Inventei uma carreira pra mim, diz Mônica Martelli

À beira dos 50 anos, Mônica conta como saiu do pequeno papel que fazia em uma novela infantil para ser a atriz e dramaturga de sucesso

Só clima lembra São Paulo neste final de manhã abafada e com prenúncio de chuva à tarde. O cenário, porém, nem de longe remete à metrópole tumultuada e tensa. No lobby do hotel Palácio Tangará, abraçado pelo Parque Burle Marx – uma mata preservada na nobre região do Morumbi –, surge pontualmente a atriz, dramaturga e cronista Mônica Martelli. Está empolgada. “É a primeira vez que sou capa de CLAUDIA”, diz ela, que foi colunista da revista entre 2015 e 2016.

“Tudo na minha vida aconteceu mais tarde. O reconhecimento profissional só chegou aos 36 anos e tive uma filha aos 41. Sou fora dos padrões.”

Ela fará aniversário em 17 de maio e quer comemorar muitíssimo. Considera-se a empreendedora de si mesma, uma mulher que se fez sozinha, sem contar com o empurrão de diretores de cinema, de patrocinadores e fora do elenco da Rede Globo.

Tudo porque se recusou a ficar em casa esperando o telefone tocar com um convite para a novela que nunca viria. “Eu passava dos 30, estava separada, não tinha filhos nem um cachorro enorme igual ao dos filmes”, lembra. Um tanto desiludida, sentou-se diante do computador e escreveu. Despejou suas angústias, decepções, os milhares de “nãos” que ouviu… Da catarse, animada pelo humor incrível que a tornaria famosa, nasceu o monólogo Os Homens São de Marte… E É pra Lá Que Eu Vou. A peça estreou em 2005 em uma salinha para 100 pessoas no Rio. O boca a boca fez formar filas intermináveis na porta. As espectadoras se identificavam com a personagem Fernanda, uma mulher de 39 anos que tenta achar o grande amor. Palco e plateia viviam “uma grande terapia em grupo”, recorda ela.

Premiada, a comédia ficou 11 anos em cartaz e foi vista por 2,5 milhões de pessoas. Virou filme em 2014, arrastou 2 milhões de pagantes e sagrou-se a segunda maior bilheteria do cinema nacional naquele ano. A produção terá desdobramento em novo filme este ano. Já rendeu uma série homônima, que entra na quarta temporada, no canal pago GNT, onde Mônica se mantém como apresentadora do programa Saia Justa. A peça também ganhou continuação.

Em Minha Vida em Marte, Mônica revela os dilemas da mesma Fernanda, aos 45 anos, enfrentando uma espinhosa crise conjugal. Mais uma vez, a vida da atriz é seu propulsor criativo, a história que faz rir e emociona os outros. Do Teatro das Artes, no Rio, onde está desde maio do ano passado, irá para o Teatro Procópio Ferreira, na capital paulista, no segundo semestre.

 (Fred Othero/CLAUDIA)

Adeus, gostosona. “Não tem trajetória igual à minha. É muito difícil sobreviver de arte no Brasil quando não se tem um contrato com a Globo”, observa. “Investi em mim do meu jeito, sem fórmula pronta, e deu certo. Mas não foi fácil, não.” Mônica andava sem grana até para pagar o aluguel. “Fazia o papel de tartaruga em Caça Talentos, a novela infantil da Angélica, ou pegava, no máximo, uma participação como a gostosona do Zorra Total.” Aliás, foi naquele tempo que surgiu seu nome artístico. O humorista Chico Anysio, comandante do Zorra, olhou para ela e – com sua fantástica sabedoria e experiência artística – viu que não funcionaria seguir usando a assinatura Mônica Garcia, que produzia uma terrível cacofonia, com a junção da última sílaba do seu nome com a primeira do sobrenome. Então, a fluminense de Macaé, nascida Mônica Garcia Assis, sacou o Martelli entre os sobrenomes do clã materno e o adotou como seu.

“A família olhava para mim com pena. Meu pai era empresário; minha mãe, pedagoga; meu irmão, matemático; minha irmã, médica. E eu era a artista.” Mônica se lembra de que eles botavam os olhos nela, pensando: “Essa aí ainda insiste nisso de ser atriz… Devia fazer outra coisa”. Marilene Garcia, 72 anos, a mãe, disse finalmente a ela: “Filha, você quer ser atriz? Então pega um caixote, leva para a praça, sobe nele e começa a falar sua verdade para o mundo”. Estava dado o tom. “Entendi tudo. Eu tinha de construir minha estrada, e não ficar esperando os outros investirem em mim”, recorda. “Nunca mais fiquei na fila de teste para conseguir um papel.”

