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Basta é basta! Michelle Obama e a indignação

A antropóloga Debora Diniz* comenta os acontecimentos recentes, na corrida presidencial dos Estados Unidos, que envolvem os comentários machistas e preconceituosos do candidato republicano Donald Trump.

Por Debora Diniz (colaborador) - 14 out 2016, 15h36

Ouvi os vinte minutos do discurso de Michelle Obama sonhando que ela fosse a primeira-dama do Brasil. Não era. Sei que é perturbação provocada pelos recentes três minutos da dama de azul como princesa da bondade para as crianças felizes. Só em desenhos animados há princesas com pozinhos mágicos; o mundo real pede mulheres cujas avós ou mães serviam as princesas, mas que hoje sobem em palanques para desafiar os homens de poder.

Me dei conta que Hillary Clinton também foi primeira-dama. Ser a esposa do presidente não foi papel figurativo para essas mulheres: o primeiro-damismo foi palco para o grito por direitos. Michelle Obama tinha voz de quem manda e couro de quem, outros acham, deveria obedecer. Mas a mulher não era uma personagem – era a primeira-dama dos Estados Unidos, indignando-se com a truculência machista do candidato republicano, Donald Trump. Não gosto de imaginar os Estados Unidos como a autoridade moral para o mundo, um exagero retórico de Michelle Obama, mas a escutei como quem admirava a primeira-dama de todas as mulheres. 

“Basta é basta!” foi frase de efeito que levantou a audiência a gritar com ela que não é tudo o que vale em uma corrida eleitoral. Donald Trump já tinha se arriscado por outras fronteiras da intolerância, como flertes racistas ou xenófobos, mas nenhum tema lhe causou tanta dor de cabeça quanto à frase misógina e vulgar sobre as mulheres. Há intoleráveis, disse Michelle Obama: um deles é humilhar as mulheres. A primeira-dama não falou em gênero ou feminismo, mas em decência. Trump foi indecente quando fez troça sobre as mulheres e anunciou poder “fazer qualquer coisa com uma mulher”. Como Michelle Obama, quero repetir “não, isso não é normal”.

Espero que Hillary Clinton vença as eleições. E não só porque é de longe a melhor candidata, mas porque é preciso silenciar o destempero moral dos racistas, misóginos e xenófobos que ganharam cena na corrida política à presidência dos Estados Unidos. Donald Trump não é só o candidato conservador ou da direita americana; é um personagem burlesco que incentivou narrativas odiosas na esfera pública. Um candidato político representa ideais sobre bem-viver e justiça, e a pergunta para Donald Trump é exatamente essa: qual mundo nos é oferecido quando um candidato discrimina as mulheres? Um mundo de desamparo às mulheres e de descontrole aos homens. É simples: o candidato não fala apenas de mulheres que considera objeto de pilhagem, mas de como devem ser os homens para manter a supremacia sexual.  

Mulheres e homens indignaram-se com a frase de Donald Trump. Houve quem pedisse estornos para doações de campanha, há quem profecie ruptura do partido republicano. A resposta pública ao destempero de Donald Trump é clara – nem ele nem nenhum outro homem, com pouco ou muito poder, pode fazer “qualquer coisa com uma mulher”. Se Michelle Obama resiste acreditar que a campanha eleitoral tenha chegado a este ponto de indecência, sinto certa melancolia pelo que sobrevivemos como mulheres na política brasileira. Por aqui, a discriminação às mulheres é item obrigatório para as campanhas eleitorais – há quem acredite que a misoginia dos candidatos é demonstração de força. Com Michelle Obama repito: “homens fortes não precisam diminuir as mulheres”. 

*Debora Diniz é professora da Universidade de Brasília, pesquisadora da Anis – Instituto de Bioética e autora de “Zika – Do Sertão Nordestino à Ameaça Global” (Civilização Brasileira) 

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