel não por conta de um desejo genuíno, mas por causa de um pensamento que foi resumido nesta confissão, que, entre risos, ela fez ainda na gravidez, quando as amigas perguntaram por que, afinal, ela havia mudado de ideia:

– Às vezes, nesta vida, tudo o que a gente quer é seguir a boiada!

Era isso. Dito entre risos, mas, aparentemente, com a força, a brutalidade e a contradição de todas as emoções misturadas. Muita emoção misturada costuma acabar em lágrimas, mas, às vezes, o emaranhado se disfarça em uma boca aberta, cheia de dentes.

Às vezes, nesta vida, tudo o que a gente quer é seguir a boiada. Como todo mundo, queremos ter dois braços, duas pernas. Queremos ter um salário, amigos, uma família dentro do normal, desejos dentro do normal. Sabe como é: somos seres pensantes, mas preguiçosos. Frequentemente, nutrimos vontades e comportamentos não porque são nossos de verdade, mas porque são as vontades e comportamentos que vemos nos outros. Então nos tornamos obcecadas por dieta não porque isso nos faz felizes, mas porque é essa a obsessão da boiada: como podemos ser felizes sem fazer dieta, já que é isso que todo mundo quer? Então nos tornamos reféns de padrões não porque refletimos e concluímos que é isso mesmo que grita em nós, mas porque é o que o pessoal anda fazendo por aí. Viramos escravos do consumo excessivo, de relações que não nos realizam e até de programas no final de semana que não nos preenchem porque, afinal, são o que todo mundo está fazendo, ora. Não é?

É. Parece que sim. Queremos pertencer a um grupo. Pensar com a própria cabeça e se identificar com uma pessoa aqui, outra acolá parece solitário demais: às vezes, queremos pertencer ao enorme e sem rosto grupo chamado “normalidade”. É reconfortante.

Mas e quando, no fundo, queríamos adotar outra postura, outro comportamento, outra forma de pensar? E quando acabamos nos obrigando a seguir a boiada por medo da hostilidade de fora do grupo? Aí, parece que é a tal boiada que vira uma agressão a nós mesmos. E lá fora, bem longe dela, ainda que mais vazio, seria o lugar mais acolhedor. Ali, bem ali, onde, talvez, experimentaríamos um respiro mais libertador do que qualquer aprovação alheia.

Pelas minhas contas, o Miguel deve estar quase no seu primeiro aniversário. Como sempre, a vida não é simples e a maternidade, menos ainda: pode ser que a mãe do Miguel esteja muito realizada hoje, no fim das contas. E pode ser que não. Não sei. O que sei, ou acho que sei, é que, do nascimento à morte, precisaremos sufocar muitos dos nossos desejos e forjar outros pelos motivos mais variados. Não podemos ser nós mesmos em 100% do tempo: fato. Mas é grande o risco de morrermos em vida se ignorarmos nossos anseios mais significativos. Se nos obrigarmos a seguir boiadas que nem se importam conosco. Se caminharmos sem cuidado ou respeito por nosso interior já frágil, com seus buracos e preenchimentos que acabam dando forma, para o bem e para o mal, a cada um de nós. 

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