Clique e assine Claudia a partir de R$ 5,90/mês

As jovens que usam o TikTok como plataforma de ativismo

Provando que a plataforma não vive só de vídeos engraçadinhos, essas tiktokers fomentam discussões sobre racismo, feminismo, política e educação

Por Gabriela Teixeira (colaboradora) - Atualizado em 16 set 2020, 15h08 - Publicado em 26 jul 2020, 13h00

Humor, desafios de dança e muita, muita dublagem. Em apenas quatro anos, o TikTok ascendeu rapidamente ao top 3 dos aplicativos mais baixados no mundo, ultrapassando redes sociais já consolidadas há mais de uma década, como o Facebook e o Twitter. Até o começo deste ano, o app chinês contava com mais de 500 milhões de usuários fixos e, agora em junho, tornou-se o aplicativo mais baixado da App Store e Google Play, segundo levantamento feito pela Sensor Tower.

Substituto do finado Musical.ly, o TikTok manteve a fórmula de seu antecessor, apostando no atrativo de vídeos curtos, dublagens e uma enorme gama de recursos de edição que permitem aos usuários mais dispostos a possibilidade de criar pequenas obras cinematográficas. Não que uma superprodução audiovisual seja automaticamente sinônimo de sucesso na plataforma, que parece prezar mais pela estética caseira. A tendência do momento, por exemplo, são os vídeos em POV (sigla em inglês para Point of View ou Ponto de Vista), em que o autor do vídeo finge estar dialogando diretamente com o espectador.

@lzmaario

#pov Convidando a menina que eu gosto para o Baile de primavera.

♬ Death Bed – sleep.ing

Tal simplicidade combinada ao fato de que a maioria dos conteúdos da rede são voltados para a comédia – muitas vezes de gosto duvidoso – parece gerar certo desprezo por parte de quem não usa a plataforma. Não é raro que, em alguns contextos e espaços como Twitter e Instagram, a palavra tiktoker seja usada como forma de ridicularizar, associada a algo tido como supérfluo. Mas, como em qualquer rede social, há uma parcela de usuários que usa o TikTok para tratar de assuntos sérios como política, educação, feminismo e antirracismo.

Já consolidada como influenciadora da área da educação em sites como o YouTube e o Twitter, a mineira e estudante de história, Débora Aladim, começou a fazer vídeos para o TikTok por hobby, focando no humor. Rapidamente, porém, passou a criar conteúdo sobre curiosidades históricas, atraindo seguidores mais jovens e que ainda não a conheciam das outras redes sociais.

Hoje com mais de 800 mil seguidores, ela conta que manteve no TikTok a linguagem que usa em outras plataformas, mas optou por uma maior simplicidade do conteúdo, principalmente por causa do tempo de cada vídeo. Limitada a 1 minuto, a duração dos vídeos do TikTok pode se tornar um desafio para quem trabalha com assuntos mais densos. “Por isso que, por lá, me comunico por curiosidades, que são algo pontual e com viés de entretenimento. Mas, mesmo com a limitação, os filtros e efeitos ajudam muito, tornando tudo mais didático e interessante”, explica.

@dedaaladim

#curiosidades #curiosidadehistorica #curiosidade #historia

♬ som original – dedaaladim

Quem também entende das dificuldades de compactar e expressar ideias complexas em apenas 60 segundos é Jaine Santos, designer e superintendente de políticas públicas para a juventude maranhense. Assumidamente feminista e comunista, ela utiliza o TikTok para falar de suas vivências, discutindo principalmente machismo e racismo. 

Para a jovem, é preciso desmistificar o que é ser militante. “Acredito que estamos vivendo em uma geração de muita opinião, que se coloca à frente e não tem medo de se posicionar. E em uma plataforma tão popular, é importante falar sobre esses assuntos de forma descontraída, para dar mais visibilidade, tirar dúvidas e para que as pessoas tenham acesso à informação.”