Marilene foi uma figura essencial para Mônica. Ensinou a ela que uma mulher não deve depender de homem algum e que jamais se cala. “Minha mãe foi a primeira vereadora de Macaé, aos 38 anos, em 1982. Não havia banheiro feminino na Câmara porque era inimaginável a eleição de uma mulher. Ela precisava ir ao hotel em frente para fazer xixi”, conta. “Mas resolveu protestar. Só deixou de levar um penico para o plenário no dia em que inauguraram um banheiro para mulheres.”

A sugestão de encenar em cima de um caixote acabou levando Mônica a revisitar a menina empreendedora que havia sido. “Aos 9 anos, tive uma ideia olhando para as árvores de jambo, pitanga e manga do quintal. Peguei as frutas, transformei em suco e vendi para os alunos do famoso professor de filosofia Cláudio Ulpiano (morto em 1999), que era meu vizinho”, lembra. No final do dia, reuniu seu primeiro dinheirinho e gastou na sorveteria, cheia de orgulho. “Respeito muito a mulher que opta por cuidar só da casa e vive da grana do parceiro. Mas, neste mundo, quem tem dinheiro dá as cartas. Para mim, depender financeiramente do marido pesa. É um preço muito alto a pagar se o que quero é independência.”

 (Fred Othero/CLAUDIA)

A MARCA DO ABUSO SEXUAL. Seu corpão esguio, beirando 1,80 metro aos 15 anos, tornou-a uma adolescente meio esquisitinha. “Ser alta traz insegurança. A gente aprende a olhar de baixo para cima, para não parecer arrogante”, explica. Naquela fase hesitante, com pouca confiança em si mesma, topou caminhar na praia com o surfista por quem se apaixonara. A noite estava quente, os amigos faziam um luau; o casal foi se afastando dos olhos de todos. “Ele começou a demonstrar que queria sexo. Fiquei paralisada. Logo pensei que, de biquíni naquele lugar escuro, na areia, a culpa só podia ser minha. Sem que eu quisesse, ele fez sexo comigo”, recorda. Mônica não reagiu, ficou mal e se recusou a namorar por um bom tempo. “O sentimento ruim, por ter sido estuprada, me incomodou por dentro até eu conseguir falar do assunto no Saia Justa, há mais de um ano”, afirma. “Não planejei contar que tinha sido vítima, simplesmente saiu. Só foi possível perceber isso com um olhar adulto.”

As discussões sobre feminismo, que pegam fogo no programa – e no país inteiro –, foram fundamentais nesse processo de autodescoberta e cura. “De uns anos para cá é que nós estamos sabendo direito o que é assédio. Fui assediada a vida inteira e não tinha esse entendimento, o nome certo para dar aos fatos”, comenta.

No fim da adolescência, com os pais separados, mudou-se com a mãe e os irmãos para o Rio. “Ganhei minha grana trabalhando em shopping.” Mais tarde, virou-se com bicos de babá e de garçonete nos Estados Unidos enquanto treinava o inglês. “A sensação de liberdade era incrível, sobretudo quando me empreguei em um restaurante italiano em Nova York e podia acordar ao meio-dia.” De volta, encheu a agenda. “Estudava jornalismo de manhã, era maquiadora à tarde e fazia um curso de teatro na Casa de Artes de Laranjeiras à noite”, enumera. Aos 21 anos, casou-se com o fotógrafo Livio Campos, 11 anos mais velho. “Ele fazia todas as capas dos discos legais. Trabalhei com ele como maquiadora.” O primeiro make, em Cássia Eller, nunca esqueceu. Assim como lembra com carinho o de Sarajane, na época um estouro no axé. “Lívio foi um grande amor; o casamento durou seis anos”, conta. Com ele se retirando de cena, ela ficou meio deprê. Ouviu o tal conselho de usar o caixote, focou na carreira e disciplinou-se.

A peça que mudou a vida de Mônica chegou com uma grande perda. O pai, vítima de um câncer aos 72 anos, assistiu à estreia e se foi logo depois. “Vivi todas as dores no palco. Ele não viu meu sucesso”, lamenta. Ironia do destino, a irmã, Susana Garcia, 47 anos, largou a medicina e virou diretora de teatro, cinema e TV. “Ela me entende pelo olhar. Moramos no mesmo prédio, no Leblon. Susana é minha diretora em tudo, sabe exatamente a forma como quero interpretar.”

