Marco Antonio de Biaggi: “Estou vivo porque nunca parei de sonhar”

Após um câncer, um período em coma e outro de alucinações, o “cabeleireiro das famosas” volta com novidades

Não dá para ouvir a lista de problemas enfrentados por Marco Antonio de Biaggi, 50 anos, sem perguntar como ele sobreviveu. Diagnosticado em 2015 com um tumor no sistema linfático, doença que destrói as defesas do organismo, o mais famoso cabeleireiro do país encarou cinco sessões de quimioterapia.

Uma falta de ar o devolveu ao hospital, onde se constatou uma infecção pulmonar severa. Precisou, então, ser socorrido por um aparelho que funciona como um pulmão externo. Na internação, outro susto: uma lesão na artéria coronária esquerda exigiu uma cirurgia cardíaca. Biaggi alternou o coma absoluto com períodos de alucinação, devido ao excesso de remédios. Foram 145 dias no hospital.

Ele começou a recobrar a consciência em setembro do ano passado. Quando acordou, estava 37 quilos mais magro, com as pernas atrofiadas e respirando graças a uma traqueostomia.

Em fevereiro, cumprindo uma agenda pesada de tratamentos, medicamentos e fisioterapia, o profissional conhecido pelos looks de capas de revista voltou, em doses homeopáticas e ajudado por um andador, a dar expediente no seu salão de beleza, o MG Hair, em área nobre da capital paulista. Só em julho, porém, as idas ao trabalho tornaram-se diárias. Biaggi ainda está administrando o que aprendeu no limite da morte.

Recebeu CLAUDIA para falar dessas lembranças. As dolorosas, de seu calvário, mas também as engraçadas e inspiradoras, contadas em sua biografia, A Beleza da Vida (R$ 36,90), que chegou às livrarias este mês. Leva a assinatura do jornalista João Batista Jr., de VEJA SÃO PAULO, publicada pela Abril, que também edita o livro. Nossa conversa com Biaggi:

CLAUDIA: Como foi o retorno ao trabalho?

Marco Antonio de Biaggi: Emocionante. Fiquei inseguro sobre voltar com o andador, mas precisava estar no salão para fazer a energia se movimentar. Um guru me aconselhou. Acho que eu tinha de ouvir isso de alguém que não fosse médico.

CLAUDIA: Como você corta cabelo se ainda não pode permanecer de pé?

Biaggi: Fico na cadeira que seria da cliente e ela num pufe. Peço desculpas porque as costas dela devem doer. As que são fiéis dizem que não se importam e brincam que cortariam cabelo comigo até de ponta-cabeça. Comecei atendendo uma por dia; agora consigo dar conta de três. Meu objetivo é voltar a 20, como antes.

CLAUDIA: Os médicos deram esperança a você sobre voltar a andar?

Biaggi: Com fisioterapia diária, volto a andar daqui a seis meses com bengala. Se chegar a esse ponto, já acharei ótimo.

CLAUDIA: Você se lembra de algo ocorrido nos 145 dias de internação?

Biaggi: Apenas de alguns relances. Quando entrei em coma, estava careca e sem sobrancelhas devido à quimioterapia. Acordei e tinha crescido tudo de novo. Eu me vi cadavérico, minhas pernas eram só osso. Tentei levantar o braço e parecia que havia dois paralelepípedos em cima, de tão pesado. Também lembro que sentia uma sede mortal.

Molhavam gaze e me davam gotinhas, pois, se bebesse normalmente, poderia ter água entrando no pulmão. Queria copos, litros de água gelada. Naquele momento, daria o império de beleza que construí por um copo de água gelada. Depois fiz amizade com as enfermeiras e elas me ofereciam água às escondidas, numa seringa pequena. Sempre tive certeza absoluta de que tudo ia dar certo; sou muito otimista.

CLAUDIA: Deve ter demorado bastante até você conseguir se mover sem ajuda.

