“Pode chorar, sim. Menino também chora”, diz Juliana Paes

Atriz conversou com CLAUDIA sobre sua visão a respeito da maternidade, os desafios de ser mãe, sua atuação nos trabalhos de 2017

À beira da piscina no Hotel Copacabana Palace, no Rio de Janeiro, Juliana Paes, protegia-se do vento forte com uma parka verde-militar e calça jeans. Apesar do céu nublado, a claridade intensa forçava o uso de óculos de sol – os dela, de armação grande e chamativa. Apesar do acessório, a atriz é discreta, mas não passa despercebida.

Foram inúmeros os fãs que se aproximaram (primeiro pedindo desculpas pela interrupção e, depois, uma foto). Entre eles, um francês que não falava uma única palavra de português, mas conseguiu fazê-la entender que era um admirador das novelas. O que entrega Juliana, mesmo que não se esforce para ser vista, é o sorriso largo e cativante, que ela não economiza.

Despachada, fala com sotaque carioca marcante e não mede as palavras. É sincera, simpática e, como boa ariana, tem opiniões fortes. Muito disso se reflete em suas personagens, entre elas algumas das protagonistas mais famosas da TV brasileira. Já se vão 16 anos desde que estreou como Ritinha, a empregada de Laços de Família que encantou o bon vivant vivido por Alexandre Borges.

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Então vieram Maya, a mulher que desafiou a própria cultura para ficar com o homem que amava em Caminho das Índias; e a mais recente versão de Gabriela, figura misteriosa criada por Jorge Amado. Para nossa sorte, em 2017, não há planos de desacelerar.

No dia 10 de janeiro, ela estreou como Zana, mãe dos gêmeos Yaqub e Omar na minissérie global Dois Irmãos, baseada na obra homônima de Milton Hatoum. Em abril, é a vez da novela À Flor da Pele, em que vive a mulher de um traficante. No segundo semestre, Juliana lança o remake do filme Dona Flor e Seus Dois Maridos, que protagoniza ao lado de Leandro Hassum e Marcelo Faria.

Prevendo a longa lista de temas que tínhamos para abordar, a atriz chamou o garçom e pediu um kir royal (drinque com champanhe e licor de cassis), dadinhos de tapioca, bolinhos de bacalhau e pastéis de camarão com Catupiry. “Pronto, agora podemos começar”, divertiu-se.

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 (Mariana Ribeiro/CLAUDIA)

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PRATO CHEIO

Já faz quase dois anos que Juliana voltou da viagem à Amazônia que fez para gravar Dois Irmãos. Ela saca o celular e mostra os belos cenários naturais de mata verde exuberante que serviram de locação. No meio das fotos, surge uma das pernas da atriz dentro de uma banheira.

“Tá vendo os roxos? Apareciam essas placas na minha pele. Era tudo psicológico; eu não batia em nada, mas esse trabalho exigiu muito de mim. Fiquei me remoendo”, conta. Assim como a personagem Zana, Juliana é mãe de dois meninos: Pedro, 6 anos, e Antônio, 3, frutos de seu relacionamento de 15 anos com o empresário Carlos Eduardo Baptista.

Na história do autor manauara, a mãe superprotege um dos filhos e deixa o outro partir para desbravar o mundo sozinho. “Eu me colocava no lugar dela e nem conseguia dormir”, lembra. Para a atriz, a minissérie vai levantar um tabu: se o amor de mãe pode ser diferente com cada um dos filhos.

Ela mesma acha que não, mas sabe que as relações mudam por causa de afinidades. “Tem sempre alguém com quem você se identifica mais, mas isso nas coisas cotidianas. O amor está acima de tudo, ele paira sobre nós”, explica.

A maternidade é um tema que desperta paixão em Juliana. Ser mãe sempre foi um sonho e desde pequena sabia que teria meninos. “Meu pai queria um homem e vim eu. Então, imaginava que daria a ele netos.” Há, para ela, uma missão em criá-los: “Tenho o compromisso de educá-los com a cabeça mais aberta e menos machista”. Para tal, compra muitas brigas com o marido, o pai e a família toda por causa de pequenos preconceitos instituídos.

“Repito incansavelmente para meus filhos que eles podem tudo, desde que não machuquem ninguém. Aí vem alguém e boicota meu esforço dizendo que menino não pode usar rosa ou não pode chorar. Já entro no meio. Pode chorar, sim. Há outras razões para afirmar que alguém não deve chorar – se for manha ou uma tentativa de evitar um castigo. Mas menino também chora”, fala com firmeza.

