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Assédio na rua: a jornalista que mostrou o outro lado da cantada

Toda mulher gosta de cantada? A campanha 'Chega de Fiu Fiu' perguntou às mulheres o que elas achavam e abriu um debate sobre o assédio em lugares públicos

Por Mariana Conte (colaboradora) Atualizado em 5 abr 2017, 19h23 - Publicado em 17 jul 2014, 22h00

Enquanto posava para a foto acima, em uma rua do Brooklin, bairro na Zona Sul de São Paulo, Juliana de Faria ouviu de homens que passavam por ali um punhado de comentários sobre seus atributos físicos. Se eles por acaso pensavam que brindavam a moça com injeções de ânimo para a autoestima, estavam redondamente enganados. De tão indignada com o que considera um resquício do machismo, a jornalista, de 28 anos, lançou  no ano passado a campanha Chega de Fiu Fiu, contra o assédio a mulheres em espaços públicos.

“Não é elogio. Ouvir “linda” ou “gostosa” de desconhecidos. Deixa a gente intimidada. Mas, mesmo não gostando, temos medo de responder e nos machucar, até porque o homem é mais forte.”

Juliana conta que o primeiro assédio do gênero foi bem precoce – e traumático. Aos 11 anos, voltava da padaria quando um motorista gritou, de dentro do carro, palavras grosseiras. A menina se assustou e explodiu em choro. “Fiquei com medo e vergonha, me senti oprimida”, recorda-se.

“Hoje sei que, além desses sentimentos, a culpa é outra reação comum. Algumas mulheres acham que fizeram por merecer.” Em meio às lágrimas, a garota foi acudida por quem passava e ouviu que não deveria ligar para aquilo – que, no fundo, era apenas um elogio à sua beleza. Juliana engoliu em seco, mas nunca concordou.

Recentemente, o fato do passado emergiu de sua memória. Um dos gatilhos, segundo a jornalista, foi um episódio envolvendo o diretor de teatro Gerald Thomas e a repórter do Pânico Nicole Bahls, em que ele acaba indo além das palavras e tenta meter a mão sob o vestido dela. Juliana não viu graça ao assistir à cena.

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“Colegas e pessoas que eu admirava escreveram besteiras nas redes sociais, culpando Nicole e falando que o jeito que ela se vestia induzia ao assédio”.

Decidiu, então, que deveria mesmo levantar tal bandeira. A campanha Chega de Fiu Fiu ganhou link no blog neofeminista dela, o Think Olga. A proposta é conscientizar as mulheres para nunca acharem que permitiram ser aviltadas. E ela faz isso com frases de efeito ilustradas. “Caminhar por um espaço público não torna meu corpo público” e “Tem mulher que gosta” – Não dá pra brincar de roleta russa até achar o alvo” são algumas delas.

Assédio em lugares públicos: a jornalista que mostrou o outro lado da cantadaIlustração da campanha Chega de Fiu Fiu
Foto: Divulgação/Think Olga

A blogueira até admite que existe a cantada inofensiva, usada como forma de aproximação. É algo bem diferente do que chama de assédio verbal, que sempre tem conotação sexual, agride e humilha. Em sua luta, ela não encontra só apoio.

“Algumas pessoas me criticam dizendo que minha ação é exagerada.”

Para saber o que a mulher de hoje pensa sobre o tema, ela e Karin Hueck, também jornalista, colocaram no ar uma pesquisa. Em duas semanas, conseguiram quase 8 mil respostas. Praticamente todas as mulheres afirmaram já ter ouvido cantadas e 83% garantiram que não acharam isso legal. Muitas ainda relataram violência física após reagirem ao ato de algum modo. “A coragem delas de dividir comigo o que vivenciaram me deu poder. Não ando mais de cabeça baixa pelas ruas.”

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