“Meu sonho é ver o trabalho infantil erradicado do planeta”

Conversamos com Kailash Satyarth, o Nobel da Paz, que luta para acabar com o trabalho infantil pelo Mundo

Em 2004, eu e minha equipe fomos resgatar um grupo de 24 garotas nepalesas escravizadas em um circo na Índia, onde também sofriam abuso sexual. O dono do circo negou a presença delas ali. Invadimos o local acompanhados pela polícia e por jornalistas. Esse homem apontou uma arma para mim, apanhei dos capangas e acabei no hospital. Os policiais estavam envolvidos com o dono do circo, portanto nada aconteceu, e as meninas permaneceram presas. Entrei em greve de fome. Graças à repercussão mundial, após quatro dias, as garotas foram libertadas. Depois disso, a corte indiana proibiu a apresentação de crianças em espetáculos circenses.” Quem conta essa história é o ativista indiano Kailash Satyarthi, que há 35 anos luta contra o trabalho e a exploração infantis. Vencedor do Nobel da Paz em 2014, ao lado da paquistanesa Malala Yousafzai, ele esteve em São Paulo em janeiro para o lançamento da campanha Somos Livres, de prevenção e informação sobre a escravidão contemporânea, da Comissão Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo.
Nascido em uma família de classe média, Satyarthi chegou a se formar em engenharia elétrica, mas largou tudo aos 26 anos para se dedicar à causa. “Desde cedo gostava de ajudar os outros: aos 11 organizei na minha cidade um sistema de doação de livros para meninos e meninas carentes”, lembra. De 1975 para cá, ele estima ter libertado 84 mil crianças que viviam em situação análoga à escravidão na Índia e em países vizinhos como Nepal – muitas vítimas do tráfico humano, às vezes vendidas pelos próprios pais. Além de recuperaremz a liberdade, essas crianças passam a ser atendidas por um programa criado por ele, em que são acolhidas e alfabetizadas. “Muita coisa melhorou nestas três últimas décadas, mas há muito ainda a ser feito se lembrarmos que 168 milhões de crianças trabalham hoje no mundo, sendo 85 milhões em condições degradantes”, disse ele a CLAUDIA.

Paralelamente aos resgates e à frente de uma série de grupos da sociedade civil, o ativista, aos 62 anos, é também responsável pelo selo Rugmark, chancela para tapetes indianos que não utilizaram mão de obra infantil em sua fabricação. “Como consumidores temos um papel decisivo nessa história ao não comprar produtos de empresas que exploram adultos ou crianças”, alerta. O Nobel, ele conta, ajudou a jogar luz sobre a questão. “O prêmio atraiu mais atenção para o sofrimento dessas crianças , que perdem sua infância e o direito de estudar, perpetuando a miséria em que elas e suas famílias vivem.”

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