Biaggi: No começo, precisava de quatro a cinco homens para me levantar e colocar na cadeira higiênica em que tomava banho. Depois de meses sendo higienizado na cama, fiquei emocionado quando me colocaram no chuveiro e a água quente caiu sobre mim. Gritei: “Obrigado, meu Deus!”.

CLAUDIA: Houve outras sequelas além da dificuldade de andar?

Biaggi: O mais doloroso foi uma escara, ferida que surgiu porque o corpo ficou muito tempo na mesma posição na cama do hospital. Ela ficava na região do cóccix, tinha 13 centímetros de comprimento e 8 de profundidade. Dava para ver o osso e era preciso fazer curativo diário, que consistia em raspagem com bisturi, desbastando a pele. Demorou muito para sarar. Imagine a dor!

CLAUDIA: Para você, que trabalha com beleza, perder o cabelo foi muito difícil?

Biaggi: No começo do tratamento, ia para a quimioterapia e fazia aquela algazarra, pedia pizza… Como se fosse apenas mais um medicamento. Tinha sido alertado de que, lá pelo 14º dia, meu cabelo cairia, e assim foi. Acordei, e a fronha estava cheia de fios. Pedi a meu pai para ir ao barbeiro dele e raspei tudo. Fiquei igual ao Kojak, 100% careca. Mas ainda estava bonitão; o pior não havia chegado: logo minha pele ficou verde como a de um extraterrestre.

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CLAUDIA: No começo, você negou que estivesse com câncer. Por quê?

Biaggi: Eu tinha um contrato milionário com uma empresa de cosméticos. Não fazia ideia do que podia acontecer se eles viessem a saber. Também fiquei com medo do que as pessoas falariam de mim. Daí inventei que a careca era por causa de uma promessa, pois meu pai havia feito uma cirurgia. Depois, como fui internado e passei bastante tempo no hospital, não pude mais esconder.

Contar tudo em uma entrevista à revista VEJA SÃO PAULO, como fiz mais tarde, foi libertador. Mesmo doente, virei a capa da revista. Hoje, passo pelos lugares e me sinto amado. Antes eu era “o cabeleireiro das famosas”. Agora o amor é pela pessoa que eu sou. Ouço homens, mulheres, jovens e idosos contando que rezaram por mim e me adoram.

CLAUDIA: Você acredita que seus problemas de saúde tiveram alguma causa sobrenatural?

Biaggi: Acho, sim. Inveja existe. É bíblica! Li em um livro que a inveja é que nem serpente: só ataca quem está do lado. Não é o concorrente lá no shopping; é quem está debaixo do seu teto.

CLAUDIA: Você se refere a alguém específico?

Biaggi: Talvez a mais de uma pessoa, mas não quero dizer por medo de julgar. No fim, acho que fui um escolhido de Deus, porque hoje posso passar uma mensagem positiva a quem está enfrentando o mesmo que eu. Sou uma loucura nas redes sociais. Tenho 3 milhões de seguidores somando os perfis, e minha história pode inspirar a luta de muitas famílias.

CLAUDIA: Acha que saiu mais forte dessa?

Biaggi: Muito mais! Passar por isso mudou meus valores. Antes, meu sonho era ter um grande apartamento no Rio de Janeiro. Se possível, como o da socialite Narcisa [Tamborindeguy], e frequentar a piscina do Copacabana Palace, tomar café, envelhecer lá. Agora, eu quero mesmo é ficar na melhor suíte do hotel, porque adoro luxo e conforto.

CLAUDIA: Mas isso não é exatamente uma mudança de valores…

Biaggi: É verdade. O que quero dizer é que antes eu pretendia acumular patrimônio. Trabalhar mais e mais para me manter no topo. Virei vítima da fama, sem dia certo para mim ou a família. Hoje entendo que preciso desfrutar das coisas que conquistei.

CLAUDIA: O que é ser vítima da fama?

Biaggi: Abri o salão e, primeiro, precisava trabalhar mais para dar conta do aluguel. Depois para pagar sócia. Daí vieram as capas de revistas, que muitas vezes são feitas em fins de semana e feriados. Mais trabalho. Quando vi, 15 anos haviam corrido. Eu chegando em casa cada vez mais tarde e deixando de curtir o minestrone da minha mãe, a companhia dos que me amam.

