Flávia Alessandra: “Vejo a maturidade como um novo começo”
A atriz ressignificou a menopausa e agora ajuda outras mulheres a atravessá-la com leveza
Antes de dormir, Flávia Alessandra desliga as telas, lê um livro, medita por 10 minutos e realiza práticas de respiração consciente. Mas, há pouco mais de um ano, o ritual que sempre garantiu noites reparadoras parou de funcionar.
“Eu dormia profundamente e acordava zerada. Quando me deparei com a insônia, fiquei desestabilizada. Minha vida se tornou um caos”, relata.
Com uma rotina profissional intensa, equilibrar os papéis de atriz, empresária e apresentadora passou a ser ainda mais desafiador. Ao procurar um médico e realizar exames de rotina, veio o diagnóstico: “bem-vinda à menopausa”.
Na época, a atriz descobriu que outros sintomas também estavam conectados à queda de hormônios — ansiedade, névoa, confusão mental, dificuldade de concentração e lapsos de memória eram alguns deles.
O que ela menos esperava, porém, era enfrentar uma dor intensa no ombro que limitava seus movimentos, a impedindo até mesmo de levantar os braços.
“A chamada síndrome do ombro congelado, ou capsulite adesiva, é uma condição de dor e rigidez da articulação do ombro. Pode ser causada por uma imobilização prolongada, ou sem um fator mecânico aparente”, explica a médica ginecologista Carolina Malhone.
“A menopausa é um fator de risco para essa segunda situação, já que a queda dos níveis de estrogênio reduz o líquido sinovial — que funciona como lubrificante articular.”
Para aliviar o quadro, a fisioterapia e exercícios físicos foram incorporados ao dia a dia. “Se não consigo treinar, já sei que vou sentir dor. Por isso, tenho um kit no meu quarto com pesinhos e elásticos para fortalecer o corpo.”
O impacto da experiência despertou o interesse da atriz em ampliar a discussão sobre esse assunto. Afinal, se uma mulher com acesso à informação e cuidados médicos demorou a identificar os sinais, o que dizer de quem não tem os mesmos recursos?
De fato, uma pesquisa da farmacêutica Astellas realizada em 2025 revelou que 65% dos brasileiros consideram a menopausa um tema tabu, e muitos percebem falta de compreensão e conversas abertas sobre seus impactos.
“Assim como foi com a menstruação, temos que debater todos os caminhos para nos ajudar a lidar melhor com algo que faz parte do nosso feminino”, afirma Flávia. Não à toa, sua plataforma online de bem-estar, Meu Ritual, traz textos aprofundados sobre o tema. Nas redes sociais, ela compartilha suas vivências de forma acessível, equilibrando informação e acolhimento.
Apesar dos incômodos, a apresentadora não enxerga o momento como um declínio. Para ela, o desconforto está ligado à narrativa social que associa o fim do ciclo reprodutivo ao fim da vitalidade feminina.
“Antigamente, nosso papel era reproduzir e ponto. Se acabou minha fase fértil, acabou minha vida”, ressalta. “Também nos sentimos mal porque não nos estudam. A ciência tem os homens como parâmetro. Faltam estudos para o desenvolvimento de produtos e medicamentos que garantam nossa saúde física e mental.”
Por outro lado, esse atravessamento a levou a redefinir prioridades. Projetos, vínculos e o tempo dedicado ao autocuidado passaram a ser escolhas conscientes e inegociáveis.
“Vejo a maturidade como um novo começo. Acabou nossa vida reprodutiva, sim, mas podemos vislumbrar uma existência que não conseguimos imaginar quando temos 30 anos”, comenta.
“Aos 51, tenho mais consciência e liberdade. Posso me dar ao luxo de emendar uma personagem na outra e fazer duas novelas seguidas porque quero. Sei que a minha libido tem a ver com o tesão pelos planos que traço.”
Hoje, Flávia traduz essa fase como potência — não apesar da menopausa, mas também por causa dela. “Vou deixar de fazer coisas, mas em compensação vislumbro metade da minha vida de forma positiva e generosa.”
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