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Mulher, é preciso confiar

Coordenadora de conteúdo do Prêmio CLAUDIA 2016 percorre o Brasil atrás de histórias inspiradoras e garante: mulheres resolvem qualquer problema, mulheres se ajudam!

Por Giuliana Bergamo (colaboradora) Atualizado em 22 out 2016, 19h30 - Publicado em 11 jul 2016, 07h00

“Confia em mim”, disse a senhora loira, de cabelos curtos e gestos determinados, no balcão da papelaria, enquanto ajeitava em uma caixa os presentes que eu acabara de ganhar, mas não conseguiria carregar comigo no avião. Eu costumo confiar em pessoas que dizem “confia em mim”. Minha analista, aliás, já disse que eu confio antes de desconfiar das pessoas. Mas confesso que estou achando isso cada dia mais difícil. E aquele “confia em mim” soou mais como um “eu vou fazer tudo do meu jeito e, se você não gostar, o problema é seu”. Eu não estava confiando nela. Para ser muito sincera, eu já estava escolhendo as palavras corretas, no melhor estilo “Comunicação Não Violenta”, para dizer à mulher que o que eu precisava era de um pacote forte e compacto o suficiente para despachar aquelas coisas na agência dos Correios ao lado. 

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Mais do que isso: eu precisava que tudo fosse feito com rapidez. Eu tinha fome. Já passavam das 14h e, até aquele momento, eu estava só com o café da manhã sem vergonha que eu enfiara no estômago antes das 8h no hotel. Precisava ser rápido porque estávamos na Lapa carioca e, lá fora, o Uber com todo o equipamento fotográfico do Pablo Saborido, meu computador, nossas malas e o Pablo Saborido dentro me esperavam. Precisava ser rápido porque a gente queria adiantar o voo para Belo Horizonte, onde eu tinha a esperança de me hospedar em um hotel em que ficara no ano anterior para conhecer a Raquell Guimarães, candidata pela categoria Negócios. Lembro que, na ocasião, fiz check-in às 23h de alguma noite de maio e, assim que entrei no quarto, vi que eles ofereciam escalda-pés até às 22h. Só que eu sairia do hotel antes das 10h do dia seguinte. Não deu para testar o serviço. E, agora, eu tinha a esperança de poder colocar meus pezinhos cansados, com esmalte vermelho craquelando, cutículas tão crescidas que pareciam novos dedos brotando por trás das unhas, dentro de um miniofurô com água quente. Eu também tinha a esperança de comer antes de voar. Eu estava com fome!

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“Confia em mim. Confia em mim.”
“É que… eu preciso da menor caixa que a senhora tiver porque vou despachar isso aí e, quanto maior a embalagem, mais caro custa a postagem.”
“Confia em mim, confia em mim”, ela repetia enquanto pegava um estilete.

Respirei fundo. Eu, definitivamente, não poderia perder tempo com desentendimentos dentro de uma papelaria. Na tal caixa havia vários itens: um tapa-olhos de feltro em forma de coruja, uma garrafinha de vidro reaproveitada e decorada com tinta e pano, um pote grande de vidro pintado, uma bolsa feita com cápsulas de Nespresso, um enfeite de garrafa pet, entre outros. Foram todos confeccionados pelas mulheres atendidas pela candidata da categoria Consultora Natura Inspiradora (o nome dela só posso revelar em agosto) que eu entrevistara na manhã daquele dia. As moças que me deram os presentes fazem parte de um grupo que sofreu violência doméstica e outros abusos, mas, agora, está refazendo a vida graças à ajuda de outras mulheres, principalmente a da consultora Natura que eu tinha conhecido, uma mulher que, por sua vez, só conseguiu sair do ciclo de violência que sofria graças à sua mãe. Mãe que, aliás, também foi submetida a uma vida que não desejava, foi infeliz em um casamento que durou décadas e não queria, de forma alguma, que a filha amargasse história semelhante. 