@jainederua

Tutorial, meninxs! #antirracismo

♬ som original – jainederua

Com um público majoritariamente composto por mulheres, Jaine prefere se considerar intermediadora dos assuntos que aborda, do que influenciadora. “Mas se alguém está se convencendo a ser uma feminista ou antirracistas vendo meus vídeos, quem sabe?”, questiona. 

Apesar de ter começado tudo como uma grande brincadeira, como conta, recentemente ela tem cogitado a possibilidade de produzir conteúdo para outras plataformas, expandindo seus vídeos para o YouTube ou Instagram, mas sem abandonar o lugar aonde tudo começou. “O TikTok é um espaço que qualquer um pode acessar e se divertir. Faço os vídeos, apesar do conteúdo mais sério, pois me divirto bastante. Fazer isso ao mesmo tempo de intermediar conhecimento é muito gratificante.”

O novo boom observado no aplicativo durante a pandemia não é mera coincidência. Ao contrário, o isolamento social parece ter sido o empurrãozinho que faltava para muita gente render-se ao TikTok. Foi o caso da publicitária fluminense Thainá de Oliveira. Trabalhando em regime de home office e desejando distrair a mente de todas as notícias, ela decidiu fazer o download do app, unindo essa vontade à necessidade natural do seu trabalho de conhecer a fundo as diversas plataformas de mídia existentes. Como a maioria das pessoas, ela começou com as dublagens, mas logo resolveu contar estórias do povo preto que aprendeu com a avó e a mãe.

“Eu vivia no pé da minha avó, escutando as estórias que ela contava. A minha mãe também enriqueceu muito minha vida, foi ela a mulher que me fez ver a história do povo preto como uma ferramenta de empoderamento”, relata Thainá. “E assim eu cresci honrando e amando a minha história. E a partir do momento em que contei a primeira, as pessoas começaram a me pedir por mais, a fazer questionamentos, tirar dúvidas, e eu comecei a dividir esse conhecimento com elas.”

Falando principalmente para adolescentes, ela explica que sua proposta é compartilhar coisas e causos de seu cotidiano como mulher preta, fatos embasados em pesquisas e estudos e também manter viva memórias da cultura de sua família e seu povo, evitando que elas se tornem simples objeto de discussão. Mas atender a esse público nem sempre é tarefa fácil. Como falar de apropriação cultural, ela questiona, se algo muito mais enraizado e “simples” de se compreender como o racismo ainda não é assimilado por muitos?

@thaina_deoliveira

Apropriação cultural – Parte1 | Vocês pediram é esse tema é grande demais P/ 1 min. Então será dividido em quanto for preciso.

♬ som original – thaina_deoliveira

Disposta a responder todas as pessoas que deixam comentários em seus vídeos, ela conta que costuma ser complicado mensurar qual o tom ideal de cada resposta, decidindo quem precisa de um retorno mais firme, quem é melhor apenas ignorar, quem precisa ser definitivamente bloqueado. “Essa é uma atitude que costumo demorar a tomar, porque acredito que bloqueando uma pessoa, estou privando ela de ter aquele conhecimento. O que estou dizendo hoje pode não entrar já na cabeça daquela pessoa, mas algo pode acontecer na vida dela daqui há um tempo que a faça lembrar do que falei”, explica.

“Geralmente as pessoas que chegam de forma mais agressiva para rebater são aquelas que não têm nenhum argumento válido, não possuem base nenhuma, nunca pararam pra escutar ninguém, para ler um artigo. Elas simplesmente querem atacar porque não querem sair de suas zonas de conforto”, continua Thainá. “E, como humana, meu sangue às vezes ferve um pouquinho também. Já fiquei vários dias sem entrar no TikTok para evitar me aborrecer. Deixei para entrar em um momento em que estivesse mais calma e em que pudesse dar uma resposta mais nutritiva para as pessoas, independente do teor de seus comentários.”

Com um conteúdo eclético e espontâneo, que mistura música, comédia e suas próprias vivências, a cantora LOH também procura deixar o convívio virtual mais leve e formar uma espécie de família com seus seguidores. Formada em Arquitetura e Urbanismo, hoje ela tem a música como sua principal profissão e, como tantos profissionais de diferentes áreas, utiliza o TikTok como meio de compartilhar seu trabalho. “As pessoas estão se reinventando, inovando e trazendo a tecnologia e as redes sociais para o trabalho. Eu acho isso incrível”, diz.

