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“Investir em educação é investir no professor. E valorizá-lo”

Priscila Cruz, fundadora do movimento Todos pela Educação, discute sobre a importância de tornar a docência uma profissão atraente

Por Giuliana Bergamo - Atualizado em 12 jul 2017, 14h22 - Publicado em 12 jul 2017, 12h14

Edição Giuliana Bergamo

Criado em 2006, o movimento Todos Pela Educação tem como objetivo fazer do ensino de qualidade e acessível a todos os brasileiros uma urgência nacional. Para isso, elabora pesquisas, análises e, com base nelas, sugere políticas públicas.

A instituição também tem forte papel em mobilizar a sociedade para pensar em educação e cobrar mudanças dos gestores públicos. Um dos principais focos atuais de trabalho é a valorização do professor. A fundadora do movimento e candidata ao Prêmio CLAUDIA, Priscila Cruz, conversou sobre o tema com a CLAUDIA Online.

A SAÍDA PARA A CRISE

A gente nunca vai sair da crise e das crises pelas quais temos passado de forma cíclica no Brasil se não investir em educação. E investir em educação é investir em professor.

BALA DE PRATA

Eu não tenho bala de prata para a educação. O que mais se aproxima de uma bala de prata é o professor. Os sindicatos são importantíssimos na defesa do professor, só que a gente tem que ter uma defesa feita pela sociedade também. O professor só vai ser valorizado quando a sociedade passar a defendê-lo também.

PROFISSÃO ATRAENTE

A gente tem que tornar a docência uma profissão atraente. Ninguém mais quer ser professor. A própria sociedade não valoriza a categoria. Fizemos uma pesquisa que mostrou: por volta de 30% dos jovens já pensou em ser professor alguma vez na vida.

No entanto, só 2% a 3% vão realmente para a profissão. O principal motivo para terem desistido foi a desvalorização. Ou seja, os próprios alunos não valorizam a docência. Eles veem que os colegas não respeitam o professor e não querem entrar em uma carreira para serem desrespeitados.

E O SALÁRIO, Ó

O programa de humor Escolinha do professor Raimundo, que era transmitido pela Rede Globo, foi um grande desserviço para o país. O jargão do personagem do Chico Anysio, “E o salário, ó”, dito de forma meio resignada, martelou na cabeça dos lares brasileiros por anos.

Reforçou a ideia de que o professor ganha mal mesmo tendo que aguentar tudo aquilo dos alunos. Claro que este não é o único culpado, mas o brasileiro é muito audiovisual. A televisão, a novela influenciam nosso comportamento.

SALÁRIO NA CAIXA-PRETA

Precisamos abrir a caixa-preta do salário do professor. O Plano Nacional de Educação inclui a meta de igualar a média do salário de professor com a dos demais profissionais com ensino superior no país. O problema é que isso foi feito sem uma base, sem uma evidência muito forte.

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Não temos certeza de que esse é o objetivo ideal. Pode ser mais, ou pode ser um pouco menos e isso já dá conta de atrair os profissionais da área. Temos que saber exatamente qual que é o esforço financeiro de contratação do professor para poder criar uma agenda de implementação.

Metas muito genéricas são boas como bandeira, mas péssimas para orientar a política pública. Na hora do vamos ver, você tem que dizer exatamente quanto o professor deve ganhar em cada uma das regiões.

CURSOS DE FORMAÇÃO

Em geral, os cursos de formação são assim: chega lá um palestrante que roda várias escolas e junta todo mundo em um auditório. O cara fala um monte de coisa bonita, passa uma apresentação em powerpoint muito bacana, cheia de frases do Paulo Freire.

Aí, os professores assistem aquilo, voltam para sala de aula no dia seguinte e nada muda. Porque isso não é formação. Pode ser um momento bom, de inspiração, mas não é o que vai melhorar a prática do ensino. Formação continuada tem que ser feita na escola, entre os pares, com organização e mediação do coordenador pedagógico.

Muitas experiências internacionais e estudos mostraram isso. O problema é que é bem mais difícil desenhar este outro modelo, implementá-lo, criar material. É preciso ter um sistema operando em rede para fazer com que isso aconteça. E deve ser contínuo.

PROFESSORES PARA TODOS

Muita gente vem com aquele papo: “Ah, na minha época, professor era valorizado.” É verdade, mas antigamente o professor dava aula pra elite. Não havia criança pobre na escola e os professores também eram da elite.

Normalmente, o cargo era ocupado pela filha de uma família abastada que fazia o curso normal e que ia ser professora. Agora, a realidade é outra. A aula é para todo mundo. E a professora, na maior parte das vezes, vem dessa camada da população que está se emancipando economicamente agora.

Muitas são a primeira geração daquela família a chegar na universidade. E elas entraram pela pedagogia. Trata-se de uma professora que tem mais capacidade de entender seu aluno porque ela também passou por isso, viveu o que ele está vivendo. Mas a gente não valoriza isso.

A gente vê pelo outro lado: pensa nessa professora como a pobre, que não foi educada direito, e agora vai educar outras pessoas.

QUAL É O PLANO?

É muito difícil mudar uma cultura que está instalada. Dizemos que o professor é o principal profissional do país. Afinal, é ele que vai formar o médico, o jornalista, o advogado. Ele é a base de tudo. E aí seguimos o raciocínio: precisamos pagar melhor os professores.

E o gestor público diz: “Ah, mas não vai dar.” A medida da valorização é o que e quanto estamos dispostos a sacrificar em nome da boa educação. É uma questão de escolha. Outros países já passaram por isso. Não tem história de país que estava com muito dinheiro em caixa e, então, resolveu investir na educação.

O que existe é o contrário. Muitos exemplos de nações que deram essa guinada em período crítico, como pós-guerra. A Polônia é um deles, outro é Portugal, que passou por anos de ditadura e, com a redemocratização, veio um plano de educação de longo prazo.

No Brasil não foi assim. Não tinha um grande plano. A Constituição é bem ambiciosa na educação, mas é lei, não um plano bem elaborado. Qual que é o plano para a gente cumprir aquelas leis todas?

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