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“Como o não lugar sapatão na sociedade me fez um mulherão da porra”

Fundadora de uma startup que desenvolve soluções de diversidade LGBTQIA+ para empresas, Maira Reis rebate preconceitos com relacionamentos lésbicos

Por Maira Reis* - Atualizado em 26 ago 2020, 12h07 - Publicado em 29 ago 2020, 15h00

Imagine a seguinte cena: um homem heterossexual cisgênero está de mãos dadas com a sua namorada, que também é heterossexual cisgênera, e outro homem (aparentemente também heterossexual cisgênero) passa pelo casal na rua. Esse homem desconhecido está dentro de um carro em movimento e, abaixando o vidro, diz:

– Que delícia, hein… Deixa eu participar?

O namorado, com certeza, vai ficar enfurecido. Talvez xingue o cara dentro do carro – e este só vai acelerar o veículo e ir embora.

Agora, perguntas para você, mulher:

– Essa cena parece machista? Ou apenas sem noção?

– Será que você se sentiria invadida e pensaria ironicamente: ‘Que pessoa mais bacana, né? Afe!’

Essa cena já foi real para muitas mulheres sapatões ao andarem na rua de mãos dadas com a namorada, esposa e/ou ficante. Como um relacionamento lésbico exclui a necessidade de um homem, eles, infelizmente, insistem em se manterem presentes na pior forma: expondo não só seu machismo como lesbofobia.

Sabemos que vivemos em uma sociedade machista e misógina, mas quando falamos dos relacionamentos lésbicos temos, infelizmente, mais um degrau de preconceito a ser enfrentado e superado: a não aceitação que duas mulheres podem (e devem, caso queiram!) viver os seus prazeres, amores, sentimentos e relacionamentos da forma que as fazem felizes.

Permita-me, antes de tudo, abrir um parênteses importante aqui. Eu, Maira, autora desse texto, acredito que um relacionamento lésbico DEVE ter como base três pilares – e isso também pode ser levado para os demais tipos de relações amorosas ou sexuais humanas.

1. O relacionamento deve ser entre adultos e consensual para todas as envolvidas;

2. As regras para participar do relacionamento devem ser claras para todas as participantes. Por exemplo, todo mundo vai ser fiel e/ou todo mundo vai levar uma relação aberta ou que ainda que permite a participação de terceiros?;

3. Precisa ser gostoso, prazeroso e não trazer pepinos para a sua vida e nem da outra pessoa. Todo mundo tem problemas na vida e você não começa algo com alguém para ter mais problemas, como por exemplo, viver um relacionamento abusivo. Ou, pelo menos, não espera que isso aconteça!

Agora que eu dividi o que considero os pilares das relações, vamos voltar a nos focar nos desafios de um relacionamento lésbico.

O fato da gente excluir um homem do nosso prazer, das nossas vivências e da necessidade de subordinação traz algo mágico para esse tipo de relação: a não obrigação de sermos perfeitas. Para mim, pessoalmente, é até uma forma de revolução sociocultural. Inclusive, tem uma frase bem conhecida do mundo sapatão que é: sapatão é a revolução!

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Na maioria dos relacionamentos heterossexuais, há padrões, como em tudo na sociedade, ditando regras de como as pessoas devem seguir, viver e se comportar – por mais que esse relacionamento hétero seja “underground”, sempre há um padrãozinho nele. A começar pelas normas de gêneros, que basicamente estabelecem os papéis sexuais socialmente impostos sem muitos questionamentos. E que fique bem claro: meu posicionamento está falando sobre a maioria. Se você tem um relacionamento que foge totalmente ao que estou dizendo, você não é a regra, mas sim a exceção.

O relacionamento lésbico vai contra a tudo isso, a começar pelo questionamento de qual é a forma de prazer. Esses papéis impostos muitas vezes nem existem, principalmente se a gente começar a discutir a questão lésbica a partir de mulheres trans.

