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Mulheres quebram o jejum feminino no sertanejo

Estouradas nas paradas de sucesso Simone e Simaria, Maiara e Maraisa e a cantora Marília Mendonça conversaram com CLAUDIA nos bastidores de suas turnês

Por Isabella D'Ercole - Atualizado em 17 abr 2018, 16h37 - Publicado em 24 nov 2017, 09h27

Com breves intervalos, choveu por mais de 24 horas em Porto Alegre. Mas nem o vento gelado, nem os pingos grossos, nem as ruas alagadas esvaziaram a Oktoberfest de Canoas, na região metropolitana da capital gaúcha. Trinta mil pessoas se reuniam sob uma tenda, que cobria só metade da plateia, esperando a dupla sertaneja Simone e Simaria, a grande atração da noite. Hospedadas em um hotel a dez minutos dali, as duas também estavam ansiosas.

Simone e Simaria dupla nos bastidores antes do show na Oktoberfest Fernanda Frazão/CLAUDIA

Era o primeiro compromisso da semana, em uma quarta-feira, véspera do feriado de Nossa Senhora Aparecida. “Agora vamos direto até domingo. Tem Paraná, depois Mato Grosso e outros mais”, disse, entre bocejos, Simaria Mendes Rocha, 35 anos. Ao telefone, resolvia pendências da família, que fica em Goiânia. Ela só voltaria para casa na madrugada da segunda.

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Simaria fazendo inalação Fernanda Frazão/CLAUDIA

Para a rotina funcionar, a estrutura e a equipe precisam estar afinadas. É um cronograma cansativo, com duas bandas, que se alternam, viajando de ônibus e avião para diferentes cantos do Brasil. Campeãs em audiência nas rádios, as irmãs de Uibaí, no interior da Bahia, se acostumaram ao ritmo intenso, mas não se deslumbraram com a fama. Talvez porque a trajetória para chegar àquele quarto de hotel cheio de mordomias, onde as encontramos, tenha sido bastante sofrida.

Por anos, o pai delas, já falecido, trabalhou como garimpeiro e a mãe lavando roupas no rio. Ainda adolescentes, conseguiram um trabalho como backing vocals do cantor de forró Frank Aguiar. “Meu sonho era ter um banheiro maravilhoso, com boxe. Eu tinha aflição de tomar banho na casa da minha avó porque não havia nem cortina, ficava aquela molhadeira”, revela Simaria. “Hoje, quando entro no meu banheiro, agradeço.”

Demorou para o dinheiro da música chegar. Nas piores fases, pensaram em desistir e se separaram. Voltaram a se reunir em Fortaleza para participar de uma banda de forró. “Eram 20, 30 mil pessoas nos assistindo, uma visão maravilhosa. Mas eu não me esqueço das noites carregando instrumentos, com a voz rouca depois de cantar porque o sistema de som do lugar não era bom…”, lembra Simone Mendes Rocha, 33 anos.

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Simone retocando a maquiagem Fernanda Frazão/CLAUDIA

Durante um voo, há três anos, Simaria teve um sonho. “Foi uma mensagem de Deus de que deveríamos deixar o forró e partir para o sertanejo.” Ótima estrategista, em 15 dias ela montou toda a produção do DVD Bar das Coleguinhas, que as tornou conhecidas – e rapidamente famosas – no país todo. O preço é alto. “As pessoas, até as mais próximas, acham que você é uma máquina. Não sou. E tenho meus filhos”, diz Simaria, mãe de Giovanna, 4 anos, e Pawel, 1. “Eles são prioridade. Mas aí o show já está fechado, fãs esperando… Fazer o quê? Eu sigo. A cabeça longe, aquela angústia. Boto os cílios e canto, linda, dilacerada por dentro”, desabafa.

Já no camarim, tudo isso parece sumir. Simone faz piadas, conta histórias do filho, Henry, 3 anos, enquanto come um prato de salada com frango. Elas têm meia hora para se trocar antes de os fãs entrarem para fotos. Há quem chore, leve presente, peça para gravar um vídeo para o pai ou a mãe. Tudo controlado com mão de ferro pela assistente, Patrícia. Ela resiste aos olhares mais suplicantes. Na hora do show, Patrícia conduz Simone e Simaria ao palco, pontualmente. Lá em cima, diante da multidão, a dupla se transforma. Nem sinal dos bocejos de Simaria, que canta e pula mesmo usando salto agulha altíssimo, comandando as brincadeiras do púbico.