Ela se lembra de uma vez em que mandaram o mais velho parar de rebolar. Juliana não só repudiou a represália como começou a dançar com ele. “Não quero que a criatividade deles seja ceifada. Sei que a proibição é a razão de muitas das doenças de personalidade que os adultos enfrentam. Se depender de mim, vou mostrar todas as possibilidades a eles”, ressalta.

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 (Mariana Ribeiro/CLAUDIA)

MAIS CONFIANÇA

Foi, em parte, a maternidade que trouxe essa força toda à carioca. Segundo ela, depois do nascimento do primogênito, passou a se achar mais capaz, poderosa. “Eu pensava: ‘Comigo ninguém pode, eu dou conta. Não sei se vou acertar, mas vou tentar’. Tirava leite nos intervalos das preparações físicas para Meu Pedacinho de Chão, ainda chegava em casa e colocava o bebê para dormir”, lembra.

Aos 37 anos, ela garante que a visão sobre si mesma e sobre seu trabalho é outra. Hoje, se sente mais confiante e bonita. “Não é porque estou em forma ou algo assim, mas porque sei apreciar outras coisas. Em vez de ver a celulite, o cabelo que acorda ruim, a gordurinha que pula, enxergo como sou cheia de energia, divertida.”

Ela precisa mesmo de muita disposição para levar adiante os negócios assumidos paralelamente à carreira de atriz. Juliana tem, em parceria com a mãe e a irmã, uma rede de salões de beleza. Ainda cuida da linha de esmaltes e de perfumes que leva seu nome. Tudo isso exige dedicação, e ela faz questão de manter um padrão de qualidade: “Guardo recortes de papel com as cores que gosto para o esmalte, ligo mil vezes para o responsável”, entrega.

No ano passado, também assumiu o compromisso de ser embaixadora da Organização das Nações Unidas para assuntos relacionados à violência contra a mulher. Ao perceber a influência que tinha sobre o público feminino, especialmente as jovens, se ofereceu ao órgão para ajudar.

Hoje, faz posts em suas redes sociais esclarecendo o que é considerado violência e encorajando a denúncia por parte das vítimas. “Não entra na minha cabeça que a cada sete minutos tem uma mulher sendo agredida no Brasil. Evito questionar se meus esforços estão valendo a pena porque essa mudança é difícil de mensurar e leva tempo. Nosso desafio é continuar, insistir, persistir”, afirma.

Apesar de tantas iniciativas assumidas, Juliana ainda é, com maior frequência, destacada pelo corpo bonito. Vira notícia quando sai sem maquiagem ou vai à praia de biquíni. “Fico preocupada. Será que é só isso que importa? Não me incomoda ser fotografada de rosto lavado, mas sim a relevância que o fato ganha.”

Nessa era de tanto destaque para a imagem, uma foto sua maquiada postada nas redes sociais recebe pelo menos 60% a mais de curtidas do que um post sobre temas profundos. “É fácil consumir beleza. Mas também não acredito em manter a seriedade o tempo todo. Acho que temos que ir comendo pelas beiradas, ensinando aos poucos, com amor. Sei que, mesmo que uma seguidora não curta o post sobre violência, ela vai ler e pensar um pouco naquilo”, conta.

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 (Mariana Ribeiro/CLAUDIA)

PLANOS A TODO VAPOR

Outra ferramenta que tem poder social semelhante é a novela, especialmente aquelas escritas por Glória Perez, como será À Flor da Pele. Na trama, que trata de três romances, Juliana vive Bibi. A personagem é inspirada em Fabiana Escobar, mulher de Saulo de Sá Silva, traficante da favela da Rocinha, que ficou conhecida como a Baronesa do Pó.

“Ela não é bandida nem vilã, mas uma mulher apaixonada. A novela faz uma reflexão sobre amar alguém mesmo se as ações dessa pessoa forem contra seus ideais de honestidade e caráter”, afirma. Para a atriz, a história tem tudo a ver com o momento polêmico do país.

No rol de personagens do sonhos, aquelas que ainda planeja interpretar, estão só mulheres fortes, que sozinhas se transformaram em grandes figuras: “Dercy Gonçalves, Elke Maravilha… Elas me encantam. Tenho curiosidade por saber de onde vieram e como foi a construção das personas em que se transformaram”, diz Juliana.

De certa forma, a atriz também seguiu um roteiro pessoal de conquistas próprias: aos 20 anos, cursando faculdade de publicidade na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), no Rio de Janeiro, correu atrás de oportunidades para atuar e conquistou um lugar na maior emissora do país.

“Precisei me inventar sozinha. Não venho de família de artistas e não tive ninguém para me mostrar o caminho das pedras”, afirma. Sua intuição, avalia, foi essencial para conquistar o que desejava. “É uma voz ancestral que, quanto mais usamos, mais afiada fica. Todas as vezes em que confiei no meu feeling, acertei.”

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