Rainer Cadete: “A produtividade me relaxa”

Rainer Cadete fez sucesso como o esfuziante Visky da novela Verdades Secretas. Repaginado, ele volta para a TV como o vilão sedutor na nova trama das 6. Na conversa com CLAUDIA, o brasiliense mostrou seu lado místico e outro centrado e planejador

“Eu não acredito que somos apenas isso aqui”, dispara Rainer, desviando o rumo da entrevista. E emenda: “Não somos só um corpo. Eu sou uma coisa maior, assim como todo mundo”. Aos 28 anos, o ator, que ficou conhecido ao interpretar o booker Visky na novela da Globo Verdades Secretas, diz que é por isso que não consegue entender comportamentos como a homofobia (seu personagem era gay) ou o racismo (sua ex-mulher e mãe de seu filho, a atriz e ex-bailarina do Faustão Aline Alves, é negra). “Acredito que a alma não tem cor ou orientação sexual.” O lado místico de Rainer (pronuncia-se “Ráiner”), nascido e criado em Samambaia, cidade-satélite de Brasília, ainda passa pela astrologia e por um ritual de gratidão nas noites de lua cheia. Engana-se, porém, quem pensa que ele faz o tipo “bicho-grilo”. Dedica-se com afinco ao trabalho e controla a ansiedade para alcançar seus objetivos.

Ao ser aprovado para o elenco de Verdades Secretas, papel que lhe renderia dois prêmios como melhor ator coadjuvante, aproveitou os três meses antes de as gravações começarem para estudar na Espanha. Escolheu o professor de interpretação Juan Carlos Corazza, que também deu aulas para o espanhol Javier Bardem (marido de Penélope Cruz). Não satisfeito, ainda contratou dois coaches na volta. “Não confio só em imagem e beleza. Gosto de interpretar personagens complexos e me desdobro até conseguir a maior verdade deles.”

Não que fosse um principiante. Pelo contrário. Em sua trajetória, esforço e dedicação parecem ocupar mais espaço que o acaso. Aos 9 anos, tomou as primeiras aulas de teatro. Com 12, quando sua mãe se casou com um italiano, morou por um ano e meio em Roma e aproveitou para fazer um curso de modelo. Então, teve mais certeza de que queria seguir o caminho artístico. Três anos depois, de volta a Brasília, estreava nos palcos da cidade e ganhava a vida com campanhas de publicidade. “Pensei: ‘Se quero atuar, preciso ir para o Rio’.” Foi assim que, aos 18 anos, ele se mudou para a capital carioca, onde se matriculou na renomada Casa das Artes de Laranjeiras. Também transferiu a vaga na faculdade de psicologia. “Cursei oito semestres pensando em me aprofundar nas estruturas psicológicas do ser humano. Mas sabia que não viveria daquilo: nas conversas, já me apresentava como ator.”

Seguiu-se uma rotina de demandas universitárias, trabalhos como figurante, testes para novelas, aulas de dança. “Nessa fase de perrengue, eu dormia quatro horas por noite.” Em uma agência de modelos, encontrou uma pesquisadora de elenco que o convidou para integrar a Oficina de Atores da Globo. O momento de vida conturbado foi interrompido por uma grata surpresa. Aos 20 anos, ele e a então namorada, Aline, descobriram-se “grávidos” de Pietro, hoje com 8 anos.

Em 2009, passou no teste para Caras e Bocas. A carreira na TV ia ganhando corpo, assim como nos palcos. “Sou bicho de teatro”, diz ele. Já montou Doroteia, de Nelson Rodrigues, e uma peça (com entrada gratuita) e mesa-redonda sobre Vinicius de Moraes, que virou material audiovisual distribuído para 30 mil crianças. Tudo idealizado e produzido por ele, que ainda atuou nos espetáculos. Energia não lhe falta. “A produtividade me relaxa.” O teatro também é um dos elos que estabeleceu com Pietro, que mora em Brasília. Quando vai visitá-lo, Rainer liga para a escola do menino e marca uma aula de teatro para a turma. “Adoro encenar com as crianças.”

Ainda assim, sofre com a relação distante. “Uma das coisas mais difíceis desta profissão é aprender a driblar a saudade. Você é meio cigano, cada hora está em um lugar. A saudade faz parte e dói. Mas sei que, para o meu filho, é melhor que eu seja um pai realizado, feliz e cumprindo minha vocação.” Com o próprio pai, a relação é recente – ele o conheceu em outubro. “Foram questões familiares. Não gosto de falar da ausência. Estou mais interessado em recuperar esse tempo perdido.”
Rainer também é econômico quando o assunto é a modelo e atriz Taianne Raveli, com quem assumiu o namoro em setembro. “Estamos felizes”, resume, sorrindo. E volta à carreira, agora contando sobre um novo passo: vai viver Celso na próxima novela das 6, Êta Mundo Bom, que estreia este mês. “É uma delícia ver que conquistei tudo o que quis”, diz, sereno. “Acho que é preciso planejar. E querer. Acredito que a gente sempre consegue o que quer. Quando descobrimos como o desejo tem poder, é como se fosse uma bruxaria forte, que torna a vida muito mais fácil.” Outra mágica, ele garante, é a alegria. “Achar ruim é um ponto de vista, mas qualquer coisa tem outros ângulos possíveis. Para qual deles você prefere olhar?”, provoca.