Dizer ‘não’ na hora certa: como aprender com histórias de quem conseguiu

Como resistir à tentação de falar 'sim' para agradar aos outros? Falar 'sim' pode até ser mais fácil, mas traz consequências a longo prazo. Aprenda como ter coragem de dizer não com quem já passou por isso

Dizer 'não' na hora certa: como aprender com histórias de quem conseguiu

Foto: Ingram/Thinkstock/Getty Images


Por que dizemos sim quando, na verdade, desejamos dizer não? “Isso ocorre por causa da nossa necessidade de aceitação e de reconhecimento”, explica a psicóloga Triana Portal, de São Paulo. “No fundo, ninguém gosta de ser visto como chato ou egoísta.

Tudo bem se tais situações só ocorrem esporadicamente. O problema é se existe um excesso de sim na sua vida.”Quem só pensa em agradar aos outros deixa de fazer as coisas de que gosta e se frustra”, alerta a psicóloga Adriana Takahashi, de São Paulo. Nesse caso, comece a agir já para mudar.

Ninguém está falando em balançar a cabeça para os lados em tudo de agora em diante. Mas é preciso se manter vigilante e rever comportamentos todo dia, para conseguir começar a expressar o que realmente quer e pensa. Para ter coragem de dizer não, o primeiro passo é reconhecer que um sim não será positivo naquele momento. Você pode precisar, no entanto, ser persistente e lançar mão de estratégias como estas, sugeridas por experts:

1. Experimente colocar no papel as perdas e os ganhos de falar sim ou não quando tiver de solucionar dilemas importantes;

2. Antes e depois de decisões cotidianas-chave, avalie – e, se puder, anote também – os sentimentos envolvidos (culpa, medo, vergonha, ansiedade, alívio, felicidade…);

3. A título de treino, reflita sobre sua vida e pense em algo que não gostaria de fazer se lhe fosse pedido. Elabore previamente uma resposta e, caso isso se concretize, seja firme. Com o tempo, você se acostumará e os nãos se tornarão mais fáceis. Em vez de criticá-la, a tendência é que os outros passem a admirá-la por saber e dizer o que quer.

Foto: Gabriel Rinaldi/ Thinkstock/Getty Images

Para ajudar, conheça histórias de mulheres que, em algum momento da vida, disseram sim e se arrependeram. Mas aprenderam o valor de um não oportuno e deram a volta por cima:

‘Fiz acordo tácito para não tocar a empresa da família’, Vanessa Rozan, 33 anos, maquiadora

“A expectativa de que eu tocasse a empresa da família, uma revenda de máquinas agrícolas, era grande. Assim, dos 14 aos 18 anos, trabalhei lá. No início, até achava bom, porque ganhava meu dinheiro. Mas foi ficando difícil permanecer conforme o vestibular se aproximava. Meu pai queria que eu cursasse direito. Prestei em várias faculdades e não passei. Tentei comunicação só em uma e foi justamente na que entrei. De modo inconsciente, fiz uma escolha diferente da esperada. Meu pai perguntava: “Você vai viver do quê?”. Foi um período cheio de desentendimentos. Com uns 22 anos, descontente com tudo, resolvi fazer um curso de cabelo e maquiagem. Aí me encontrei. Em 2009, montei meu salão e sinto que se tornou mais fácil falar não para as coisas nas quais não acredito. Levei anos para dizer ao meu pai que não queria administrar o negócio criado por ele. Nossa relação ficou bem complicada. Mas, felizmente, nos reconciliamos e ele acabou ajudando muito na nova fase da minha vida.”

‘Eu deveria ter dito não e lutado pelos meus sonhos desde cedo’, Fabiana Franceschi, 40 anos, empresária e engenheira naval

“Queria fazer arquitetura, mas não passei na prova prática. Cogitei me mudar do interior de São Paulo para a capital e fazer um cursinho preparatório. Mas meu pai, que sempre deu a última palavra, não permitiu. Sabe o que fiz? Nada. Fiquei na minha cidade mesmo, Jaú, e entrei em engenharia naval. Tinha a ver com uma empresa da família, vendida quando me formei. Já graduada, meu lado empreendedor aflorou. Não queria mais seguir as regras dos outros e me juntei às minhas tias e ao meu então namorado, hoje marido, na construção de um barco de turismo. Em Jaú, o Rio Tietê é limpo e, por ele, navegam jangadas de pesca e embarcações de passeio. Na época, eram de alumínio, e a nossa, de resina, mais bonita. Eu também fazia anjos de resina, que meu marido vendia, e um dentista perguntou se podia tirar molde de osso com o material. Foi assim que nasceu a minha empresa, única da América Latina a produzir ossos sintéticos para estudos. Hoje exportamos para 15 países, e meu pai brinca que ele estava certo. Discordo. Eu deveria ter dito não e lutado pelos meus sonhos desde cedo.” Fabiana Franceschi, 40 anos, empresária e engenheira naval


‘Tive muito medo, confesso, mas decidi romper o ciclo’, Ana Fontes, 47 anos, consultora de marketing

