Coluna da Liliane Prata: O mundo caindo e eu aqui, procurando um vestido de festa junina

Nossa editora e colunista Liliane Prata escreve sobre a sensação de impotência perante o noticiário

Tomo café lendo as notícias no meu celular, arrumo minha filha para a escola, visto um casaco, dou um beijo no meu marido, pego minha bolsa, sigo caminhando até a rua Pamplona, subo a rua Pamplona em direção à Paulista, não sei o nome da loja, não lembro muito bem onde fica a loja, mas é aqui na rua Pamplona, o farol fica vermelho, atravesso a faixa de pedestres, volto a subir a rua, sinto calor e paro. E então tiro o casaco, e então penso enquanto tiro o casaco: puxa vida, o mundo explodindo e eu aqui tirando o casaco, o mundo caindo e eu aqui, procurando um vestido de festa junina para a minha filha.

Teve ataque na boate em Orlando, teve guarda-civil matando menino, falta chuva, tem chuva demais, tem terremoto, falta merenda, falta médico, tem Temer, tem “fora, Temer”, tem Cunha, mas também tem minha cunhada, não posso esquecer o aniversário da minha cunhada, nem de dar parabéns para minha amiga, nem de pegar a roupa que preciso pegar na lavanderia, o e-mail que preciso mandar para a minha chefe e, claro, o vestido da festa junina da minha filha, preciso comprar esse vestido, onde fica a loja, mesmo, será que já passou?

Olho para o outro lado da rua Pamplona, não tem a loja, tem uma confeitaria e tem um mendigo deitado em frente à confeitaria, me perco pensando na tristeza do mendigo e nos doces da confeitaria, os brigadeiros dessa confeitaria são ótimos, será que compro um para comer depois do almoço? O mendigo sem almoço e eu aqui pensando no que como depois do meu almoço, eu devia parar de pensar isso, eu devia diminuir o açúcar, não estou de dieta, mas açúcar demais faz mal, mas ver o mendigo é que faz mal, um mal estéril, que não maltrata ninguém, mas que também não resolve nada. Não atravesso a rua, não compro o brigadeiro, não acho uma solução para a vida do mendigo, ou para a minha vida, ou para a saída do Reino Unido da União Europeia, eu só queria achar a loja, mas nem a loja estou achando…  

Continuo subindo a rua, não vejo mais o mendigo, mas agora carrego comigo não só minha bolsa e meu casaco mas também o mendigo, porque lembro do mendigo, e também lembro do desastre de Mariana, sei lá onde fica essa loja, sei lá por que pensei em Mariana agora, mas aqui estou eu, me lembrando daquela lama, daquele desastre que me fez sofrer tanto numa tarde de folga, aquele desastre que foi divulgado enquanto eu estava no fogão fazendo pipoca, aquele aperto no peito que não trouxe nada de bom nem para o meu peito nem para a minha pipoca nem para Mariana – putz, entendi porque o mendigo me lembrou Mariana, putz, será que a loja fechou?

Procuro a loja, não vejo a loja, mas vejo uma placa assinada por um coletivo de arte, o coletivo me lembra estupro coletivo, acho que estou lendo notícias demais, acho que todos nós estamos lendo notícias demais, se olho rápido a palavra “assinada” leio “assassinada”, se olho rápido a arte ela me remete à brutalidade, que horror essa minha cabeça hoje, essa loja que não chega, essa ladeira que não acaba, será que estou enganada, será que a loja não era aqui? Preciso comprar esse vestido hoje, amanhã não vou ter tempo, a festa junina é no sábado, lá vou eu pensando na festa junina, uma festa junina que foi marcada no mesmo mundo em que são marcados atentados, lembro do atentado no aeroporto de Istambul, lembro que eu estava no aeroporto de Istambul há dois meses, penso no sorvete de pistache que tomei lá no aeroporto de Istambul, será que alguém morreu perto de onde comprei meu sorvete de pistache, deve ter morrido, pessoas morrem onde antes havia apenas pistaches, isso sempre acontece, a gente come pistaches, mas os pistaches não defendem a gente de nada.

Meu celular apita, olho meu WhatsApp, é uma piada que meu pai mandou, meu pai vive me mandando piadas, não rio das piadas do meu pai mas rio de tantas outras piadas, como posso rir de tantas piadas apesar de, como posso rir de tantas piadas já que, como posso rir de tantas piadas mesmo assim? Mesmo com tanta criança morrendo, construtora embolsando, o ponto de interrogação latejando, o caos tomando conta, a gente tomando fôlego, eu tomando fôlego nessa ladeira que não acaba, eu vendo outro mendigo, eu passando na frente de outra confeitaria, eu pensando de novo no e-mail da minha chefe, eu, eu, eu, esse é o problema? Mas puxa vida, eu não apertei botão nenhum, eu não enchi nada de lama, eu não explodi não matei não embolsei, eu no máximo chorei, eu que não estuprei ninguém, eu que nem homem sou, eu que sou mulher, que me preocupo quando ando numa rua escura e vazia, que agora estou com sede, que ainda estou procurando a loja, que estou olhando as horas, pensando em pistaches e prazos, em atrasos e notícias, em atentados e em festas juninas, ah, que bom, olha a loja ali, finalmente, a loja que vende vestidos de festa junina.

Atravesso a rua. Entro na loja. Cumprimento a vendedora. E vou passando com minha mão, um por um, os vestidinhos de todas as cores, aqueles vestidinhos tão bonitos e coloridos, com todas aquelas suas florezinhas e rendinhas.
 
Liliane Prata é editora de CLAUDIA e escreve aqui no site toda semana. Para falar com ela, clique aqui!

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