@eulohrayne

UTILIDADE PÚBLICA! #desabafo #justiceforgeorgefloyd #racism #blacklivesmatter

♬ História de preto – eulohrayne

Seu cuidado por criar um espaço de boas vibrações, porém, nem sempre é suficiente para blindá-la de comentários odiosos, especialmente quando faz vídeos sobre causas raciais. Como uma via de mão dupla, assim como o âmbito virtual a encoraja a se pronunciar, encoraja também quem a ouve a responder. E é impossível que todas as respostas estejam sempre em concordância com o que ela diz. “Então um grande desafio é filtrar o que recebo e absorver somente o que importa.Quando identifico um comentário [de ódio], tomo as devidas precauções. Denuncio e bloqueio o usuário para que tal atitude não se repita comigo e nem com mais ninguém.”

Sua voz e a mensagem que carrega ganham mais destaque. E se depender de LOH, assim será por quanto tempo for preciso: “Não dar visibilidade a essas questões dificulta a desconstrução de uma sociedade racista e a construção de uma educação de qualidade. Redes sociais como o TikTok se destacam cada dia mais no cotidiano das pessoas e quando usamos esse espaço para abordagens importantes, temos a oportunidade de alcançar multidões sem sair de casa.”

Elas indicam

Além de produtoras, Jaine, Débora, Thainá e Lohrayne também são consumidoras de conteúdos do TikTok. Pedimos então que recomendassem outras mulheres tiktokers que seguem na plataforma.

Continua após a publicidade

1- Maira Gomez

Indicação quase unânime, esta indígena da etnia Tatuyo faz tiktoks contando como é o dia-a-dia seu e de sua família, desmistificando preconceitos que existem sobre indígenas brasileiros.

@cunhaporanga_oficial

A pintura corporal é uma proteção e tem um significado. Por ex: como sou da Etnia tatuyo a minha pintura simboliza Ser Humano do Dia/ O Sol #tiktok 🏹

♬ som original – cunhaporanga_oficial

2- Sabrina Abrão

Esta doula faz vídeos leves sobre parto e a importância do acompanhamento profissional neste momento, além de também explicar assuntos ligados ao espiritismo.

@sabrina.doula

Responder a @maikelleazevedo #partohumanizado #cesaria #doula #dúvidas

♬ som original – sabrina.doula

3- Nathalia Camarco

Seus vídeos focam principalmente em nutrição comportamental e veganismo, mas a nutricionista também não se exime de expressar suas opiniões políticas.

@nathaliacamarco

Vamos parar de romantizar a magreza? #nutri #nutricionista #gordobobia #fy #fyp #foryou

♬ som original – nathaliacamarco

4- Michele Passa

Professora e consultora de imagem, suas dicas salvam as produções de muita gente, incluindo as de Thainá.

@michelepassa

🍒 #mihfashionhacks #styledamih #fy #fyp #foryoupage #foryou

♬ My Type – Saweetie

Helena Lut 

Amiga da Débora Aladim, Helena foi quem a encorajou a também fazer parte da rede. Seus conteúdos são principalmente voltados para a comédia. 

@helena.lut

Helena descobrindo a tecnologia 😂🤷‍♀️ #burricesdahelena

♬ som original – helena.lut

Patrícia Ramos

Também com muito bom humor, esta tiktoker publica vídeos sobre autoestima e religião. 

@patriciaramosr

Se ex fosse bom, seria atual. Amém?

♬ som original – patriciaramosr

Raquel Verediano

Maquiadora profissional, Raquel faz não apenas tutoriais de maquiagem, mas também dá dicas de produtos e técnicas para acertar no make.

@raquelveredianoo

#maquiagem #automaquiagem #iniciantemake #fyp #dicas

♬ som original – raquelveredianoo

Continua após a publicidade
Publicidade