“Durante anos, acreditei que trabalhar numa empresa conhecida, com uma jornada diária de 16 horas e um bom salário, era o máximo. E conquistei isso. Fui promovida depois de quase uma década batalhando no setor automotivo. Na ocasião, todos sabiam que eu já estava grávida, mas garanti que daria conta da nova função. O combinado era que, se surgissem problemas durante a licença-maternidade, eu resolveria de casa mesmo. Mas me pediram para voltar com apenas dois meses de afastamento e não consegui dizer não. Falei sim para meu chefe em detrimento da minha filha, e esse é um dos meus maiores arrependimentos. A partir dali, o tal futuro profissional brilhante começou a me incomodar. Passou um tempo e fui para outra empresa. Acabei adotando uma menina e, dessa vez, fiquei fora os quatro meses a que tinha direito. Tive muito medo, confesso, mas decidi romper o ciclo. Para completar a fase de mudanças, resolvi montar um negócio e ficar mais perto da família. Não trabalho menos, mas tenho mais flexibilidade. Acho que o que faço hoje é uma forma de compensar o sofrimento de ter deixado minha filha tão cedo. Cuido de uma rede de 70 mil mulheres empreendedoras. Como eu, muitas abandonam ocupações tradicionais por não conseguir conciliar trabalho e filho.” Ana Fontes, 47 anos, consultora de marketing

Dizer 'não' na hora certa: como aprender com histórias de quem conseguiu

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‘Olhando para trás, vejo que poderia ter dito não para os amigos’, Cris Lafratta, 34 anos, designer de moda

“Eu tinha 19 anos quando, depois de uma briga com meu namorado, saí para me divertir. Por influência da turma, bebi durante uma hora e meia. E fui embora dirigindo, com duas pessoas de carona. Infelizmente, um carro furou o sinal vermelho e nos atingiu. Minha amiga estourou o para-brisa com a cabeça e fez diversas cirurgias. O rapaz que estava conosco perdeu o movimento dos dedos. Quebrei vários dentes e tive uma séria lesão na coluna. Não me mexia do pescoço para baixo. Passei dez meses sem andar. Minha vida parou. Larguei a faculdade, e meus amigos sumiram. Eu me recuperei depois de muita fisioterapia. Ficaram só uma pequena sequela na boca e sete graus de miopia. O bom é que, anos mais tarde, para não enlouquecer enquanto fazia tratamento para engravidar, outro problema decorrente da tragédia, decidi estudar algo que me desse prazer e refiz minha vida profissional. Cursei moda, criei um blog e logo lançarei minha marca de roupas. Olhando para trás, vejo que poderia ter dito não para os amigos. Eu deveria ter ido curtir minha fossa sozinha, mas eles ficaram me incentivando. Diziam: “Relaxa, vamos beber!”. Éramos todos muito jovens. Hoje sou diferente, me preocupo mais comigo – e também com meu filho. Não me interessa o que vão falar ou pensar de mim.” Cris Lafratta, 34 anos, designer de moda

‘Mesmo sentindo que quem me propôs o negócio não inspirava confiança, não consegui dizer não’, Bel Coelho, 34 anos, chef de cozinha

“Em 2006, vendi meu apartamento, pedi demissão e parti para Londres porque fui convidada para montar lá um restaurante de comida brasileira criativa e moderna. Era o que eu gostava de fazer, além de ser uma chance de representar meu país no exterior. Porém, alguma coisa me dizia que não daria certo. Mesmo sentindo que quem me propôs o negócio não inspirava confiança, não consegui dizer não. Passei seis meses criando receitas e o cara não me pagava. Aí desisti. Mas acredito que a gente cresce ao lidar com os erros. Em Londres mesmo, conheci o chef Joan Roca, do El Celler de Can Roca, hoje o melhor restaurante do mundo, e fui para a Espanha trabalhar com ele. Fiquei um ano e aprendi horrores. Depois dessa experiência, percebi que devo confiar mais na minha intuição. Ainda sou superansiosa e empolgada, do tipo que quer fazer acontecer. Mas hoje, grávida do meu primeiro filho, estou mais pé no chão. Daquele sim só para agradar quem está perto, já estou vacinada. Admito, porém, que ainda me enrolo um pouco com os nãos profissionais. Só que agora, por ter mais liberdade e autonomia, escolho bem melhor onde gastar energia.” Bel Coelho, 34 anos, chef de cozinha

‘Tive medo de não avançar sem a produtora musical que já trabalhava comigo, com quem o convívio tinha azedado’, Karol Conká, 28 anos, cantora

“Fui uma adolescente decidida, queria dar a última palavra em tudo. Por causa dessa firmeza, quando uma relação profissional passou a me angustiar e eu não conseguia dar um basta, minha mãe perguntava: “Por que você, que sempre soube dizer não, agora não faz isso?” Cresci querendo ser cantora, mas estudei numa escola onde ninguém me estimulava. Pelo contrário, só me colocavam para baixo. Engravidei aos 19 anos e isso atrasou minha carreira. Por outro lado, meu filho me fez amadurecer. Então, quando meu sonho estava se realizando e comecei a viver da música, bateu a insegurança. Tive medo de não avançar sem a produtora musical que já trabalhava comigo, com quem o convívio tinha azedado. Embora aquela relação me sufocasse, eu sabia que ela era experiente. Para piorar, nós ficamos amigas, o que tornava ainda mais difícil dispensá-la, pois me sentia culpada. Fui aguentando. O trabalho dela era bom, afinal. Isso foi em 2012, enquanto gravava meu primeiro disco. Cedi para não correr o risco de não sair. Em 2013, o álbum foi lançado e, meses depois, finalmente falei que não dava mais. Aprendi que dizer não para os outros é dizer sim para mim mesma.” Karol Conká, 28 anos, cantora