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Simone mostrando o disfarce usado quando foi comprar um vestido em São Paulo Fernanda Frazão/CLAUDIA

As canções, algumas que elas mesmas compõem, relatam paixões, términos, traições e relacionamentos que só existem dentro de motéis. Anos atrás, quando o gênero era dominado por Chitãozinho & Xororó e Zezé Di Camargo & Luciano, parecia impossível que a voz feminina viesse a narrar episódios de volúpia e sedução. Mas a fase é outra. Hoje, mais livres no amor e no sexo, as mulheres também lideram o sertanejo. Juntas, fazem as maiores bilheterias, batem todos os recordes de audiência e acumulam seguidores na internet. No YouTube de Simone e Simaria, as visualizações já passam de 1 bilhão. Não que elas briguem com os meninos do showbiz, mas sabem que foi um espaço difícil de conseguir. “Antigamente a mulher era obrigada a ficar casada com um homem mesmo sendo infeliz. Agora tem seu dinheiro, independência e quer ouvir algo que reflita isso”, resume Simaria, casada há sete anos com um empresário de outro ramo. “O que conquista as pessoas é a verdade que passamos e nosso jeito despachado de falar, que não censura”, completa a irmã. Depois de uma hora e meia de show, elas descem do palco cheias de adrenalina. Recebem mais fãs no camarim antes de seguir para a van, onde se enrolam em cobertores e vão em silêncio até o hotel. Já passa das 2 e meia da manhã e o próximo voo sai às 10.

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Simaria comanda o público na Oktoberfest de Canoas (RS) com empolgação, mesmo sob chuva e frio Fernanda Frazão/CLAUDIA

Demorei para chegar aqui

Não que ela tenha medo de avião, mas os jatinhos alugados para as viagens tiram o sono da cantora Maiara Pereira, 29 anos, que faz dupla com sua irmã gêmea, Maraisa Pereira. Quando tem dobradinha, é pior ainda. O termo é usado para as noites em que as artistas engatam mais de um espetáculo, às vezes em dois estados, justamente o que estava programado para aquela noite. Elas sairiam de Caxias do Sul (RS) e iriam para Maringá (PR). O esquema, já estressante, complicou quando se confirmou a previsão do tempo anunciada fazia dias, a falta de teto para decolar. Precisariam pegar um carro até Porto Alegre, de onde voariam. O nervosismo transparecia no rosto de Maiara enquanto ela tirava fotos com os fãs que aguardavam no lobby do hotel. De quarta a domingo, a dupla faria oito shows, a médias delas. “Nosso máximo foi 11. Eu me acostumei, gosto. Às vezes tem um show só, e eu fico perdida com tanto tempo livre”, diverte-se.

O esforço é para manter o espaço conquistado a duras penas. Formadas em música, as mato-grossenses foram recusadas muitas vezes por escritórios que administram a carreira de artistas com justificativas absurdas. “Ouvíamos que mulher não faz sucesso porque menstrua. Davam a desculpa de que o público não se identificaria com as nossas canções, que falam de bebida e balada”, lembra Maiara. “Eu sempre rebati: ‘Engraçado, com os homens é diferente, né?’.”

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Então, como não podiam cantar, compunham para os homens, como foi o caso de Prisão sem Grade, interpretada por Jorge e Mateus. “Vimos alguns sucessos estourarem na boca deles porque havia esse preconceito do mercado. A arte é um reflexo da sociedade, e as mulheres já estavam ocupando todos os espaços. O sertanejo precisou entender isso”, explica Maiara. Era questão de tempo. “Quando uma ficasse famosa, abriria a porta para todas as outras. A gente brinca que é uma revolução”, diz Maraisa, listando nomes de meninas que são as grandes promessas do gênero.

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O show de Maiara e Maraisa é recheado de pirotecnia Fernanda Frazão/CLAUDIA

As gêmeas furaram a bolha há pouco mais de dois anos e, desde então, só tiraram dez dias de férias. Com a goiana Marília Mendonça, 22 anos, rodam o país com a Festa das Patroas, festival que reúne as duas atrações. São elas que têm o controle da agenda. Raramente recusam apresentações e não reclamam da rotina abarrotada. “Só nós duas temos 42 funcionários. Na dobradinha, o dinheiro do segundo show é quase todo usado para pagar a estrutura. Então, não chega ao nosso bolso, mas eles ganham mais. Além disso, é bom fazer várias apresentações, precisamos ficar na boca do povo para nos manter entre os dez artistas mais ouvidos do Brasil”, explica Maiara.