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 (Fred Othero/CLAUDIA)

A FILHA NA MESMA PEGADA. O deleite da atriz é ver a única filha, Julia, 8 anos, dando os primeiros passos no palco. “Ela está fazendo A Fada Que Tinha Ideias”, revela, orgulhosa. “Mulher tem isso do relógio biológico, que é cruel. Perdi duas gestações antes da gravidez da Julia, aos 45 segundos do meu segundo tempo”, diz. “É a coisa mais especial da minha vida. Converso sobre tudo com ela.” Até os 4 anos, Julia viajava com a atriz por todo o país. “Filho tem de ficar perto”, afirma. A garota entrava no palco e agradecia os aplausos com a mãe. Agora na escola, não a acompanha mais. Giselle e Michelle Santos, que são irmãs, cuidam dela enquanto a atriz trabalha. Julia é fruto da união de dez anos com o produtor musical Jerry Marques, atualmente na equipe de Gilberto Gil.

Jerry a apoiou muito na primeira peça; lia o texto, elogiava. Depois, virou produtor da mulher. “A separação foi difícil; eram vários laços para desfazer”, explica. Além dos laços, havia uma filhinha de 3 anos tentando se dividir entre eles. Mônica sentiu, de novo, o medo e a insegurança da adolescente de Macaé. “A separação muda tudo, é um luto. O casal abandona aquele futuro que havia projetado. Não é mole.”

O fim inspirou Minha Vida em Marte. “A personagem quer resgatar a paixão, o tesão, o casamento quase naufragado”, resume. Mônica crê que o tempo cura muitas coisas. “Hoje vivemos uma relação ótima. Mas Jerry não foi ver a nova peça. Tenho de respeitar o tempo dele.” O dela nem foi tão longo. “A gente tira força não sei de onde. Aprende, anda e cai, depois levanta, igual a um bebê caminhando”, filosofa. “Teve dor, teve ressentimento, sim. Mas existe Julia. Não quis atrapalhar a relação de Jerry com ela.” No dia em que o pai saiu de casa, entrou Tiana. A cachorrinha comprada pela atriz não substituiria ninguém, mas preencheria um enorme vazio. Depois virou a fiel escudeira da família. Sessões de terapia para a mãe e a filha ajudaram a segurar a onda. “Faço há mais de 20 anos, sem possibilidade de alta”, diz, bem-humorada.

 (Fred Othero/CLAUDIA)

A SOLTEIRA QUER SER FELIZ. Mônica está belíssima na sua versão 5.0. Para fazer as fotos que ilustram esta conversa, a produção testou várias peças; todas lhe caíram muito bem.

“Malho duas vezes na semana e faço pilates, além de estar em cartaz, o que já é uma ginástica”, brinca. “Para mim, almoço tem de ter arroz e feijão. Não engordo. Herdei uma genética boa e um metabolismo acelerado.” Ela diz que não fez plástica, mas colocou Botox e aderiu ao tratamento a laser. “Não sou a maluca da estética, mas, se aparecer uma coisinha nova que vai me deixar mais bonita… Ah, eu faço, sim!”

Está solteira, com a crença de que é possível ser feliz sozinha. Namorou por três anos o investidor Patrice de Camaret e manteve uma relação com o empresário Marcelo Augusto dos Santos até o ano passado. “Terminada a fase da paixão, é preciso haver planos em comum. Os dois namoros acabaram por falta disso”, explica. O ponto de atenção permanece no trabalho. “Inventei uma carreira, sou responsável pelos meus projetos, emprego muita gente, sou patroa. Este ano vou lançar um canal no YouTube para o público de 20 a 30 anos, com dicas de relacionamento. Não posso parar de produzir”, diz. “E, se a velha insegurança bate, ela não me paralisa mais.”

Mônica para uns instantes pensando no que acabou de pronunciar e acerta a fala. “Às vezes reassumo aquela adolescente insegura. Não é ruim. Ela me traz a humildade necessária para não subir ao lugar da prepotência insuportável, aonde muitas pessoas vão quando fazem sucesso”, reflete. “Acho importante uma pequena dose de incerteza também. No trabalho, no amor, em todas as outras relações”, conclui Mônica enquanto caem as primeiras gotas de chuva, no final da tarde, na cidade de São Paulo.