Trago aqui também a ausência da exigência de perfeição nas questões estéticas. Uma mulher sapatão masculina é tão linda quanto uma mulher sapatão feminina e, aqui, novamente, rompemos o estereótipo da expressão de gênero, ou seja, que mulheres são aquelas que usam cabelo longo e homens cabelos curtos, por exemplo.

A mulher sapatão é diversa, múltipla, cheia de cores e vivências. Temos uma gama de mulheres com jeitos, traços e personalidades plurais que faz com que cada uma seja mais linda que a outra. É maravilhoso poder admirar e se envolver com uma mulher pela beleza que vai muito além da física, mas pela conexão que há entre a gente de uma forma intensa e surreal.

Claro que há um tesão pessoal para um perfil de mulher lésbica ou para uma pluralidade de mulheres lésbicas, porém nada está definido em uma vivência lésbica em que ser diferente importa mais do que tudo.

Nessa maravilha foda, há outra “brincadeira lesbofóbica” que sempre ouvi foi: “Nossa, você se relaciona com lésbicas, então deve encarar TPM duas vezes por mês, né?”. Além de reduzir as mulheres ao estereótipo tenebroso e machista do que é a TPM, isso ignora o fator mais importante de todos: a gente se apoia tanto e nos entendemos como poucas pessoas conseguem nos compreender.

Um dos meus relacionamentos mais longos, de oito anos, foi o que mais me fez crescer e boa parte disso se deve à minha ex-noiva, que foi fundamental me apoiando e me suportando como nem a minha família fez para mim. Foi com ela que eu entendi o que é ser um mulherão da porra.

Não estou querendo dizer que homens, em relacionamentos héteros ou gays, não fazem isso com as pessoas que estão presentes ao seu lado. Mas sim que, dentro da minha vivência, as presenças das minhas namoradas, por piores que fossem os relacionamentos, me auxiliaram de forma única na minha construção, me levando por um caminho que muitas vezes ia totalmente contra o que a minha família e as regras sociais ditavam como benéfico para mim.

Eu realmente me senti parceira, namorada, noiva e muito mulher ao lado de cada uma que passou na minha vida – e sei que acontecerá também com aquelas que ainda passarão. Tem um bônus nisso tudo: eu me sinto extremamente segura para abrir o meu coração e falar sobre tudo isso em um artigo para a CLAUDIA, o que dificilmente faria em outros momentos da minha vida. Não estou dizendo que não vivenciamos problemas individualmente, por sermos lésbicas ou como casal. Não é nada disso. Eu vejo que talvez lidemos de uma forma diferente, muito nossa, em que não há um padrão e nem pressão para que eles se resolvam. Até porque não há uma “chefe da relação”, mas sim um compartilhamento de vivências. Somos responsáveis uma pela outra, dividindo cumplicidade e compreensão.

Veja bem, estou falando a partir da vivência dos meus relacionamentos, que me acrescentaram e fizeram sentido na minha vida. Pois também já tive relacionamentos abusivos e com mulheres extremamente egoístas e que só pensaram em si. Contudo, sou privilegiada de olhar para trás, analisando que vivi mais relacionamentos bons do que ruins e eles me fizeram entender que não ser o padrão é a coisa mais linda desse mundo e me construiu fortemente como mulher, lésbica, empreendedora, jornalista e ativista LGBTQIA+.

Sempre serei grata a essas mulheres lésbicas e bissexuais que fizeram parte da minha história. Por tudo isso, espero que nesse Dia da Visibilidade Lésbica, você, lésbica, sapatão, sinta orgulho não só da sua história e vivência como de todo mundo que você amou. E que o mundo seja mais respeitoso com o nosso amor.

//Acervo pessoal

*Maira Reis é jornalista, palestrante LGBT+ e fundadora da camaleao.co, uma startup que desenvolve soluções de diversidade LGBTQIA+ para empresas.

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