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Na companhia da arte, Zezé Motta aprende a lidar com o luto e a solidão

Na televisão e no cinema, Zezé Motta abriu passagem para uma nova geração; agora, sonha com novos projetos como atriz e cantora

Por Letícia Paiva - Atualizado em 12 ago 2020, 14h49 - Publicado em 14 ago 2020, 10h00

É lei extraoficial, mas diz que o ano só começa depois que o Carnaval termina. Os planos da cantora e atriz Zezé Motta, 76 anos, incluíam, depois do fim da festa popular, continuar as turnês de O Samba Mandou Me Chamar, seu décimo álbum-solo e o primeiro com repertório inteiro no gênero, e de Divina Saudade, show em homenagem à cantora Elizeth Cardoso. “Eu já me despedi desse espetáculo várias vezes, mas acabo voltando para mais um ano”, conta Zezé, que em julho realizou o tributo ao vivo, com transmissão pela internet. O palco era a sala de seu apartamento, no Leme, zona sul carioca, onde ela tem passado esses meses. Há oito anos, ela se mudou para o endereço, que conta com o detalhe charmoso de ter sido lar da escritora Clarice Lispector.

“Estou vivendo algo único na minha vida, morar sozinha. É ruim fazer as refeições só ou não ter com quem conversar antes de dormir, mas estou aprendendo”, afirma Zezé, que, para lidar com a solidão, algo que ela sempre disse detestar, adotou as sessões de análise online. Na infância, estudou por seis anos em um colégio interno, onde vivia colada a outras dezenas de garotas; depois morou com a família, com amigos do teatro – vários deles ilustres, como Wolf Maya, Marco Nanini e Lucélia Santos –, parceiros românticos e as quatro filhas. A quarentena foi o ponto de virada, e estar sozinha se tornou obrigatório.

“Nesse período, tive várias fases: primeiro de tédio, mas, assim que senti que poderia se transformar em depressão, fui tratar; depois de insônia, em que só conseguia cochilar quando já estava quase amanhecendo e não tinha vontade de nada. Agora, tudo está se acalmando”, diz a atriz sobre este ano, que foi de luto para ela. Em janeiro, perdeu um sobrinho, Luis Antonio, e, em maio, após um mês confinada para se proteger da pandemia, a mãe, Maria Elazir, aos 95 anos. “Foi horrível, porque eu não pude me despedir. Ao mesmo tempo, estava com muito medo de perder meu irmão, Romilton, que ficou internado por um mês com Covid-19”, revela a artista.

“Nesses meses, tive várias fases: primeiro de tédio, depois de insônia, quando não tinha vontade de nada. Agora, tudo está se acalmando”

Zezé Motta

 

Na juventude, Maria Elazir era a melhor amiga de Maria José, nome de batismo de Zezé. Segundo ela, a única divergência entre as duas se deu por causa de religião, pois a mãe era Testemunha de Jeová. “Cheguei a ser batizada, mas depois fui me empolgando com a arte e não combinava. Imagina, tinha que comparecer ao local todos os domingos, dia de teatro. Ao longo da vida, me aproximei do kardecismo, frequentei o Santo Daime e o candomblé. Já fui uma kardecista que tinha mãe de santo”, conta, rindo. No começo, Maria Elazir dizia que Zezé estava mais interessada em fazer sucesso e que isso não a levaria à salvação, mas acabou se rendendo aos talentos da filha. Recentemente, ela não se continha e pedia a Zezé que diminuísse o ritmo. “Falava que já era hora de eu parar de trabalhar tanto e começava a se despedir de nós. Comprou um mausoléu para 15 pessoas, mas eu disse que passasse a minha vaga, porque eu quero ser cremada”, lembra a artista, que pensa em se reinventar, dirigir mais shows intimistas. “Talvez eu continue cantando e atuando aos 80, 85 anos em diante, mas quero estar na arte também de outros modos.”

