Vera Lúcia Gonzaga, uma das fundadoras do Mães de Maio, morre em Santos

Ela foi encontrada desacordada entre fotos da filha, assassinada aos 9 meses de gestação, nos Crimes de Maio de 2006

No último dia 3 de maio, Vera Lúcia Gonzaga foi encontrada desacordada em sua cama. Ela estava deitada entre fotos e documentos pessoais. Na porta do quarto, deixou uma camisa de manga longa do movimento Mães de Maio.

Ela foi uma das que perderam seus filhos nos Crimes de Maio de 2006. “A filha dela, Ana Paula Gonzaga dos Santos, estava grávida de 9 meses quando foi atingida por cinco tiros, um deles na barriga. Foi de propósito para a criança não sobreviver. O marido dela e genro de Vera, Eddie Joey, também foi baleado e morreu”, diz Débora Silva, grande amiga e fundadora do grupo, à redatora-chefe Patrícia Zaidan. “Os filhos me disseram que no dia 3 seria aniversário do genro dela e da morte do marido. Ela ficou lembrando de tudo”.

Na véspera, Verinha havia se encontrado com ela. As duas estiveram juntas na rodoviária de Santos antes que Débora embarcasse para o Rio de Janeiro, onde se reuniu com integrantes da Anistia Internacional cumprindo a agenda da organização.

“Conversamos, demos muita risada. Disse a ela que estava com saudade, já que não nos víamos há mais de um mês. Ela me contou, chateada, que tinha perdido o celular em um furto e, com ele, todas as fotografias armazenadas no aparelho. Nos despedimos. Em breve, ela também iria partir para uma visita a outra Mãe do grupo, que estava doente”, relatou. “Já no Rio, assim que saí da reunião, recebi uma ligação de um dos filhos dela para contar a notícia. Fiquei em estado de choque”, relata.

“O médico que a atendeu em quase óbito disse que a suspeita era suicídio. Não acredito, porque quem luta pela vida jamais iria se suicidar. Mas a filha dela me falou que as caixas de remédio dela estavam vazias. Ela foi encontrada entre imagens da Ana, que ela adorava tanto… “, emociona-se Débora.

O crime foi um golpe duro, mas incontáveis foram as vezes que ela colocou o dedo na cara de quem precisasse em nome de suas meninas. Transformou a perda em enfrentamento, entrou para o grupo de mães e se mudou para a periferia da baixada santista. O ofício de cabeleireira e manicure foi para segundo plano enquanto ela dedicou suas forças na cobrança pelo esclarecimento dos envolvidos.

“O que Vera mais queria era que o Estado parasse de matar os meninos”, desabafa Débora. Entretanto, nunca conseguiu ver os culpados respondendo pelo crime na cadeia.

As Mães de Maio seguirão firme por ela. “Continuaremos nos compromissos e na formulação de estratégias para ocupar Brasília e levar o Governo a investigar esses casos. Vera morreu. Ela dizia que não queria vingança, mas queria justiça”, finaliza.