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Quem é Ella Jones, eleita prefeita em cidade marcada pelo racismo nos EUA

Ela será a primeira pessoa negra a liderar cidade que se tornou símbolo de protestos antirracismo após a morte pela polícia de um jovem de 18 anos, em 2014

Por Letícia Paiva - 3 jun 2020, 21h15

Localizada no estado americano do Missouri, Ferguson tem uma população de menos de 22 mil habitantes e status de cidade desde 1894. Desde então, a prefeitura foi comandada apenas por homens brancos, a despeito de uma população formada em quase 70% por negros. Nesta semana, como resultado das eleições municipais, Ella Jones, 65 anos, interrompeu essa sequência ao ser a primeira pessoa negra – e também única mulher – eleita prefeita na cidade. O resultado acontece em meio aos protestos que se espalharam pelos Estados Unidos contra o racismo e a violência policial nos últimos dias.

A vitória de Elle atraiu novamente os olhares do mundo todo para Ferguson, cidade que já foi principal cenário de protestos semelhantes aos que, nos últimos dias, se espalharam pelos Estados Unidos contra o racismo e a violência policial. Em 2014, o jovem Michael Brown, 18 anos, foi alvejado e morto por um policial branco, Darren Wilson. A morte dele foi uma das que alavancaram o movimento Black Lives Matter, que teve como fator explosivo mais recente a morte do ex-segurança George Floyd, 46 anos, pelo policial Derek Chauvin, que está preso e responde por homicídio triplamente qualificado. No caso de Michael, o agente não foi processo e, posteriormente, acabou resignando da corporação.

“Minha eleição dá esperança às pessoas”, disse Ella nesta quarta-feira, conforme registrou o The New York Times. “Todo mundo está buscando mudanças. Ninguém quer sair na rua com a preocupação de que pode levar um tiro. Está começando a melhorar; estamos fazendo mudanças”, diz ela, que é membro da Câmara Municipal e havia se comprometido a fazer mudanças no departamento de polícia. Ela ganhou o pleito com 54% dos votos, contra Heather Robinett. O ex-presidente americano Barack Obama escreveu sobre a vitória no Twitter: “Um lembrete da diferença que a política e o voto podem fazer para mudar quem tem o poder de transformar uma comunidade como Ferguson, com um histórico de práticas discriminatórias na aplicação da lei”. 

Moradora de Ferguson há mais de 40 anos, Ella é também pastora da Igreja Episcopal Metodista Africana, primeira denominação protestante independente a ser fundada por pessoas negras. Em 2015, ela se tornou a primeira mulher negra na Câmara Municipal. Apesar de sua postura crítica ao sistema de segurança pública e seus efeitos na população negra, ela não se posiciona diretamente a favor dos protestos após a morte de negros, que costumam envolver depredações e, em alguma medida, ataques a policiais. 

Dois anos após o homicídio de Michael Brown, o prefeito James Knowles III, no cargo atualmente, foi reeleito, derrotando Elle. Na época, ela fez campanha indo de porta em porta se apresentar aos moradores e disse que ouvia a população desacreditar que um eventual governo dela seria suficiente para mudar os destinos das pessoas negras. “Se você foi oprimido por tanto tempo, é difícil romper para uma nova ideia. E quando você é governado por medo e pessoas dizem que a cidade vai declinar porque uma pessoa negra estará no comando, você tende a ouvir a retórica e não abrir a mente”, disse ela na época.

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