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Mulher revela distribuição de Bíblias em hospital referência em aborto legal

Aguardando o atendimento para interromper a gravidez, resultado de um estupro, a jovem recebeu o Novo Testamento no Hospital Pérola Byington

Por Da Redação Atualizado em 25 ago 2021, 09h36 - Publicado em 20 ago 2021, 15h30

Uma universitária, de 26 anos, grávida vítima de um estupro, esperando na fila no exame de ultrassonografia, recebeu uma caixa com um livro do Novo Testamento da Bíblia e absorventes.

A jovem relatou que o caso aconteceu no último dia 18, no Hospital Estadual Pérola Byington, em São Paulo, que é referência no atendimento a mulheres que sofreram violência sexual.

O ocorrido se deu enquanto ela se preparava para interromper a gravidez, procedimento previsto por lei em casos de estupro. “Engraçado que me deram uma Bíblia na fila do ultrassom. Não só para mim, mas para todas as mulheres que estavam lá. Não quis recusar pois todos estavam aceitando”, contou por mensagem de texto à documentarista Juliana Reis, do projeto Milhas pelas Vidas das Mulheres.

Desde 2019, a documentarista orienta e auxilia vítimas que desejam realizar o aborto permitido por lei. Em entrevista ao Universa, Juliana contou que acompanhou virtualmente a universitária durante o atendimento. “Outra mulher poderia ter se sentido pressionada, saído de lá e feito um procedimento clandestino”, afirmou.

aborto
Freepik/Reprodução

Em nota, a Secretaria estadual de Saúde disse que “lamenta o desconforto e repudia qualquer atitude contrária à liberdade de consciência e de crença quanto ao caráter laico de instituições públicas, previstas na Constituição.”

A deputada federal Sâmia Bomfim (PSOL) também denunciou e questionou a ação por meio de suas redes sociais:

Para o veículoo diretor do hospital, Luiz Henrique Gebrim, explicou que a instituição recebeu diversos kits para doar durante a pandemia, como papel higiênico e absorventes. Na distribuição, voluntárias entregaram às pacientes o que havia dentro das caixas, inclusive a Bíblia.

De acordo com Luiz, as voluntárias usam uniforme rosa, diferente dos funcionários do hospital. “Elas ficam mais na área da oncologia. E uma delas achou que poderia distribuir a Bíblia, mas a gente sabe que não pode”, afirmou.

Religião e serviços públicos

A assistência religiosa também é prevista pela Constituição, quando o paciente permite. “Nós só permitimos acesso a líderes religiosos no hospital se o paciente, em estágio terminal, permitir. As famílias geralmente pedem mesmo um conforto espiritual. A gente não pode impedir. Mas para isso, a direção precisa autorizar”, explicou o diretor.

Constantemente o Pérola Byington é alvo de manifestações de grupos pró-vida. Em 2019, a frente do hospital foi tomada pela campanha “40 dias pela vida”, que foi realizada por religiosos contra o aborto. Além de uma quarentena de reza contra a interrupção da gravidez, a ação contou com reproduções de fetos, bebês, terços e cruzes.

Na época ativistas a favor do aborto legal montaram uma tenda no mesmo local. O Católicas pelo Direito de Decidir ergueu um banner escrito “na luta pelo Estado laico e contra os fundamentalismos”.

“Estamos falando de vidas, principalmente de mulheres negras e pobres que são as maiores vítimas de violência e da falta de acesso aos serviços. A gente tem um serviço de excelência no Pérola, e questões como essas atrapalham o andamento do serviço e os profissionais”, finalizou Rosângela.

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