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Na sala de seu apartamento no Rio de Janeiro, Zezé Motta fez apresentação online com repertório homenageando Elizeth Cardoso Julia Lego/CLAUDIA

Em 2003, Zezé gravou um curta-metragem sobre a escritora Carolina Maria de Jesus, dirigido por Jeferson De, que lhe rendeu novas ideias. “Fiquei tão impressionada com essa personagem que cheguei a literalmente sonhar em levar a vida dela para o cinema. A vontade durou algum tempo e depois acabou passando”, conta. Mas agora, com a principal obra da escritora, Quarto do Despejo: Diário de uma Favelada, completando 60 anos de publicação e sendo redescoberta pelos leitores brasileiros mais jovens, o desejo pode se concretizar.

Além da necessidade de saciar o fervor da veia artística, Zezé precisou emendar um trabalho no outro para continuar se sustentando – ela nunca teve contrato fixo a longo prazo e, como disse em um dos poucos comerciais que fez, a fama não necessariamente traz grana, mas dá para comprar umas cervejas. “Eu tenho a impressão de que não me convidavam para publicidade, mesmo quando eu estava no ar ou dando entrevistas todos os dias, por causa do meu posicionamento em relação à questão racial no Brasil. Uma vez, gravei uma propaganda para uma loja de tecidos que foi descartada porque alguém alegou que os clientes de classe média não aceitariam sugestão de uma negra”, afirma. Desde o início na carreira de atriz, ela teve que admitir que vivia em um país desigual, e isso atravessaria seu trabalho. A estreia nos palcos foi na primeira montagem de Roda Viva (1968), com texto de Chico Buarque e direção de Zé Celso Martinez, marcada por ter sido alvo de censura institucional e ataques de grupos de extrema direita em pleno regime militar. “Continuamos nos apresentado mesmo após termos o camarim invadido. Já comecei apanhando”, diz ela sobre a passagem, que escancarou que seria difícil ser artista no Brasil.

“No atual governo, às vezes eu fico muito assustada, porque tenho a sensação de estarmos dando alguns passos pra trás. É uma frustração do tamanho do mundo”, afirma. Um dos retrocessos que mais teme é a perda do espaço ocupado pelos negros nas artes, conquistado a duras penas. “Antes, o racismo era mais velado; agora ele é denunciado nas redes sociais por uma nova geração, mas os brancos racistas não toleram disputar lugares.” A temática do preconceito permeou grande parte de seu trabalho, principalmente após explodir como protagonista no filme Xica da Silva (1977), de Cacá Diegues.

Conhecida no Brasil pela repetição de sua história, transmitida oralmente de uma geração para outra, Xica da Silva era uma escrava alforriada que se alçou à alta sociedade. “Fui criticada também dentro do movimento negro pela sexualidade que a personagem imprimia. Nessa época, eu ainda não tinha um discurso articulado sobre o racismo. Por isso, fui procurar Lélia Gonzalez”, lembra. A antropóloga, referência do feminismo negro brasileiro, é saudada por Zezé como “guru, amiga e irmã”. Para a atriz, foi a intelectual que a impulsionou a lutar contra a discriminação, e não a sofrer por ela. “Ela dizia: ‘Não temos mais tempo para lamúrias, precisamos arregaçar as mangas e virar esse jogo’.”

Com isso em mente, após o lançamento de Xica da Silva, Zezé não aceitou um papel para uma série de televisão em que serviria doces e salgadinhos em uma festa. “Falaram que eu poderia estar fechando uma porta, mas eu nem me dei ao trabalho de sair de casa e recusei pelo telefone”, conta. Em novelas, interpretaria várias empregadas domésticas e escravas – e só nesses papéis encontrava outros atores negros. “O que incomoda é o fato de que antigamente a doméstica vivia a reboque dos personagens brancos, não tinha vida própria. Agora que as coisas mudaram, chamam atrizes brancas para ser empregadas, mas elas acabam casando com o patrão”, diz.

Ela se diverte ao lembrar de uma das empregadas favoritas que interpretou, Dorinha, de Transas e Caretas (1984). A personagem tinha affairs com dois irmãos, representados por José Wilker e Reginaldo Faria. “Com um era só sexo e com o outro namoro”, recorda. Falando em romance, Zezé, que foi casada cinco vezes e viveu muitas outras aventuras, tem um plano específico pós-pandemia. “Quero um encontro afetivo. Não tenho mais paciência para coisas passageiras. O ideal é ter um parceiro, mas cada um na sua casa.”

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