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O pesadelo piorou em home office e casos de assédio sexual aumentaram

A pesquisa, realizada pelo LinkedIn e pela Think Eva, entrevistou 381 mulheres de todo o país

Por Maria Clara Serpa (colaboradora) - 8 out 2020, 16h19

O assédio sexual no ambiente de trabalho era, até pouco tempo atrás, algo naturalizado. Passar por esse tipo de situação pode ser um dos grandes entraves para o desenvolvimento das mulheres em suas carreiras, especialmente, no mundo corporativo. Para entender melhor como está esse cenário atualmente, o LinkedIn se uniu à Think Eva, consultoria de inovação social, para realizar a pesquisa “O ciclo do assédio sexual nos ambientes profissionais” com mulheres de todo o Brasil e, assim, conseguir criar estratégias efetivas para combater o assédio no ambiente profissional online e offline.

O assédio sexual é definido por lei como o ato de “constranger alguém com o intuito de obter vantagem ou favorecimento sexual, prevalecendo-se o agente da sua condição de superior hierárquico ou ascendência inerentes ao exercício de emprego, cargo ou função” (Código Penal, art. 216-A). O resultado da pesquisa, que foi feita no início deste ano, antes da pandemia de Covid-19, com 381 mulheres usuárias de internet no Brasil, mostrou que mais de 95% das entrevistadas no estudo afirmam saber o que é assédio sexual no ambiente de trabalho e quase metade delas (47%) afirmou já ter sofrido alguma forma da violência em algum momento da vida profissional. 

Apesar de os números serem altos, apenas 51% falam com frequência sobre o tema. A maioria das vítimas (54%) são mulheres pretas com renda entre dois e três salários. Além disso, o Norte (63%) e o Centro-Oeste (55%) têm uma concentração de relatos superior às das outras regiões do país.

Diante deste contexto, olhar para o mercado de trabalho com uma lupa interseccional é fundamental para compreender a origem dessas violências. Historicamente, a população negra enfrenta os piores indicadores de empregabilidade no Brasil. A desigualdade social e de raça provoca uma maior suscetibilidade a trabalhos precarizados e, por consequência, à violação de direitos.

Assédio durante a pandemia

Com o início das medidas de distanciamento social e muita gente trabalhando em casa, acreditava-se que situações como essa se tornariam menos frequentes. Porém, a pesquisa mostrou que aconteceu exatamente o contrário. Com a migração do trabalho para o contexto online, o LinkedIn, que é a maior rede profissional do mundo, registrou um aumento de 55% no volume de conversas entre os usuários na plataforma de março de 2019 a março de 2020. Por se sentirem mais protegidos atrás da tela do computador, muitos homens enviam mensagens ou comentários contendo assédio para colegas de trabalho.

“Mais do que falar, queremos trazer a discussão para um nível de consciência e de quebra de um mercado profissional que pouco age em casos de denúncia. Temos como objetivo chamar lideranças empresariais e vozes relevantes nas redes sociais a assumirem um compromisso público e aberto de combate ao assédio no ambiente de trabalho, conclamando para a adoção de ações preventivas de contenção e proporcionando, assim, um ambiente mais seguro”, afirma Ana Plihal, executiva de soluções de talentos e líder do Comitê de Mulheres do LinkedIn Brasil.

O resultado mostrou também que uma entre seis mulheres que sofrem assédio no ambiente de trabalho pedem demissão e apenas 5% das entrevistadas recorre ao RH para reportar um caso. Além do medo de retaliação, do sentimento de culpa e do senso de impunidade, o entendimento sobre o que é o assédio também impossibilita que mais mulheres busquem justiça

Apesar do aumento das discussões sobre o assunto, a maioria das pessoas ainda acredita que assédio está associado apenas à violência física, e que comentários constrangedores, olhares ou toques indesejados não poderiam ser caracterizados assim. Entre as consequências do assédio relatadas, as vítimas afirmam sentir raiva e nojo, sentimentos seguidos pela sensação de impotência e humilhação. 

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“Com esta pesquisa inédita, fica claro que os ambientes profissionais ainda encontram dificuldades em assumir sua parte nessa mudança cultural. Ao fechar os olhos para este problema, reproduzem os mesmos comportamentos que, direta ou indiretamente, protegem o agressor e reforçam um cenário perverso em que ele, por sinal, é o único que não sai perdendo. A vítima é revitimizada e excluída do mercado, a própria empresa perde talentos e a diversidade de seu corpo de funcionários, e a comunidade segue vendo a violência ser perpetuada” , afirma Maíra Liguori, diretora de impacto da Think Eva.

O ciclo do assédio sexual no ambiente de trabalho acaba sendo prejudicial apenas para a vítima, que é silenciada e, muitas vezes, pode até perder chances de crescimento profissional devido a isso. O agressor, na maioria dos casos, segue impune, reproduzindo a violência cada vez mais. Por isso, a mudança estrutural é urgente, tanto para que os homens sejam penalizados, quando para que as mulheres se sintam mais encorajadas a denunciar.

Para isso, o LinkedIn e a Think Eva criaram uma campanha de educação para as empresas, cobrando que desenvolvam ações preventivas, assumam um posicionamento público anti-assédio, adotem um processo de denúncia claro, criem ouvidorias para acolhimento das vítimas e elaborem um protocolo de encaminhamento dos casos com a punição do agressor. A pesquisa completa está sendo divulgada nas redes sociais e está disponível no site da Think Eva.

Para combater o assédio online, o LinkedIn também criou, em sua ferramenta de denúncias, uma opção dedicada ao registro de casos de assédio, garantindo a segurança e privacidade da vítima.

Assista ao vídeo da campanha:

O que falta para termos mais mulheres eleitas na política

 

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