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Algo gostoso, fácil e barato é o que se quer da vida

A escritora e colunista de CLAUDIA descreve, com seu contar característico, fatos comuns da rotina, como o dia em que uma amiga estrangeira precisou preparar um menu simples e comprou um tomate. Mas, afinal, o que se pode fazer com apenas um tomate?

Por Danuza Leão (colunista)
22 Maio 2014, 22h00 • Atualizado em 28 out 2016, 02h13
Danuza Leão
Danuza Leão (/)
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  • Sumi no carnaval deste ano para bem longe. Depois de ter visto tantos carnavais e tantas escolas desfilando, tive uma imensa necessidade de não ouvir um só samba, não ver um só bloco nem uma só rainha de bateria. E fui para Paris, claro. Quando estou em Paris, vivo exatamente como aqui; passeio o dia inteiro pelo bairro, descubro sempre alguma coisa nova, como bastante (adoro) e, às 11, já estou na cama. Noitadas em Paris? Só até os 18 anos.

    Tenho uma amiga que mora lá e conta com uma empregada que vai duas vezes por semana por duas horas – quem cozinha é ela (minha amiga), todos os dias de todos os meses de todos os anos. Entre nós ficou logo estabelecido que aos domingos almoçaríamos juntas, em sua casa, mas eu levaria a comida. Adorei a ideia do piquenique: ela me passou uma listinha e lá fui eu às compras.

    Não chega a ser um sacrifício ir a um supermercado em Paris. Em primeiro lugar, porque, por mais que a fila pareça enorme, cada pessoa está comprando o que precisa especificamente para a refeição daquela hora; por isso, a fila anda rápido. Em segundo lugar, porque as coisas que a gente vê nas prateleiras são tão maravilhosas, tão fáceis de preparar que eu passaria uma semana inteira dentro de um bom supermercado, e seria uma viagem maravilhosa.

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    Minha lista era curta: metade de um frango, assado na hora e cheiroso; batatas ao forno com alecrim; e um tomate. Você não leu errado: eu falei UM TOMATE. Mas para que alguém quer um tomate? Para fazer uma flor e enfeitar o prato, talvez? E será que me venderiam UM tomate ou me expulsariam da loja?

    Fiquei lembrando às vezes em que a empregada – quando eu tinha uma em tempo integral – me entregava a lista do supermercado. Laranja, por exemplo, era por dúzia e cansei de pedir uma dúzia da seleta mais uma de laranja-lima e uma e meia de lima-da-pérsia. Para as caipirinhas, limão era aquela redinha com dez ou 12. E dois abacaxis, três mangas, por aí vai.

    Voltando aos tomates, era de 1 quilo e meio a 2; cebola, 2 quilos – não é um exagero de cebola? Pois, na época, nunca parei para pensar; era o cotidiano de minha casa, fora as carnes, os peixes, os legumes, as frutas. Lógico que boa parte das coisas ia parar no lixo. Quanto desperdício, quanto dinheiro jogado fora. Mas o tomate, para que era aquele tomate? Vou contar.

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    Quando cheguei com as sacolas, a primeira coisa que minha amiga fez foi organizar: para um tabuleiro foi o meio frango com as batatas; daí para o forno baixinho; aí pegou o tomate – tão bonito quanto um brasileiro -, retirou as sementes, cortou em pedaços, botou numa saladeira pequena, tirou do armário uma garrafa com um molho de salada que ela faz em grande quantidade – assim, quando precisa, já está pronto; aliás, grande ideia -, respingou, jogou por cima folhinhas de manjericão e nossa entrada estava pronta.

    Pronta e gostosa, fácil e barata, o que se quer na vida. Aí pensei em como aqui no Brasil estamos atrasados em matéria de facilitar a vida. Como é tudo complicado, tudo é refogado em alho, cebola e ervas e tudo dá muito trabalho. Como fazem as mulheres que trabalham, têm marido e filhos e o péssimo hábito de jantar?

    Voltando ao assunto, na bancada onde estavam os tomates, não acreditei no que vi e contei para não esquecer: eram 12 qualidades diferentes, de cores e formatos que jamais imaginei que existissem neste mundo. E eu, que tenho poucas prendas domésticas, pensei em comprar todos aqueles tomates e fazer um lindo buquê para o centro da mesa.

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    Danuza Leão: Algo gostoso, fácil e barato é o que se quer da vida Danuza Leão é cronista e dona de um lirismo característico com que encara os fatos da vida cotidina. Escreveu vários livros, entre os quais “Fazendo as Malas” (Cia. das Letras) e “É Tudo Tão Simples” (Agir).

     

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