Você entra numa roda-viva e não sabe mais quem é. Tenho um apartamento dúplex com vista para a Avenida Paulista em que nunca dormi, pois não gosto de ficar longe dos meus pais, com quem ainda moro. São algemas de ouro: pago condomínio caríssimo e não consigo aceitar a ideia de vender o imóvel.

CLAUDIA: Sua ausência teve que impacto no movimento do salão?

Biaggi: Houve uma queda, claro, mas de apenas 4%. Durante minha internação, contratamos uma moça para cuidar das redes sociais. Ela postava fotos antigas ou de famosas que vinham aqui mesmo sem eu estar. Meu número de seguidores no Instagram até aumentou – e eu em coma!

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CLAUDIA: A doença amenizou alguma trégua com rivais como Wanderley Nunes, Celso Kamura e Mauro Freire?

Biaggi: Wanderley foi uma grande surpresa. Ele procurou minha irmã e se ofereceu para atender minhas clientes uma vez por semana e deixar a féria desse trabalho para o salão. Ela agradeceu, mas disse que não era necessário. Com o Mauro, nunca tive muito contato na verdade.

O Marcos Proença me mandou uma mensagem muito bonita pelo WhatsApp. Celso Kamura jamais ligou. Na minha geração, existia rivalidade. Nesta nova, os cabeleireiros que ficaram muito famosos com a internet são mais unidos. Picuinha é coisa do passado. Agora, dondoca que vira dona de salão, essa é que não tem escrúpulos. Tira profissional dos outros oferecendo viagens e porcentagens mais altas só para desestabilizar os concorrentes.

CLAUDIA: Sua biografia tem muitas histórias saborosas, como a noitada com Roberta Close.

Biaggi: Ah, sim. Fomos para Búzios fazer o ensaio dela, que posou para a Playboy após a cirurgia. Ela era a coisa mais linda do mundo. Tinha um ca-be-lo! Roberta sabia, literalmente, jogar cabelo. Bronzeada! Os homens enlouqueciam. Linda, linda, linda. E engraçada. No caminho, ela perguntou se eu queria ver o resultado da operação e levantou o vestido. O motorista quase capotou!

Mais tarde, pulamos a janela do hotel e fomos para um quiosque badaladíssimo. Era alta estação, a cidade estava cheia de argentinos e nós lá, escondidos, porque as fotos seriam ao raiar do dia seguinte. De vestido branco curto, ela sentou no balcão sem calcinha e começou a cruzar as pernas, deixando todo mundo hipnotizado. Foi a cena da Sharon Stone em Instinto Selvagem, só que anos antes de o filme existir.

CLAUDIA: Tem também a história da sua reprovação no curso de cabeleireiro.

Biaggi: Na seleção, na verdade. Arrasei no exame escrito. Sou do tipo que tirava nota 10 na escola – um dia, tirei 8,5 e morri de chorar. Pode perguntar para minha mãe. Daí quiseram saber por que eu queria entrar na profissão. Falei: “Quero ser famoso”. Fui reprovado. Seis meses depois, mudei o discurso. Disse que varria cabelo num salão e que o dono me daria uma oportunidade se fizesse o curso. Aí passei.

CLAUDIA: Você voltou a fazer planos. Quais são eles?

Biaggi: Nunca parei de sonhar. Por isso, estou vivo. A biografia é um projeto que me move, assim como a linha de produtos de cabelo que vou lançar no ano que vem. Quero montar uma versão express e mais barata do meu salão. E ainda voltar aos dois lugares de que mais gosto no mundo: Nova York, para ver tudo o que tem de novidade, e Copacabana. Adoro passear pelo calçadão, ouvir as piranhas e as travestis gritarem que me amam, aquele fubá, a mistura de gente. Quero caminhar do Leme ao Leblon, com o sol esturricando minhas costas, parar no Arpoador e tomar minha água de coco. Voltar e fazer tudo novo. De novo.