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A experiência tinha sido linda, mas eu só queria sair logo do Rio de Janeiro. Aquela era minha quarta visita à cidade neste ano e, já na primeira, eu tinha concluído que “o Rio não está legal”. Tem um clima tenso no ar. Tem um medo. Tem um ar de descaso. Tem uma desesperança. Não está dando para confiar nas pessoas no Rio. Para piorar, dois dias antes daquela quarta-feira, o prefeito Eduardo Paes tinha dito que o governo do estado fluminense faz um “trabalho terrível” de segurança. É o óbvio, mas a declaração do peemedebista, para mim, soou como quando minha mãe diz algo como: “Você precisa comer melhor, filha”. Em geral, faz uns dez anos que eu já sei que preciso comer melhor, mas é só quando ela diz que eu começo a me sentir mal por estar comendo mal. No domingo antes de eu embarcar para Brasília e, de lá, para São Paulo e, de lá, para o Rio (onde a moça da papelaria me pedia para “confiar”) e, de lá para Belo Horizonte, e para Porto Alegre e, então, de volta para casa, minha mãe tinha dito: “Você está muito cansada, filha”. Eu estava mesmo exausta – faz quase três meses que viajo pelo Brasil com poucos dias de pausa entre um voo e outro. Qualquer um estaria cansado mesmo que não tivesse, como eu, dois filhinhos pequenos que, quando eu volto para casa, querem descontar os créditos de saudade que acumularam na minha ausência. Estaria mesmo que não tivesse um marido que, como o meu, sente – ainda bem – a minha falta e quer matar as saudades quando eu volto. Estaria mesmo que não tivesse, como eu, uma porção de compromissos que só se somam quando eu não estou em casa. Eu estava cansada. Mas funcionava bem no piloto automático. Para isso, me agarrava aos restinhos de energia que ainda restavam e seguia, sem pensar no cansaço. Mas foi só minha mãe dizer aquilo para eu sentir o cansaço de verdade. Eu também já sabia que o Rio não estava bolinho, mas Eduardo Paes fez tudo ficar pior. Então eu pre-ci-sa-va sair do Rio rápido e aquela moça me pedia para “confiar”. 

Foi então que ela passou o estilete em uma das quinas da caixa e, em seguida, na outra. Cortou todas elas e foi dobrando as laterais até deixar a caixa mais baixa e, consequentemente, bem menor. Amoleci.
“Ah… Agora entendi… Obrigada. Está muito bom mesmo”, eu disse.
Com os olhos na caixa e as mãos embalando a coisa toda freneticamente, ela retrucou:
“Eu não falei para você confiar em mim? A gente tem que confiar. Afinal, somos mulheres. E mulheres são criativas, resolvemos qualquer problema. Mulheres se ajudam.”
“Você tem toda razão”, respondi, com uma vontade de me enfiar embaixo do balcão. 

A palavra “mulheres”, dita assim, no plural, me fez lembrar da cena que vira naquela manhã. No mesmo Uber, procurávamos o endereço da candidata em um morro de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, um dos municípios brasileiros com maior índice de estupro. O motorista, muito solícito e empenhado em achar o lugar, parou mais uma vez para pedir ajuda a um morador que estava parado em frente ao que parecia ser sua casa.
“Está com ânimo?”, perguntou o sujeito?
“Por quê?”, disse o motorista.
“Porque vai ter que subir, e subir e subir”, e emendou numa explicação muito complexa, bem diferente da que tínhamos ouvido antes. Uma senhora o interrompeu, com certo recato, para corrigi-lo. E deu instruções razoáveis, bem mais parecidas com o que imaginávamos. 
“Cala a boca. Você não sabe nada!”, ralhou o sujeito. 

Do banco de trás, abri o vidro e fiquei olhando fixamente para ela enquanto aquele que parecia ser o seu marido nos dava as mais estapafúrdias instruções. Decidimos ligar novamente para o colega da candidata que estava nos ajudando remotamente com o caminho e ele combinou de nos encontrar onde estávamos para servir de guia. Mesmo assim, fiz questão de ouvir o que dizia aquela senhora, que deu a volta no carro e veio falar diretamente comigo num papo “de mulher para mulher”. Ao subirmos o morro, comprovamos que ela, e não o homem, estava correta. 

“Qual seu nome?”, perguntei à moça da papelaria quando ela se virou para trás para pegar o papel pardo com o qual envolveria a minha caixa. 
“Regina. Regina Lucia Fernandes.”
“Muito prazer, Regina”, disse. E coloquei minhas mãos sobre o papel para ajudá-la com as pontas enquanto ela manejava a fita adesiva. 
“Você é carioca, Regina?”
“Não, cearense. Nascida em 1954. Vim para o Rio de pau de arara e estou aqui na Lapa. Sou viúva.”
“Puxa! Meus senti…”
“Sou viúva e perdi um filho há um mês.” 
Gelei. Coloquei a mão direita sobre ombro esquerdo dela.
“Oh, meu Deus…”
“Era um gato, na verdade, mas, para mim, era um filho.”
Com as mãos sobre o embrulho pronto, Regina contou a saga do felino. E a dela, que, diariamente, o levava par fazer quimioterapia!!!
“Não chore!”, pediu, enquanto segurava o próprio soluço. 
Atendi o pedido. Dei a volta no balcão, abracei Regina, tasquei um beijo na bochecha dela e fui embora com meu embrulho que me custou 15 reais e uns quebrados. 

Consegui adiantar o voo, mas o almoço virou jantar em BH e o hotel não oferecia escalda-pés, mas a cama foi suficientemente confortável para que eu perdesse a hora da entrevista no dia seguinte. 

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