O maior hit das duas, 10%, relata uma noite de bebedeira após um término. O público canta o refrão: “Garçom, troca o DVD que essa moda me faz sofrer e o coração não ‘guenta’. Desse jeito você me desmonta, cada dose cai na conta e os 10% aumentam”. Enquanto isso, uma chuva de papel brilhante é derramada no palco.

O foco nos espetáculos deixa o corpo e a mente cansados. A garganta de Maiara dói, inflama com facilidade. Em alguns momentos, as meninas são acompanhadas por um psicólogo. “Eu sou muito ansiosa, mas tento levar tudo na brincadeira. Se a gente não se divertir, não dá para continuar”, afirma Maiara, bebendo um gole de suplemento alimentar sabor chocolate, aquecido no micro-ondas do camarim. “Estamos pensando no futuro”, interrompe Maraisa. “Agora não dá para aproveitar o que conquistamos, mas daqui a uns dez anos, na hora que Deus quiser, vamos diminuir o ritmo e lembrar, felizes, do que passou.”

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No camarim de Maiara e Maraisa, imagens de Nossa Senhora Aparecida, presentes das fãs Fernanda Frazão/CLAUDIA

A voz da mulher

“Quem aqui já tomou chifre?”, grita Marília para a plateia. Conhecida como a rainha da sofrência, ela faz uma hora e meia de show falando das tristezas vividas no amor. “As coisas não deram muito certo para mim até hoje”, justifica com um sorrisão no rosto. Boa ouvinte, como se define, também se inspira nas histórias contadas pelas amigas da mãe e das tias. A habilidade para a composição foi o que a introduziu no sertanejo. Como em muitos casos, ela escrevia e os homens cantavam. “Nunca quis ser princesinha, só mostrar meus sentimentos, que são os mesmos de muitas mulheres.” Então, colocava a dor feminina nas canções. “Em Cuida Bem Dela, minha favorita, mostro como os homens deveriam se comportar, valorizando a parceira”, explica sobre o sucesso que explodiu nas vozes de Henrique e Juliano.

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Nos bastidores do “Show das Patroas”, animação e risadas de Marília Mendonça com a equipe Fernanda Frazão/CLAUDIA

Apesar da liberdade que suas letras revelam e da boa voz, Marília tinha medo de se arriscar na carreira de cantora. “Cheguei para o meu empresário, envergonhada, com uma música polêmica, que falava sobre ser amante. ‘Essa é a sacada. Continua nesse caminho’, ele me disse quando eu acabei de cantar.” A aceitação do mercado foi mais fácil para Marília do que para mulheres como a rainha sertaneja, Roberta Miranda, que gravou o primeiro disco em 1986, mas demorou a ter autonomia na carreira. Apesar de ter sido xingada de vagabunda e de ter ouvido que fazia canções de prostituta, Marília logo se impôs. Ela encabeçou as paradas de sucesso em 2016 e 2017, quando lançou o segundo DVD, Realidade – Ao Vivo em Manaus.

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O copo que marca a Festa das Patroas Fernanda Frazão/CLAUDIA

A solidão às vezes bate na estrada. O novo companheiro de Marília é um diário com cadeado comprado no shopping de Caxias do Sul antes da apresentação. Dali vão sair outros sucessos, com certeza. No tempo livre, ela gosta de ler ou de ir para sua chácara, em Goiânia, que, como descreve, é bem isoladinha. “Posso escutar música alta sem os vizinhos reclamando”, diz, orgulhosa.

Também aproveita para saborear a comida da mãe à beira da piscina. “Ela faz xambari, uma carne de osso num caldo, macarrão, panqueca e frango caipira. Chego para um banquete”, diverte-se. Por causa disso, não se acostumou à comida dos hotéis, acha tudo sem tempero e acaba recorrendo a pizza ou lanches. É o pior lado da fama? “Não, a cobrança é de longe o mais chato. As pessoas acham que a gente é perfeita, não pode espairecer, ter uma noite de bebedeira, beijar alguém. Eu sou humana também. Fico com fome, sono, saudade de casa, carente. Cada dia entendo mais que realizar meu sonho de cantar no palco tem sua cruz.”

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Os fãs de Marília seguram cartazes pedindo abraços e fotos com a cantora Fernanda Frazão/CLAUDIA

 

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